Abriu os olhos, e teve a certeza de que sonhava.
Talvez por aquele cenário se repetir todas as noites sem exceções, mas era um fato que um ser de aura tão angelical só poderia ser fruto das mais criativas das imaginações. Não que a dele fosse particularmente brilhante, mas a visão à sua frente poderia apenas ser fruto apenas do ideário fantasioso de uma criança. A relva era de mil cores, alta e agradável, dela crescendo flores das mais diversas folhagens e perfumes. Pequenos lumes flutuavam no ar, acariciando seu rosto, preenchendo-o de uma paz que não existia em qualquer outro lugar do universo. Ao olhar para baixo, sua plumagem vermelha e dourada descansava contra a grama macia, um conforto aquém apenas do calor gostoso do colo de uma mãe.
E então, ela estava lá, como sempre esteve, um pilar de luz incandescente. Um ser tão bom, de sorriso tão afável. Suas vestes brancas ao vento, seus cabelos negros compridos pinicando a pele vermelha e seu olhar se estendia ao infinito. Quando notou sua presença, o carinho que lhe despendia era imenso, o toque aveludado de seus lábios em sua testa. Essa era a parte boa do sonho. Todas as noites, Faryeh desejava acordar bem ali. E todas as noites, seu desejo nunca acontecia.
Tão rápido quanto começava, o sonho mudava – o calor em seu interior se transformava em uma brasa, e então uma chama, para um incendiar de suas asas, o rasgo de fogo queimando a relva; o rosto escondido em meio a gritos de dor. Sempre havia um mero vislumbre de seus lábios, e de suas palavras finais enquanto ela desvanecia em meus braços e se desfazia em mil fragmentos fugazes que se espalhavam pelo ar.
Está feito, ele pensava. O alívio que o atingia era eterno.
E então, o inferno começava.
O mundo acompanhava seus gritos de dor. Toda a criação ao seu redor começava a se desesperar, as lamentações perfurando os ouvidos e se tornando adagas no coração. A natureza o rejeitou por completo, e quando a pior das dores aflorou em seu peito, toda a sua pele queimou, libertando as plumas ao ar, e enquanto ele ardia em meio ao campo florido, todo o universo gritava consigo.
Enquanto as brasas ainda ardiam, Faryeh sentia as marcas. Mas não era a dor delas que o acordava. Era a visão de outro ser, e toda sua raiva podia ser sentida em sua pele. Sua penugem se arrepiava, e quando a outra se aproximava, ele sabia que aquele era seu fim...
— Pare de berrar, puto! — Bosta e mijo foram jogados em sua cabeça por um taverneiro mal-encarado. Faryeh acordou de um supetão ao sentir os líquidos molharem suas roupas, tornando-as ainda mais encardidas. Por um minuto, tentou se situar, apesar dos gritos em seu ouvido ao despertar. Olhou em volta, e entendeu. Era sempre um desafio procurar um abrigo da chuva, e naquela noite, Faryeh acabara por desmaiar de cansaço no estábulo de um hotel e agora, quando os primeiros raios daquela manhã fria de inverno acalentavam sua pele. O rapazote olhou para o cavalo ao seu lado, que descansava de pé, e considerou que ele era melhor companhia do que qualquer pessoa que estivesse dormindo naquela estalagem.
— Ô maluco! Tira sua bunda suja daqui, cê vai acordar meus clientes com seu fedor! — E mais um balde com o conteúdo duvidoso passou por sua cabeça, e ele finalmente se levantou, pegando sua trouxa por debaixo do seu corpo e correndo dali.
— Desculpe! — murmurou de volta, mesmo sabendo que jamais seria perdoado.
Não era assim que pretendia começar o dia, mas não era um início muito incomum. Uma vez seguro, em uma viela, abriu a trouxa, verificando se ainda continha seus pertences. Não eram muitos: um pente de mármore de sua mãe e um anel que seu pai forjara para ela de ferro. O par dele ficara com seu irmão mais velho, mas a essa altura, com certeza estava debaixo de algum lamaçal de sangue e corpos em decomposição. Antes também tivera uma espada longa, mas essa fora vendida em troca de algumas peças de cobre para se alimentar. Agora, nem mesmo possuía bens para isso. Faryeh vivia de pequenas doações de comida, ou… bem, não havia honra entre ladrões, especialmente quando as pessoas rebaixavam o olhar para si ao ver as cicatrizes e queimaduras negras que cobriam seu corpo.
Faryeh, um dia, queimou.
Agora só restavam as cinzas.
