Dongae estava deitado na maca, o rosto suado e a respiração lenta. A injeção de Sion surtira efeito, mas seu corpo ainda parecia em alerta — os músculos retesados mesmo adormecido. Hawn observava de pé ao lado, preocupado. Pegou o celular e ligou para Kyro.
[TOQUE. TOQUE. CLIQUE – CHAMADA ATENDIDA]
Kyro (do outro lado da linha):
— Hawn? Aconteceu alguma coisa?
Hawn (voz baixa, olhando para Dongae):
— Sim. É o Dongae… Ele teve um surto. O lobo dele quase emergiu, mas não era um rüt. Era diferente. Ele sentiu o cheiro de Sion e... algo mudou. Você sabe o que tá acontecendo, Kyro?
Silêncio. Por alguns segundos, só se ouvia a respiração de Kyro do outro lado.
Kyro (suspirando):
— Alguém teria que saber uma hora ou outra...
Hawn:
— Me diga a verdade.
Kyro:
— Dongae... ele é um Alfa Dominante Supremo. O mais raro que existe. Em toda a Coreia do Sul, só existem dois registrados — e ele é um deles. O lobo dele é... diferente. Quase selvagem. Ele não apenas sente — ele absorve o cheiro de um ômega compatível como se fosse vital pra ele. E quando isso acontece, ele perde o controle.
Hawn (surpreso):
— Você tá dizendo que... ele pode se transformar?
Kyro (sério):
— Sim. Não completamente como os lobos das lendas, mas... quase. A força dele aumenta, os sentidos se sobrecarregam, os olhos ficam negros... e se não houver um vínculo emocional forte, o lobo assume por completo.
Hawn se virou para Dongae, agora entendendo a gravidade. Ele nunca havia visto o amigo tão vulnerável.
Hawn (sussurrando):
— Agora tudo faz sentido... Por que ele evita relações, por que nunca se aproxima demais de ninguém...
Kyro:
— Ele sempre teve medo. Medo de ferir, de se apegar, de se perder. E agora com esse tal de Sion... o cheiro dele deve ter despertado algo que estava adormecido.
Hawn (mais firme):
— O Sion é diferente. Ele não fugiu. Ele cuidou dele. Se assustou, claro… mas ficou.
Kyro:
— Então talvez... ele seja o único que o lobo de Dongae vai aceitar.
Hawn (olhando para Dongae adormecido):
— E se não for? E se ele perder o controle de vez?
Kyro:
— Então ele vai precisar de você, Hawn. Mais do que nunca.
CONSULTÓRIO DE PEDIATRIA, HOSPITAL – MADRUGADA
A luz do corredor entra suavemente pelas persianas entreabertas. O ar condicionado sopra leve, quebrando o silêncio. Dongae respira fundo, franzindo o cenho, e então lentamente abre os olhos. Seu corpo está mais leve, embora uma leve dor de cabeça lateje.
Ele se ergue devagar na maca.
Dongae (voz rouca):
— Onde...?
Hawn, que estava sentado numa poltrona próxima, se levanta imediatamente, seu semblante preocupado suavizando ao ver Dongae acordado.
— Você está no consultório do Sion. Ele te deu um calmante.
Dongae passa a mão pelo rosto, ainda confuso.
— Meu lobo... ele apareceu, não foi?
Hawn (sem rodeios, mas com cuidado):
— Sim. E eu sei o porquê.
Dongae congela. Seus olhos, antes ainda sonolentos, agora se fixam nos de Hawn com intensidade.
— O que você sabe?
Hawn (se aproximando, tom baixo e firme):
— Eu liguei pro Kyro. Ele me contou tudo... Sobre o tipo de alfa que você é. Sobre o lobo que carrega.
Dongae abaixa o olhar. Seus ombros largos agora pareciam pesar toneladas.
Dongae (quase sussurrando):
— Eu nunca quis que ninguém soubesse. Nem mesmo você.
— Eu sei. Mas agora que sei, entendo. Porque você se isola, por que nunca permite que ninguém chegue perto. O medo... não é do outro. É de si mesmo.
Dongae suspira fundo, apoiando os cotovelos nos joelhos e encarando o chão.
— Desde que meu lobo despertou, ainda adolescente, me ensinaram que eu podia destruir tudo se não tivesse autocontrole. E que... ninguém seria compatível comigo. Ninguém suportaria meu cheiro em rüt. Eu cresci acreditando que o amor era um risco — não um direito.
