— Jovem príncipe, devo insistir para não ficar tempo demais nas águas. É capaz de passar mal.
O calor era convidativo, mas Faryeh tinha de admitir que seu interior parecia ainda mais vazio do que de costume. A fome o consumia, e Faryeh se ergueu, aceitando a toalha felpuda que Kalila tinha em mãos, e elas se aproximaram para secá-lo.
— Não precisa…
— Por favor, jovem príncipe, eu insisto. É meu trabalho, afinal de contas.
Apesar de achar estranho tantos toques, especialmente de pessoas que mal acabara de conhecer, Faryeh ficou quieto enquanto elas o secavam com um sentimento de inquietação que começava da boca do estômago para sua garganta, a embolando. Foi colocado em vestes simples, como um xale sedoso e macio, e levado por uma das entradas para um corredor escondido. O desconforto aumentava, especialmente por estar usando poucas peças de roupa, mas Kalila olhou para ele, o tranquilizando:
— Aqui é a passagem apenas para a família Real, jovem príncipe. Não encontrará com outras pessoas se a utilizar.
Faryeh permaneceu em silêncio, e apesar do conforto, ainda tinha a estranha sensação de que estava sendo observado. Kalila fez um gesto e abriu uma porta no meio do corredor, permitindo a sua entrada. Era um quarto, mas muito mais suntuoso que Faryeh já vira na vida. Só o tamanho deveria ser a ferraria inteira. No fundo, tinha uma cama com lençóis acetinados e brancos, travesseiros mil de cores alaranjadas, amarelas e vermelhas. Um pequeno pufe junto a uma varanda, para qual Faryeh correu e os telhados de Fogaréu se ergueram para ele, o mar de pessoas andando pela cidade, os muros de jade e esmeralda ao longe. Se ele pudesse espichar a vista, ainda conseguiria ver as montanhas de Aura, que apenas ouvira falar. Era uma nova perspectiva, muito além do que jamais pensaria em ter.
— Isso é incrível… — Faryeh disse, maravilhado.
— Por favor, jovem príncipe, não se aproxime tanto da borda…!
Faryeh olhou para trás, e Kalila estava completamente em pânico.
— O que houve?
— Ah, não…
Heika revirou os olhos.
— Kalila tem medo de altura, especialmente da vista das varandas. Não sei como sobrevive, nosso alojamento é em uma das torres leste.
— Eu tento ignorar a altura!
— Subindo 3092 degraus?
— Não é tudo isso!!
Aquele pequeno diálogo era tão surpreendente que Faryeh ficou chocado. As pessoas tinham realmente outra vida, enquanto ele estava preso nas suas percepções de mundo pequeno. Ele se virou mais uma vez para a bancada, observando o céu azul, com as nuvens passando aos poucos e soltou uma singela risada.
Ele… realmente podia relaxar?
Não precisaria ficar mais procurando por comida em latas de lixo? Em restos de comida, em favores humilhantes? Faryeh fechou os olhos e sentiu a brisa.
— Jovem príncipe… vista-se ao menos…
Faryeh voltou para o interior do quarto, que era um pouco mais aquecido, e perguntou-se se era efeito das águas que ficavam por debaixo dele. Era fascinante, e tudo muito novo. Notou alguns móveis dos quais Heika tirava alguns tecidos e os colocava na cama, e Kalila o levou para detrás de um biombo, pronto para vesti-lo. A vestimenta tão delicada e complicada que era necessário dois pares de mãos a mais para assegurá-la ao corpo. Uma vez pronto, Kalila sorriu.
— Bem melhor, não é?
A resposta fugiu a Faryeh. Havia algo em sua garganta travando-a, especialmente pela fome que o acometia por completo, agora que estava banhado e relaxado. A roupa ficava um pouco larga em si, por seu físico franzino, mas cabia a sua altura perfeitamente. Heika bateu os dedos contra algo, fazendo um barulho com as unhas, e Faryeh se virou ao ver que ela puxara o espelho em sua direção.
Era a primeira vez que Faryeh via seu reflexo em muitos anos.
Não que era ignorante à própria aparência, mas era a primeira vez que se via arrumado. Tinha ciência dos cabelos compridos que batiam às costas, mas Kalila usava suas mãos gentis para trançar sua franja e prendê-la na parte de trás de sua cabeça, com alguns pingentes de ouro que caíam contra seus olhos. Ela também aplicou rouge em suas bochechas, que pareciam mais coradas, mas ele não saberia dizer se fora da maquilagem ou do calor das termas. Nunca soube a cor de seus olhos, mas agora os via delineados com uma tinta marrom que destacava o vermelho de seus orbes castanhos. A vestimenta era uma bata simples de cores quentes, que usava por cima de uma camisa de linho branca, o mesmo tecido das calças. A complicação vinha da série de fitas que compunham o visual, e que habilmente foram amarradas por Heika.
Faryeh ficou sem ar. Apenas admirou seu reflexo, até que Kalila se manifestou novamente.
— Se precisar de nós, jovem príncipe, pode nos chamar a qualquer momento.
Faryeh apenas assentiu, e assim, as duas foram dispensadas. Faryeh ainda não conseguia quebrar o feitiço do espelho: era assim que outras pessoas o viam? Ou que o veriam a partir de agora? Ainda não aceitara aquele destino tão facilmente, por ser tão frágil a facilidade da qual provinha. Seria a chamada sorte? Deveria ele reclamar, ou apenas aproveitar o fluxo? A incerteza pairava sobre si, e ele cerrou os punhos.
Pôs-se a descobrir o resto do quarto — ele tinha um banheiro próprio, com uma banheira cravada em pedra e pelo toque, também aquecida, além de milhares de pequenos frascos e barras do que achou que era sabão e dos mais diversos perfumes; a cama de fato era tão macia quanto ele próprio imaginara e os travesseiros fofos e cheirando a laranjas, ele se deitou e sentiu o corpo inteiro se envolver. Havia um tapete felpudo aos pés da cama, e o divã era tão confortável quanto ele achou que seria.
Se fosse mesmo um sonho, ele não gostaria de acordar.
Apesar da curiosidade, a fome ameaçou mais uma vez rugir em seu estômago, dessa vez mais alto. Ele se levantou de sua exploração no sofá (tinha uma prateleira com livros! Livros! Ele nem sabia ler direito!) e talvez fosse sua chance de levar aquela expedição para a cozinha. Ele viu pães sendo preparados, com certeza deveria ter algo pronto àquela hora. Ele aceitaria até uma pedra se isso matasse sua fome.
Abrindo a porta e saindo do seu quarto, encontrou o corredor vazio. Não se lembrava do caminho, então saiu a esmo, sentindo os raios de Sol baterem nas vidrarias coloridas das janelas com um carinho sem fim. Era muito aquecido o interior do castelo, como se a outra vida gélida, aquela das ruas, fosse uma mera lembrança que ficaria no passado. Faryeh ouviu um som de uma das portas, e curioso, a abriu.
Era um quarto menor, e não havia camas, mas era decididamente tão decorado quanto. Tinha uma mesa com alguns papéis — documentos importantes, deveria ser —, mas além disso, sentado na cadeira de madeira escura, estava Ehre.

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