No auditório do hospital recém-finalizado, Hawn falava em frente aos novos funcionários, com a postura firme e a voz clara.
— Agora que todos receberam seus alojamentos e documentos de identificação, vou explicar uma última e importante diretriz.
Ele fez uma pausa e olhou em volta, certificando-se de que tinha a atenção de todos.
— Os ômegas e betas ficarão em uma ala separada, projetada exclusivamente para eles. Essa ala tem detectores de feromônios alfas, então qualquer tentativa de entrada por parte de um alfa resultará em alerta imediato.
Alguns murmurinhos começaram entre os presentes. Hawn continuou com firmeza.
— Se alguém for pego tentando invadir a ala dos ômegas e betas, ou liberar feromônios de forma proposital, será demitido por justa causa, conforme o contrato que todos assinaram.
Ele então suavizou o tom, tentando mostrar empatia.
— Sabemos que em períodos de cio ou rüt, os instintos podem ser difíceis de controlar. Por isso, recomendamos que nesses dias vocês procurem outro local — e uma sugestão viável é o motel no fim da cidade. Fica afastado, discreto, e aceitam reservas por hora ou diária. É uma questão de respeito e segurança.
Foi então que dois alfas dominantes, altos, com a postura arrogante típica, se levantaram. Um deles, de cabelo raspado, bufou alto.
— Isso é um absurdo! Estamos sendo tratados como criminosos só por sermos alfas!
— Exato! — disse o outro, cruzando os braços. — Se é pra ser assim, vou pedir demissão agora mesmo!
Hawn respirou fundo. Não era a primeira vez que lidava com esse tipo de ego inflamado. Com calma, aproximou-se dos dois e respondeu com firmeza:
— Senhores, todos vocês leram e assinaram os termos de conduta e o contrato de trabalho. Essas regras foram estabelecidas para proteger a todos, inclusive vocês.
O primeiro alfa tentou interromper, mas Hawn ergueu a mão.
— Se optarem por se demitir, estarão em seu direito. Mas saibam que, ao assinarem o contrato, abriram mão de reclamar dessas diretrizes futuramente. Isso está registrado e será arquivado junto ao setor jurídico da prefeitura. Então, podem decidir agora: ou permanecem com responsabilidade, ou saem pela porta da frente — mas sem escândalo.
Os dois se entreolharam, frustrados. Um deles resmungou algo ininteligível e saiu, empurrando a porta. O outro, mais hesitante, abaixou a cabeça e sentou-se novamente.
— Muito bem. — Hawn se recompôs, voltando ao centro. — Quem quiser ir, está livre para isso. Quem ficar, saiba que vamos trabalhar duro, mas com respeito e organização. Agora, aproveitem o resto da tarde para descansar. Amanhã começam os treinamentos.
Mais tarde, o céu já começava a escurecer quando Hawn saiu do hospital, os ombros pesados de cansaço. Nem notou Dongae encostado no carro preto na entrada.
— Parece que o dia foi longo — comentou Dongae, com as mãos nos bolsos.
Hawn suspirou, deixando escapar um leve sorriso.
— Longo é pouco. Achei que ia dar confusão, e deu. Mas consegui resolver sem precisar gritar... muito.
Dongae riu baixo.
— Você lidou bem. Sério. Não é fácil manter a ordem com tantos instintos pulsando no mesmo prédio.
Hawn passou a mão pelo rosto.
— E eu ainda tenho que revisar o cronograma da inauguração...
— Não hoje. — Dongae o interrompeu. — Você vai pra casa. Tome um banho, coma alguma coisa e durma. Eu mesmo te dou o dia de folga amanhã.
Hawn arregalou os olhos.
— Está me dando folga? Você? O cara que não para nem no feriado?
Dongae deu de ombros, com um sorrisinho de canto.
— Considere um presente. Você merece. Volte descansado pra finalizarmos tudo da inauguração. Vai ser o dia mais importante pra essa cidade em anos.
Hawn assentiu, visivelmente aliviado.
— Obrigado, Dongae. De verdade.
