Hawn entrou na sala com uma prancheta nas mãos.
— A lista de chegada foi confirmada. Os ônibus devem chegar por volta das nove da manhã.
Dongae assentiu lentamente, ainda com o olhar perdido do lado de fora.
— Hawn… quero que você os recepcione por mim. Cuide de cada detalhe da chegada, entregue os kits de boas-vindas, explique sobre o hospital, mostre a cidade. Quero que sintam que não estão apenas vindo trabalhar — estão vindo fazer parte de algo.
Hawn sorriu, entendendo a importância da missão.
— Pode deixar. Já organizei o translado da rodoviária, e os kits estão prontos.
Dongae se virou, pegando um documento da mesa.
— Como você sabe, como não temos muitas casas desocupadas, construímos o edifício anexo ao hospital, com quitinetes individuais para cada funcionário. A maioria é solteira, então isso resolve bem. Mas temos quatro apartamentos de dois quartos, caso alguém tenha trazido família, filhos… ou até mesmo algum parente idoso.
Ele pausou, então olhou fixamente para Hawn.
— Você fez as entrevistas. Conhece esses profissionais melhor do que eu. Confio que saberá onde alocar cada um de forma justa.
— Claro, senhor. A doutora Jisoo, por exemplo, vem com o filho pequeno. Já reservei um dos apartamentos maiores para ela. Também temos um técnico que trouxe a mãe idosa — ele vai para outro desses espaços.
— Ótimo — murmurou Dongae, voltando a sentar-se em sua cadeira. — Essas pequenas coisas fazem toda a diferença.
Hawn se aproximou da porta, mas hesitou.
— Vai querer estar presente na recepção da noite? Teremos um jantar simples com os novos funcionários no refeitório.
Dongae respirou fundo, pensativo.
— Não... hoje não. Diga a eles que estou ansioso para conhecê-los individualmente nos próximos dias. Mas hoje... eu só quero silêncio.
Hawn assentiu, entendendo sem questionar.
— Farei como pediu. E... prefeito — ele completou, antes de sair — eles vão sentir que chegaram a um bom lugar.
Dongae apenas balançou a cabeça em agradecimento, voltando o olhar para a planta baixa do hospital sobre sua mesa.
Fim de tarde — Refeitório Comunitário da Ala Residencial do Hospital
As luzes suaves deixavam o ambiente aconchegante, refletindo nos vidros recém-instalados. As mesas, decoradas com flores locais e pratos típicos preparados pelas cozinheiras da cidade, estavam cheias de risos e conversas tímidas entre os recém-chegados. A comunidade estava animada com a chegada dos profissionais de fora.
Hawn circulava com seu habitual sorriso calmo.
— Boa noite a todos! Sejam bem-vindos oficialmente a Hangangri. Esperamos que se sintam acolhidos, pois essa cidade, apesar de pequena, é feita de grandes corações. — dizia ele enquanto entregava folhetos informativos.
Entre os presentes, dois novos médicos chamavam atenção: Minjae, de cabelos loiros e olhar intenso, e Sion, de feições suaves e sorriso doce. Eram ômega, algo raro — e especialmente raro em posições tão altas. Os cochichos começaram discretos:
— Dois ômegas? Médicos?
— Isso não é meio... perigoso?
Dongae, que até então observava em silêncio da entrada, ouviu claramente. Estava de sobretudo escuro, braços cruzados, discreto. Seu olhar cortante percorreu o salão até parar nos dois funcionários que murmuravam.
Com passos firmes, aproximou-se.
— Não admitirei distinções de gênero nesta cidade. O que buscamos aqui são os melhores profissionais, não importa se são alfas, betas ou ômegas. Qualquer preconceito será tratado como desrespeito à comunidade inteira.
Achava que tinha falado baixo, mas o salão inteiro se calou para escutá-lo. O silêncio se transformou em atenção.
