Me Devolva!
Desconfiança
“Ela esta diferente...”.
Naomi pensou com a mão no queixo enquanto olhava pela janela de seu carro em movimento. O dia havia sido cheio, muitas ligações, dentre outras coisas, depois de uma reunião longa para definir novas rotas de comércio, a mulher resolveu ir checar seu mais novo empreendimento antes de ir para casa.
Ela não sabia dizer o porquê, mas podia sentir que Sachiko parecia estar distante ultimamente, apesar de suas tentativas para apimentar seus encontros com varias novidades, à mulher mais nova permanecia agindo estranho.
"O que será que aconteceu?"
Naomi suspirou, parecendo estar frustrada quando o motorista parou o carro.
-Chegamos. - Disse o motorista. –Obrigada. –
Naomi abriu a porta do seu carro e desceu com seu salto alto, desfilando pelo local de forma impecável como sempre ela caminhou em direção a uma pequena aglomeração. Os homens falavam alto e comemoravam, quando notaram que ela chegou no canteiro de obras, todos se curvaram respeitosamente, mudando o tom do ambiente.
-Boa noite, Sakaguchi sama! –disse um dos homens, claramente nervoso ao se referir a mulher que havia chegado- Nós não esperávamos por sua visita aqui hoje...-
-Mas é claro que não. É sempre bom surpreender seus empregados de vez em quando, para ver o que eles andam fazendo. Enfim... Como vão as coisas por aqui?-
-Está... De acordo com o prazo, senhora!- Disse outro homem de capacete amarelo, também nervoso.
–A-amanha deve estar tudo pronto!-
-Ótimo. Afinal, vocês devem saber que eu não tolero atrasos. - Naomi sorriu casualmente, fazendo os homens suarem frio.
-Então, estou entrando, com sua licença. - Naomi disse entrando pela porta da frente do lugar, colocando um lenço branco bordado com delicadeza sob o nariz para tentar evitar o cheiro de tinta do local.
Os homens apenas observaram com medo e ansiedade enquanto a mulher inspecionava as instalações. Após alguns minutos angustiantes ela saiu do local colocando o lenço de volta em seu bolso.
-Excelente trabalho, senhores. - A mulher sorriu, causando suspiros de alivio entre alguns.
– Está tudo do jeito que eu queria ver. -
Naomi disse batendo palmas. – Imagino que o dia tenha sido cansativo para vocês também, fiquem tranquilos, vai ficar tudo bem contanto que sigam o cronograma. Tenham uma boa noite. - Ela disse dando as costas aos trabalhadores da obra, indo de volta em direção ao seu carro, deixando os homens paralisados.
Já no carro, Naomi se sentou no banco de couro se sentindo cansada.
-Pode seguir para casa, Adachi.-
-Sim senhora. – O senhor de idade começou a assobiar enquanto dirigia.
O ronco do motor e o balanço do carro funcionavam como uma cadeira de massagem, fazendo Naomi relaxar e quase dormir, porém sua cabeça continuava cheia.
-Dia cheio, hm?- Adachi disse olhando-a pelo retrovisor. –Nem me fale, mal vejo a hora de voltar para casa. – O senhor começou a rir. – Algo a incomoda?-
-Fora o pessoal de a máfia chinesa estar querendo a minha cabeça? Nada demais. – Naomi riu.
...
Ao chegar em casa, ela foi recebida por Aiko que veio correndo para abraça-la.
-Oi, meu amor!- A mulher disse a abraçando e enchendo-a de beijos. – Como foi seu dia?-
-Foi normal. – A criança disse desanimada.
-Normal como? Posso saber?-
-Normal chato. Na escola ninguém quer brincar comigo, todos tem medo de falar comigo... –
Naomi sentiu um peso no seu coração, dinheiro não podia comprar tudo afinal de contas. No fundo ela queria que sua filha tivesse uma infância normal, como qualquer outra, que tivesse vários amigos, mas infelizmente a sua reputação a precedia, afastando varias mães e crianças que poderiam ter algum grau de proximidade com a menina. No fim o ciclo social da menina se resumia aos empregados da casa e ela própria.
–Me deixe entrar, querida. Mamãe esta cansada. – Ela disse, mudando de assunto com um sorriso no rosto.
A hora de se encontrar com sua filha era a melhor parte do seu dia, apesar de ocupada e cansada Naomi fazia o seu melhor para lhe dar atenção, Aiko sempre esperava até ouvir o motor do carro da mãe para vir recebê-la.
Naomi entrou em casa de mãos dadas com a menina, depois foi logo em seguida jantar em sua enorme mesa branca com sua filha ao seu lado.
-Está tarde, você tem que parar com esse costume de me esperar chegar para ir dormir. –
A mulher disse enquanto colocava um pedaço de bife importado na boca.
- Se eu não esperar eu vou acabar não te vendo nunca!- Aiko retrucou balançando as pernas debaixo da mesa com raiva. –Você tem razão... Desculpe a mamãe, ela anda muito ocupada ultimamente. – Naomi disse acariciando os cabelos da menina, se sentindo culpada.
-Hm... Tá bom!- Aiko sorriu.
Após o jantar a menina já estava bocejando de sono, sem muito tempo para uma conversa mais extensa, Naomi a pegou no colo e a levou para seu quarto, a colocando na cama ela beijou sua testa e seguiu para seu quarto para tomar um banho.
Enquanto caminhava pelos corredores, Naomi não parava de pensar em como sua teia de relações venenosas apenas prejudicava sua filha, isolando a criança de um mundo mais sincero e gentil que ela sem duvidas merecia, ela se perguntava todas as noites sobre o que fazer com relação a isso mas não achava nenhuma resposta.
Infelizmente ela já havia nascido dentro daquela teia de relações perigosas assim como ela, e para sair disso, apenas se debater não seria o suficiente.
Após o banho Naomi se jogou na sua cama enorme, se sentindo mais aliviada.
-Sachiko... O que será que ela esta fazendo agora?- Ela sussurrou para si mesma enquanto se abraçou com seu travesseiro, cheirando-o a procura de algum traço do seu perfume.

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