Ele trancou a porta atrás de si e seguiu direto para o quarto escondido no subsolo — o único lugar onde se sentia seguro o bastante para enfrentar o que viria. O ambiente era amplo, mas fechado, sem janelas. O revestimento acústico nas paredes impedia que qualquer som escapasse. No canto, um frigobar, uma poltrona de couro escuro, uma cama larga com lençóis de algodão reforçado e o mínimo de móveis. Tudo ali era funcional, planejado para suportar o peso do seu instinto incontrolável.
Dongae retirou a camisa lentamente, o corpo já começando a aquecer demais. Os primeiros sintomas vinham como ondas sutis — um calor crescente no peito, a pele arrepiando como se tocada por mãos invisíveis. Abriu o frigobar, pegou uma garrafa d’água e bebeu em goles longos, sentindo a garganta seca e áspera. Seus olhos brilharam por um segundo, a pupila começando a dilatar.
Sabia que era só o começo.
Sentou-se na poltrona, tentando manter o controle por mais alguns minutos, talvez uma hora. Mas a verdade era que já estava ficando difícil pensar com clareza. Os feromônios estavam se acumulando no ar, densos, carregados de energia crua. Seu lobo interior rosnava baixo dentro dele, impaciente.
“Eu odeio isso.” O pensamento ecoou em sua mente, amargo. “Odeio perder o controle, mesmo sozinho.”
Encostou a cabeça para trás, os olhos fechados. Seu corpo tremia levemente, e ele sabia que em instantes não seria mais possível resistir. Estava prestes a mergulhar naquele ciclo de febre, suor, gemidos sufocados e instinto. Sozinho. Sempre sozinho.
“Melhor assim.” Disse a si mesmo em silêncio. “Não coloco ninguém em risco. Não destruo ninguém com isso.”
E então… a dor começou. O rüt finalmente o alcançou por completo.
O tempo dentro do quarto secreto era impossível de medir. A iluminação suave permanecia constante, sem janelas ou relógios, como se o mundo lá fora tivesse deixado de existir. No terceiro dia, Dongae já havia perdido a noção da realidade — o corpo cansado, suado, os lençóis encharcados de feromônio e desejo. O cheiro era tão forte que impregnava as paredes, tornando o ar quase irrespirável.
A dor não diminuía. O desejo não cessava. Já tinha se tocado tantas vezes que o prazer começava a parecer punição. Não havia mais prazer, apenas necessidade.
Foi então que ele ouviu.
— Você está me matando aos poucos, Dongae... — sussurrou uma voz dentro de sua mente. Grave. Familiar. Animal. — Por que você resiste tanto? Saia. Você precisa.
Dongae se encolheu na cama, os músculos em tensão, os olhos apertados.
— Cala a boca… você não é real… — murmurou entre os dentes cerrados.
— Eu sou parte de você. Eu sou o que você é. Você é um alfa dominante supremo, nasceu para marcar, para dominar, para tomar... Não há vergonha nisso. Por que se recusa a viver sua natureza?
— Porque ela machuca! — gritou, batendo com força a mão contra a parede acolchoada. — Machuca os outros… machuca a mim…
O lobo dentro dele riu, um som gutural e sedutor, feito um rosnado abafado.
— Você se reprime tanto que já nem sabe quem é. Me deixa guiar só uma vez. Vamos sair… encontrar alguém… qualquer um... um cheiro doce já bastaria. Só abrir a porta. Só isso.
Dongae se levantou, cambaleando. O corpo tremia, os olhos marejados. Caminhou até a porta reforçada. A mão encostou no trinco.
Silêncio.
Por um segundo, o lobo achou que havia vencido.
Mas então Dongae, com a respiração ofegante, encostou a testa na porta e sussurrou:
— Eu sou mais forte que você. E se não for… vou morrer tentando ser.
Deu um passo para trás. Outro. Caiu de joelhos no chão, arfando. O lobo rugiu dentro dele, em fúria.
— Covarde.
— Some da minha cabeça. Eu não sou você.
E mais uma vez, se arrastou de volta para a cama, fechando os olhos, tentando apagar os sentidos, tentando se manter inteiro.
Sozinho. Mas ainda dono de si.

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