Lá fora, a cidade seguia viva. Carros cruzavam avenidas, enfermeiros corriam de um leito a outro, a ala Ômega se adaptava ao seu novo ritmo. E o prefeito Dongae continuava ausente, trancado em sua caverna de isolamento e autocontrole.
Hawn, como sombra fiel, fazia tudo o que lhe havia sido pedido — passava pela delegacia, revia os turnos de plantão, visitava a associação, cuidava da ordem geral como se fosse o próprio sangue da cidade circulando.
Mas no hospital, os rumores cresciam. Funcionários recém-contratados sussurravam pelos corredores.
— O prefeito não vai vir ver o hospital em funcionamento?
— Ele não veio nem no primeiro atendimento…
— Ele ficou doente?
Hawn respondia sempre o mesmo, com um sorriso neutro e ensaiado:
— Está muito ocupado. Trabalhando em assuntos maiores.
Até que Sion o chamou. Estava pálido, os olhos ligeiramente fundos, mas o tom de voz permanecia firme. Ele pediu para conversar em particular e Hawn, sem hesitar, o acompanhou até o consultório.
Fechada a porta, Sion falou:
— Senhor… tem algum lugar afastado, bem longe de qualquer pessoa… pra eu passar meu cio?
Hawn ergueu uma sobrancelha, pego de surpresa.
— Você tomava inibidores, certo?
— Tomava. Mas pararam de fazer efeito. Comecei a passar mal, a vomitar. Meu corpo está rejeitando tudo.
Hawn cruzou os braços, mais sério.
— Você não tem ninguém com quem passar?
— Não… e nem quero ter. — respondeu rápido, quase ríspido, desviando o olhar.
Hawn o analisou em silêncio. Um ômega bonito, jovem… e completamente fechado. Mas não insistiu. Apenas assentiu, sacando o telefone.
— O prefeito tem um sítio nos arredores. Fica vazio, o caseiro saiu de férias. É isolado, seguro, e você vai ter privacidade. Vou mandar um motorista beta. Ele te deixa lá e volta. Só me avise quando acabar, que a gente vai te buscar.
Sion respirou aliviado, pela primeira vez em dias.
— Obrigado. Acho que vou precisar de três dias.
Hawn o olhou com mais atenção agora, vendo pela primeira vez o cansaço nos olhos, o peso de algo que não tinha nome.
Mas não perguntou. Ele era um alfa, e Sion claramente não queria falar com alfas.
O que Hawn não sabia — o que ninguém ali sabia — era a tempestade que Sion carregava no peito. O passado que ele nunca contara, que escondia até de si mesmo. Um passado que cheirava a sangue e abandono.
Seus pais eram alfas. Duros. Frios. E mais de uma vez tentaram vendê-lo. Ômegas jovens e bonitos como ele sempre tinham mercado — para alfas velhos, doentes, viciados.
A primeira vez que achou que se apaixonaria, foi só mais uma armadilha. O garoto também havia sido vendido pelos pais. E descontava em Sion a dor que sofria, com socos, insultos, ameaças.
Sion resistiu, recusou-se a entregar seu corpo, e por isso apanhava. Foi então que rompeu. Disse ao pai que não era mais seu filho. E como resposta, quase foi morto.
A única coisa boa que os pais lhe deram foram os estudos. O resto, ele mesmo construiu. Com silêncio. Com ódio. E com muita, muita disciplina.
Nada disso foi dito a Hawn. Porque Hawn era um alfa. E Sion não confiava em alfas.
Mas mesmo assim, quando o carro encostou na frente do hospital, com o motorista beta aguardando, Sion sentiu algo diferente.
Talvez… só talvez… alguém ali estivesse cuidando dele.
Sem exigir nada em troca.
No segundo dia do cio de Sion, o rüt de Dongae enfim cedeu. O corpo ainda estava dolorido, a mente levemente embaralhada, como se a fera dentro dele tivesse apenas adormecido, não desaparecido por completo. Mas Dongae já conseguia respirar sem feromônios transbordando.
Tomou um banho demorado, vestiu seu terno mais sóbrio e saiu em silêncio. Precisava retomar o controle, o foco — e nada melhor que ir ao hospital ver como tudo estava andando.
Chegou sem alarde, cruzando os corredores com sua habitual postura impecável. A ala pediátrica estava tranquila. Algumas crianças brincavam com brinquedos doados, outras assistiam desenhos em tablets fixados nas paredes. Um enfermeiro ômega, jovem e atento, cuidava de tudo com leveza.
— Enfermeiro Euno — disse Dongae, com um aceno de cabeça. — Como estão as coisas por aqui?
— Tudo bem, senhor. Nada grave hoje. Só acompanhamentos e revisões.
— Ótimo — murmurou, olhando ao redor. — E o Dr. Sion? Não o vi nos setores.
Euno olhou para ele, surpreso com o interesse, mas respondeu com naturalidade:
— Ah, o Sion tirou três dias de folga. Saiu ontem de manhã com o senhor Hawn.
Dongae assentiu, virando-se para ir embora. Mas, por dentro, algo repuxava.
"Três dias? Com Hawn? Ele está de folga… justo agora? Será que entrou no cio e saiu com alguém?"