Hawn (ajoelhando-se à frente dele):
— Talvez você tenha acreditado nisso por tanto tempo... que esqueceu como é confiar. Mas Sion... ele viu seu lobo e não fugiu. Ele te segurou, te acalmou. Isso não é coincidência, Dongae.
Dongae ergue os olhos, tocado pelas palavras, mas ainda relutante.
— E se eu machucar ele? E se meu lobo não aceitar limites?
Hawn (segurando firme o olhar do amigo):
— Então você vai lutar com tudo o que tem pra não deixar isso acontecer. Porque você não é só o lobo. É o homem também. E eu te conheço, Dongae... você nunca machucaria quem ama.
Silêncio. As palavras pairam no ar.
Dongae (após um longo suspiro):
— Isso é... complicado demais.
Hawn (sorrindo de leve):
— É. Mas quem disse que coisas boas são fáceis?
Dongae esboça um sorriso cansado, mas sincero. Pela primeira vez em muito tempo, sente que não está completamente sozinho. Que alguém o vê — inteiro. Lobo e homem.
Dongae (encarando a porta):
— Ele fugiu, não foi?
— Correu como se tivesse visto um fantasma. Mas... acho que ele vai voltar. Sion parece do tipo que enfrenta os próprios medos.
Dongae (com um olhar que mistura expectativa e medo).
Dongae (baixando o tom da voz, como se confessasse um pecado):
— E não é só o lobo, Hawn... tem mais. Se eu fico chateado, irritado, ou se algo me tira do prumo... algo que mexa de verdade comigo… Todos que estiverem por perto entram instantaneamente em cio. É como se meus feromônios se libertassem sem controle, invadindo tudo. Até betas já foram afetados.
Ele se encosta na parede do consultório, o olhar perdido, como se relembrasse uma cena antiga, trágica.
Dongae (continuando):
— Imagine a loucura. Um hospital, um metrô, um restaurante... um lugar cheio de pessoas. E de repente, por minha causa, tudo vira um caos hormonal. Eu vi isso acontecer uma vez, e jurei pra mim mesmo que nunca mais deixaria acontecer de novo.
(pausa)
— Isso... só pode ser um castigo, Hawn.
Hawn (permanecendo em silêncio por alguns segundos, digerindo aquilo):
— Um castigo? Ou um dom que ninguém te ensinou a carregar do jeito certo?
Dongae solta uma risada amarga.
— Um dom que transforma qualquer lugar em um inferno de cio? Não me parece muito nobre.
— E se não for pra ser nobre, Dongae? E se for pra ser raro, pra ser único... pra ser respeitado? Talvez você não tenha tido ninguém que te olhasse com verdade e dissesse: "você não é perigoso. Você é especial."
Dongae ergue o olhar, surpreso pela intensidade serena nas palavras de Hawn.
— Sion... ele não fugiu quando meus olhos ficaram pretos. Mesmo com medo, ele ficou. Isso me assusta ainda mais. Ele... ele sentiu o cheiro. E gostou.
Hawn (com um sorriso leve, mas sincero):
— Talvez porque ele seja o único que pode, de fato, te encarar por inteiro. Sem filtros. Sem medo.
Dongae balança a cabeça devagar.
— Se ele soubesse o risco...
Hawn (interrompendo):
— Ele vai saber. E vai escolher por si mesmo. Não tira isso dele. Não esconde quem você é como se fosse um monstro. Você é muito mais do que a sua genética.
Silêncio.
Dongae (quebrando o silêncio com um tom melancólico):
— Eu não sei se tô pronto.
Hawn (apertando o ombro dele com firmeza):
— Ninguém tá. Mas a gente aprende no caminho. E você não tá sozinho.
Dongae fecha os olhos por um segundo, inspirando fundo. Pela primeira vez, sente que sua verdade foi ouvida — e aceita.
— Obrigado, Hawn.
Hawn (sorrindo):
— Só me promete uma coisa.
Dongae (erguendo uma sobrancelha):
— O quê?
— Que quando o Sion voltar... você fale com ele. Com honestidade. Ele merece saber... e você merece a chance de ser aceito.
Dongae apenas assente. Pela primeira vez, talvez, disposto a deixar que alguém veja o que há por trás da armadura.

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