Os dois se despediram com um aceno leve. E enquanto Hawn entrava no carro, Dongae voltou a olhar para o hospital iluminado. Sabia que aquela festa de inauguração seria apenas o começo de muitas mudanças… e desafios.
Dormitório dos ômegas – Ala B
O corredor estava silencioso, iluminado apenas pelas luzes suaves das arandelas nas paredes. As portas de cada quitinete estavam fechadas, algumas já com pequenos enfeites ou tapetinhos indicando a chegada dos novos moradores.
Minjae girou a maçaneta da sua porta e olhou para o lado. A porta ao lado abriu ao mesmo tempo.
— Ei, vamos beber só uma latinha? — perguntou Sion, com uma expressão calma, mas o olhar cansado.
Mijae assentiu com um leve sorriso.
— Só uma. Mas se eu ficar bobo, a culpa é sua.
Eles entraram no pequeno apartamento de Sion. Era limpo, minimalista, e quase vazio.
Uma mala pequena estava num canto, e ao lado dela uma caixa de papelão com alguns livros bem organizados. A cama ainda não tinha sido arrumada, e o frigobar estava vazio, exceto pelas duas latas de soju que Sion tirou dali.
— Você trouxe tão pouca coisa — comentou Mijae, olhando ao redor.
— Trouxe só o necessário — respondeu Sion, entregando uma das latas. — Quero recomeçar. Sem lembranças. Sem bagagem.
Mijae abriu a latinha e deu um gole. Olhou para Sion com certa curiosidade, mas sem pressioná-lo.
— Você não queria falar disso nem na faculdade... Mas tudo bem. Eu entendo. Recomeços merecem silêncio, às vezes.
Sion sorriu de canto. Sentaram-se no chão, encostados na parede sob a janela. O vento da noite era fresco e trazia o cheiro das montanhas.
— E você? — perguntou Sion, olhando para ele de lado.
— Eu quero... amor. — Mijae riu de si mesmo. — Bobo, né? Mas é isso. Quero um trabalho estável, uma casa simples, alguém pra dormir de conchinha... essas coisas.
Sion riu com delicadeza, um som raro vindo dele.
— Não é bobo. É corajoso dizer isso em voz alta.
Por um momento, ficaram em silêncio. O clima era leve, nostálgico. Havia algo bonito naquele reencontro inesperado.
— Na verdade, eu fiquei feliz quando vi seu nome na lista da equipe — disse Mijae, mais baixo. — A gente se afastou tanto...
— Foi minha culpa — murmurou Sion. — Eu... precisei de distância. Mas ver você na entrevista me deu um choque de realidade. O mundo não espera a gente se curar, né?
Mijae tocou de leve o ombro de Sion.
— Mas agora a gente tá aqui. E parece um recomeço bom. Tipo, de verdade.
Sion suspirou, relaxando um pouco mais.
— Eu só quero paz. Nessa cidade pequena, talvez eu consiga. Eu só... espero que ninguém me olhe como se eu fosse frágil ou uma peça decorativa.
Mijae o encarou com carinho.
— Você chama atenção. Até dos betas. — riu. — Mas não é por ser frágil, é por ser bonito mesmo. Delicado, mas com presença. Um monte de alfas ficaram olhando pra você na festa.
Sion desviou o olhar, sem saber o que dizer. Seu rosto corou levemente.
— Isso é um problema...
— Não é. Só não se esconde tanto. A gente tá começando de novo, lembra? Seja você mesmo dessa vez.
Sion assentiu devagar. Bebeu mais um gole e olhou para a lua pela janelinha.
— Obrigado, Minjae. Por ainda ser... você.
— Sempre serei. E se eu arrumar um amor antes de você, prometo que vou te apresentar alguém legal.
— Tsc... idiota — disse Sion, rindo mais leve.
A conversa continuou em sussurros, com risos suaves e um conforto mútuo que só antigos amigos poderiam dividir. Naquela noite, dois corações machucados compartilharam esperança e silêncio — e isso já era o começo de algo novo.

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