Fechou o maxilar ao pensar isso. Não sabia por que aquilo lhe incomodava tanto. Talvez fosse apenas por querer que a equipe estivesse completa. Sim, claro… apenas isso.
“E mesmo que esteja com alguém… não é da minha conta.”
“Mas por que Hawn o levou? Isso sim é estranho…”
Saiu dali e seguiu para a delegacia. Lá, entrou direto na sala de monitoramento e falou com o agente de plantão.
— Quero ver as gravações externas do hospital. Voltem cinco dias no tempo.
— Sim, senhor.
O vídeo retrocedeu e começou a rodar. Dongae cruzou os braços, observando a tela em silêncio. Viu a movimentação do hospital, enfermeiros indo e vindo, Hawn passando com papéis, pacientes entrando.
Até que a imagem congelou em sua mente. Lá estava Sion, saindo pela porta dos fundos com Hawn ao seu lado. Ele parecia abatido, a pele pálida, os olhos baixos. Um carro da prefeitura os esperava.
Viu o momento exato em que Sion entrou no veículo. O carro partiu.
Dongae franziu o cenho. Um desconforto inexplicável atravessou seu peito.
“O que está acontecendo?”
“Será que Hawn está em um relacionamento com ele?”
Mas logo se forçou a desviar o olhar.
“E por que estou me importando com isso? Não tem nada a ver comigo…”
Fechou a tela. Deu um leve suspiro e saiu da sala. No corredor, deu de cara com Hawn.
— Prefeito. O senhor está bem melhor — disse Hawn com um sorriso breve.
— Vamos para a prefeitura. — foi tudo o que Dongae respondeu, seco.
Os dois seguiram em silêncio até o carro. No caminho, Dongae observava Hawn de canto de olho. A mente trabalhava rápido, conectando perguntas que não queria fazer.
Ao chegarem à sala de reuniões da prefeitura, Dongae trancou a porta. Ficou de pé diante da mesa, de costas para Hawn.
— Alguma coisa aconteceu…? — perguntou sem rodeios. — Com o Sion?
Hawn arqueou as sobrancelhas, mas respondeu com calma:
— Aconteceu. Ele me chamou pra conversar, estava muito mal. Os inibidores pararam de fazer efeito, e ele tava ficando doente com os sintomas do cio.
— Por que ele não avisou ninguém?
— Porque ele não queria ninguém com ele, Dongae. Disse que não queria passar o cio com ninguém.
Dongae virou-se lentamente, os olhos estreitos.
— Ninguém?
Hawn assentiu, sentando-se numa das cadeiras.
— Achei estranho também… mas o jeito que ele falou… me soou real. Como se ele não quisesse nem ter a chance de ser tocado. Ele me pediu um lugar afastado. Então lembrei do sítio. O caseiro saiu de férias, era perfeito.
Dongae recostou-se à mesa, tentando entender o que aquele desconforto dentro dele significava.
Hawn continuou:
— Eu não queria perguntar nada, mas senti que tem coisa pesada ali. Dor antiga. Trauma, talvez. Só que ele não fala… com alfas.
— Ele não confia em nós.
— Parece que não — Hawn confirmou. — Mas sabe o que me chamou atenção?
Dongae olhou para ele, esperando.
— Vocês têm muito em comum. — Hawn sorriu de canto. — Os dois vivem cercados de gente, mas isolados. Os dois evitam tocar quem amam… pra não machucar. Os dois se trancam pra passar por crises sozinhos. E ambos… carregam um lobo forte demais dentro do peito.
Dongae ficou em silêncio.
As palavras de Hawn ecoaram por dentro como se tivessem vindo do próprio lobo.
Ao ficar sozinho em sua sala na prefeitura, Dongae tirou o paletó e jogou sobre o encosto da poltrona. Sentou-se, massageando as têmporas com os dedos. Tinha acabado de ouvir tudo que Hawn contara — sobre Sion, o cio, o sítio afastado, o silêncio do pediatra em relação ao próprio passado. Mas mesmo com todas as respostas, ele sentia que as perguntas só aumentavam.
"Por que isso me incomoda tanto?" pensou, cruzando os braços. "Ele tirou três dias de folga. Está no cio, e daí? Isso não tem nada a ver comigo."
Levantou-se, inquieto, e caminhou até a janela, de onde se via a pracinha central quase deserta naquele horário. "Talvez seja porque ele não quis ninguém. Quem em sã consciência prefere passar o cio sozinho, se arriscando a sofrer, a entrar em colapso?"
Sua mandíbula se contraiu.
"Não é só isso..." O lobo dentro dele rosnou baixo, quase como um eco surdo que nascia no peito. Havia algo em Sion que mexia com ele, algo que desafiava seus instintos e sua lógica de alfa dominante supremo. "Ele é diferente. Não se curva. Não finge. Tem algo nos olhos dele…"
Dongae afastou-se da janela. Aquela curiosidade não era apenas racional — era instintiva. Sentia a vontade de entender, de chegar perto, de descobrir mais. E isso o incomodava.
"Você tá ficando mole, Dongae," murmurou para si mesmo, com um meio sorriso. "Curioso por um ômega que nem gosta de alfas..."
Mas no fundo, sabia que não era apenas curiosidade. Era um chamado silencioso, sutil… algo que ainda não queria nomear.

Comments (0)
See all