Hawn, percebendo o clima pesado, pegou o microfone improvisado e suavizou com leveza:
— E por favor, vamos viver em paz, respeitando o ABO de cada um... e sem feromônios aleatórios, tá bem? — disse com um sorriso travesso. — Agora, vamos aproveitar! Toquem a música!
Os convidados riram, descontraindo o ambiente, e logo a música suave começou a preencher o salão. Minjae e Sion trocaram olhares e sorriram timidamente, levantando suas taças e acenando discretamente em agradecimento a Dongae, que apenas assentiu de longe, sério, mas com o olhar mais calmo.
No canto, a senhora Kim ainda conversava com a doutora Jisoo, que embalava o pequeno Jiho no colo, tocada por tudo o que havia acabado de ver.
— Ele não é como os outros prefeitos... — sussurrou a doutora.
— Não, meu bem — respondeu Kim, sorrindo — … ele é um lobo diferente.
Após o discurso e a música começar a tocar, Dongae saiu discretamente pela lateral do salão.
Preferia o silêncio. Sabia que seu dever estava feito ali — ele os havia acolhido como prometido. Agora, queria apenas voltar para casa e se recolher no conforto da sua solidão habitual. O som abafado da festa desaparecia conforme ele se afastava pelo corredor iluminado por lâmpadas quentes.
Enquanto isso, Minjae e Sion se aproximaram de onde a senhora Kim conversava com a doutora Jisoo, que segurava seu filho, Jiho, no colo.
— Posso? — perguntou Minjae com um sorriso ao ver o garotinho brincar com os dedinhos da mãe.
— Claro — respondeu Jisoo, sorrindo enquanto entregava Jiho com cuidado.
Minjae, com leveza, o ergueu com carinho e fez cócegas de leve na barriga da criança, arrancando uma risada gostosa.
— Que figura! Qual o nome dele?
— Jiho. Tem só dois aninhos.
— Um fofo — disse Sion, aproximando-se e afagando o cabelo do menino.
— A propósito — disse Minjae, ainda balançando Jiho devagar —, qual é a sua especialidade, doutora?
— Ginecologia e obstetrícia — respondeu Jisoo, orgulhosa.
Minjae sorriu.
— Olha que trio interessante: eu sou pediatra, Sion é geriatra, e você cuida das mamães. Estamos bem distribuídos, hein?
Todos riram.
— E a senhora? — perguntou Sion à senhora Kim.
— Sou presidente da Associação de Mães e Filhos de Hangangri. Um projeto ainda em crescimento, mas com muito amor envolvido.
— Que bonito — comentou Minjae. — Foi a senhora que organizou essa recepção?
Senhora Kim fez um gesto modesto com a mão.
— Ajudei, claro. Mas quem coordena tudo é o prefeito… ou melhor dizendo, Dongae.
Os dois médicos se entreolharam, confusos.
— Hawn não é o prefeito? — perguntou Minjae.
— Não — respondeu Kim, dando uma risadinha. — O senhor de preto d camisa vermelha que defendeu vocês agora há pouco… ele é o prefeito.
— Ele é diferente. — Jisoo disse, sorrindo com o pequeno Jiho adormecido em seu colo. — Acho que carrega algo dentro dele que não conseguimos ver à primeira vista.
Sion assentiu.
— Fiquei impressionado… nunca vi uma liderança assim. Talvez aqui seja um bom lugar pra começar de novo.
O grupo permaneceu em silêncio por alguns segundos, como se refletissem sobre o que tinham acabado de testemunhar. Aos poucos, as conversas voltaram a fluir.
Logo após a sobremesa, Hawn apareceu entre as mesas, chamando os grupos com papéis na mão.
— Vamos encaminhá-los para suas novas moradias, pessoal! Cada nome que eu chamar, me acompanhem, certo? As quitinetes já estão prontas e suas malas foram levadas até lá.
Minjae e Sion se despediram de Jisoo e da senhora Kim, e acenaram em agradecimento novamente.
— Obrigado pela recepção… e pelo acolhimento — disse Sion.
— Nos vemos amanhã no hospital — completou Minjae, sorrindo.

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