Começou a andar a esmo pelas ruas de Fogaréu, observando as sombras da cidade se transformarem em pessoas agitadas com o início do novo dia. Era inverno, e apesar de neve ser um conceito apenas encontrado em livros naquela região, Faryeh sentia o frio gelar seus ossos, especialmente por ter sido molhado com alguma substância de que seria difícil tirar o cheiro. Não costumava tomar banhos no inverno, mas decidiu ir até o rio próximo para se lavar, porque a imundície costumava afastar qualquer ajuda que receberia. Tentaria arranjar alguma comida também, embora o estômago já esperasse as sobras da senhora Lutz, que era uma taverneira não tão gentil, mas sempre disposta a se livrar do resto das comidas antes do serviço da noite. Com o Sol começando a nascer, no entanto, tinha muito tempo a esperar até lá. Tempo de sobra para ao menos um banho e talvez, algum trabalho.
Quando o tempo era mais afável, Faryeh trabalhava nas fazendas de grãos, mas o soldo já se esgotara, assim como o trabalho temporário. Era seu segundo inverno naquelas condições, e cada vez mais as propostas de homens ricos da cidade interna ficavam mais tentadoras, embora os outros meninos sempre o alertavam de não aceitar. Por causa dos cabelos compridos e aparência mirrada, Faryeh parecia uma menininha, e muitas vezes sofreu por isso. Não havia muitos motivos para manter o cabelo daquele tamanho, mas…
as mãos carinhosas por seu cabelo, trançando-o
não corte-os, Faryeh, é tradição apenas cortar após seu casamento
E ele desistia do pensamento. Muitas vezes ele os trançava de qualquer jeito, mas era sempre um alvo fácil para alguém que quisesse atingi-lo. Estava ficando mais ágil, tanto para fugir quanto para se esconder de ataques desse tipo. Mas o estômago o deixava fraco… ainda era assombrado pelas memórias de um guisado quente com arroz recém-feito, o gosto da carne e temperos que tanto desejava ter de novo. O gosto misturado com as memórias do sangue escorrendo de suas mãos… o monstro de garras sobre seu peito, arranhando sua pele
e o fogo
Ele fechou os olhos mais uma vez, o gosto de carne tornando-se um de cinzas.
O rio não ficava muito distante do muro externo da cidade. Fogaréu tinha duas divisórias para protegê-la de ataques, mas desde o último ataque não-humano, a dita fortaleza impenetrável caíra. Os muros de esmeralda caíram, mesmo as histórias contando que ele havia sido criado pela própria Deusa da Terra, em tributo à Deusa do Céu que habitava o Templo de Fogaréu. Sua principal função era repelir os inimigos, ao menos era o que ouvia em sussurros apavorados dos adultos em tavernas. Agora, o que seriam deles? Com a guerra ainda a toda, e a possibilidade de um ataque cada vez mais próximo... Seria o exército capaz de salvá-los? O muro de jade ainda persistia, mas… Às vezes, Faryeh considerava que ele fora feito para conter algo de dentro do que inimigos. A podridão dos mais ricos, que festejavam enquanto eles passavam fome.
Às vezes, Faryeh desejava que o exército não-humano matasse a todos.
Faryeh sentiu a brisa fria, e do alto do monte onde estava, conseguia vislumbrar o rio. Corria até o mar, diziam, mas ele nunca vira o mar, então parecia igualmente uma lenda distante. Nunca fora muito além do terreno da ferraria, que apesar de não possuir mais, era seu legado. Não que o caminho até o rio passasse por sua casa, mas… ele sentia falta, às vezes, de algum senso de normalidade.
Ou um teto sobre a cabeça, Faryeh ponderou, seus passos o guiando para observar o passado. Não sobrara muito da casa. A fornalha resistia, por ter sido feita para resistir a qualquer chama. Mas a casa em si foi destruída pelo incêndio, a marca enorme de queimadura deixando-o sem lugar para retornar. Irmão, pais, teto… Não lhe restava nada, a não ser a dignidade. E isso, agora, a fome extinguia aos poucos. O que o Destino reservara para ele? Uma morte sem honra, ou um fim insalubre? Que ao menos fosse rápido, ele desejou.
Era sempre um evento admirar a casa. Poucas pessoas ainda viviam em volta, porque o incêndio também ceifara seus lares, mas eles foram capazes de reconstruir a vida em outro lugar. Faryeh ficou no passado. Por que não acabar com a própria vida? Ninguém haveria de ligar, e ainda assim, ele continuava a persistir. Quinze invernos vividos em pura agonia, mas mais do que a si próprio, a esperança era difícil de matar. Apenas resistir um dia a mais por vez… Pelo quê?
eu vou voltar por você, Faryeh, prometo
Com as memórias amargas em sua boca, andou pelos escombros, procurando o canto que sempre usava para dormir. Não havia muito mais do que cinzas do que um dia já fora, mas quando a noite estava quente e calorosa, era ali que se deitava para conversar com os mortos e procurar alento. Não que eles costumassem responder.
Em segredo, sua voz naquelas noites era uma prece de uma fé vacilante. Uma resposta dos Deuses era tudo o que desejava. Mas noite após noite, seus pedidos seguiam sem serem ouvidos, e até a esperança morria aos poucos.
Abaixou-se na frente da casa, com medo de entrar. Muitas memórias ecoavam, mas principalmente, da última vez que tentou, uma viga ameaçou cair por cima de sua cabeça. Talvez, algum dia, alguém construísse algo bom ali. Mas aquela casa era maldita. Ninguém, além dele, se aproximava, por medo de contrair a maldição. Ele próprio desconfiava de algo do tipo. A queimadura negra era persistente ao tempo. Faryeh a encarou por tanto tempo que poderia ser absorvido. Aquele terreno todo era mal-visto.
Por isso, ver uma réstia de branco entre os escombros chamou a sua atenção. Ergueu o olhar, procurando entender. Parecia que uma criança estava a brincar nos escombros. Virou o rosto em sua direção e se levantou, caminhando até ela. Céus, era mesmo uma criança, não devia ter metade da altura de Faryeh. Ela usava um vestido de um material que parecia muito caro, de tom alvo, mesmo que a ferraria estivesse cheia de cinzas. Elevou a voz, preocupado. Ela poderia se ferir…
— Menina, é perigoso aqui!
Ela se virou, a cortina de seus cabelos ébanos cortando o ar como um chicote. Faryeh espremeu os olhos. Suas feições eram familiares, como se ele já a tivesse visto antes, mas não se recordava de quando, porque Faryeh não tinha contato com a parte da nobreza de Fogaréu. Apesar disso, ela estava descalça, os pés mal tocando o piso cheio de terra e cinzas. Mas ao encarar seu rosto, ele perdeu o ar.
Seus olhos eram vermelhos. Como os de um não-humano.
Faryeh sentiu o corpo tremor. O que uma criança não-humana estaria fazendo naquele lugar? Ela era perigosa? Era a inimiga de seu reino, e a raça dela tinha matado seus pais… mas Faryeh estava indefeso. Não tinha como…
o fogo
Mas… ele tinha que fazer algo, não?
Ele sentiu seu interior queimar ao lembrar das chamas, sentindo o familiar enjoo que elas traziam além do calor de suas mãos. Ele nunca conseguiu controlar as chamas totalmente — a prova estava ali, a queimadura negra na terra como uma cicatriz disforme — mas... se ele conseguira matar uma vez, talvez...
No entanto, o fogo, tal como começou, desapareceu. Faryeh começou a ficar em pânico. A menina se virou, ainda com a expressão neutra. Ele se abaixou, pegando uma das madeiras soltas, mas o pedaço de madeira tornou-se cinzas em segundos diante da pressão. Depois de tantos anos, não havia qualquer coisa com a qual se defender. Nada da ferraria de seus pais, e nada útil para os outros.
A garotinha sorriu para ele, um floco inocente e alvo no meio do negro. Seu coração afundou. Era seu dever matá-la, e em especial por vingança… A raiva vinha em ondas, mas a hesitação era como uma grande represa. Sim, a raiva e o ódio e o medo se misturavam naquele mar, mas ao mesmo tempo, Faryeh tinha ciência de que era apenas uma criança. Não deveria ter mais de dez anos. Não muito mais nova que ele próprio. Conseguiria ele ter a frieza de acabar com uma vida tão jovem? Enquanto ele se dividia, os passos dela se decidiam, e se aproximaram dos dele.
— Faryeh das Cinzas, você é realmente muito gentil. — Antes que ele pudesse retrucar, ela continuou. — Seu Destino o aguarda.
— Como sabe meu nome? O que você quer aqui?
Sua expressão era de uma calmaria infinita, e colocando uma mão aos lábios, pediu silêncio. Faryeh ainda a encarou, incrédulo e sem entender o objetivo da criança, quando passos ao longe o atiçaram, e ele se virou na direção do som.
— Você, moleque! Pare aí!

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