– Domingo –
[Universidade Luminares: Tarde da noite]
Davi e Miguel saíram da sala de arquivos, exaustos. Haviam passado horas revirando documentos, tentando juntar as peças do mistério envolvendo o desaparecimento de Raziel. No entanto, tudo o que encontraram foi uma pesquisa adulterada, possivelmente ligada a Breno Vieira e à sua clínica. O mistério parecia se expandir em várias direções, mas as respostas continuavam distantes. Ambos se sentaram em um ponto de ônibus próximo. Miguel, percebendo o cansaço de Davi, sugeriu:
— Acho que é melhor irmos para minha casa.
Davi apenas apertou as têmporas, exausto.
— É mais perto. Você pode dormir no meu quarto, e eu durmo no do meu pai. Amanhã cedo a gente segue para a clínica.
Davi concordou, cansado demais para questionar. Esperaram o ônibus, que os levou até a casa de Miguel. Ao chegarem, ele trancou a porta e acendeu as luzes, dizendo ao convidado:
— Bem-vindo! Vamos fazer um pequeno tour, beleza?
Miguel levou Davi para conhecer a casa, cômodo por cômodo. Começaram pelo corredor que conectava os ambientes à sala de estar com sofá e televisão, à cozinha e à sala de jantar, aos três quartos, aos dois banheiros e ao escritório de Raziel. Cada canto estava repleto de luz, decorações e objetos pessoais da família: Miguel, sua irmã e seus pais. O ambiente era acolhedor, mas Davi sentia uma estranha sensação de desconforto, como se estivesse invadindo algo íntimo e caloroso demais.
Quando terminaram, Miguel pegou uma lata de cerveja da geladeira e ofereceu a Davi, que recusou. O rapaz então serviu um copo d’água para ele e se jogou no sofá.
— Vamos recapitular o que sabemos. Estamos investigando a clínica do Breno. Isso é óbvio. Mas o que, exatamente? — perguntou Miguel, abrindo a latinha.
— As anotações falam sobre “alterações de documentos, ocultação de informações de criminosos e álibis em consultas na clínica”, mas não temos muitos detalhes — disse Davi, apoiando os cotovelos no braço do sofá.
— Estamos supondo que é o Dr. Breno porque ele é o único médico conhecido. Mas o que realmente aconteceu com ele? — Miguel questionou.
— Não está claro. Mas... isso é perigoso — rebateu o detetive, que parecia cansado, mas cuja curiosidade ainda superava o sono.
A conversa foi interrompida por passos leves se aproximando. Eloise apareceu na porta da sala, com seu cabelo curto em estilo underlayer castanho e loiro, e uma franja que emoldurava seu rosto triangular. Seus olhos eram alaranjados, e ela usava um moletom amarelo largo, shorts jeans e meias coloridas. Ao ver os dois, não pôde conter a curiosidade:
— O que vocês estão tramando? — perguntou, cruzando os braços.
— Nada que te interesse — respondeu Miguel, suspirando fundo como se só de olhar para ela já se irritasse.
— Se fosse “nada”, você não estaria me escondendo! — Eloise estreitou os olhos, se jogou no sofá e se colocou entre os dois.
— Oi, quem é você?
Davi foi pego de surpresa pela garota e ficou sem resposta.
— Eloise Fernandes, irmã desse cara — ela mesma se apresentou, sorrindo.
— Prazer, Eloise. Eu sou o Davi Cardoso.
Ela o olhou de soslaio e disse, piscando:
— Ah… então, isso tem a ver com o sumiço do papai, né?
Davi olhou para Miguel, observando sua reação. Mas o outro apenas apertou as bochechas da irmã. Era óbvio que esses dois tinham uma boa relação e que Miguel sabia que ela não ficaria em seu aperto por muito tempo.
— Vocês acham que ele foi atrás de gente perigosa? — perguntou ela, ao se soltar do irmão, olhando diretamente para Miguel.
Ele desviou o olhar, visivelmente desconfortável, e murmurou:
— Pode ser.
Eloise ficou em silêncio por um momento, mas logo voltou a atenção para Davi.
— Você e meu irmão... são só parceiros de investigação, né? O que fez você virar detetive? Ele fala muito de você, sabia? Já conhecia meu pai antes de tudo isso? Sempre foi tão sério assim?
— O que isso tudo tem a ver? — Davi arqueou a sobrancelha.
— Curiosidade.
Antes que a conversa continuasse, Eloise bocejou e olhou para o relógio na parede. Levantou-se e foi na direção de seu quarto. Era hora de dormir. Mas, antes de sair, se virou para eles.
— Seja lá o que vocês estiverem planejando, tomem cuidado — disse, se espreguiçando antes de desaparecer pelo corredor.
Quando ela saiu, Miguel ficou pensativo, os olhos fixos na latinha em suas mãos. Davi notou o silêncio repentino.
— O que foi? — perguntou.
— Eu nunca te perguntei isso antes, mas... como você conheceu meu pai? Ou por que escolheu essa carreira e tal?
Davi desviou o olhar e respondeu com um sorriso sarcástico:
— Ah... é uma longa história.
— Eu quero ouvir — declarou Miguel.
Houve um momento de tensão. Davi esfregou as mãos, visivelmente desconfortável, mas concordou.
— Minha mãe, Helena Cardoso, veio sozinha para a cidade quando era jovem. Saiu do interior da Paraíba com uma mala velha, buscando emprego, uma vida nova... aquelas coisas que a gente procura quando se é jovem.
— E foi aqui que ela conheceu seu pai? — interrompeu Miguel, se inclinando no encosto do sofá, curioso.
— Foi. Ele era um mulherengo, cheio de conversa e sem compromisso. Ela se envolveu com ele e... bom, eu fui o resultado. Antes mesmo de eu nascer, ele já tinha sumido. Foi embora como se nunca tivesse existido. Deixou minha mãe sozinha para me criar.
Miguel balançou a cabeça, desaprovando.
— Que merda, hein...
— É. A vida com ela não foi fácil. Tínhamos pouco dinheiro, muito pouco. Ela trabalhava como costureira e virava noites costurando. Mesmo assim, sempre arranjava um jeito de sorrir pra mim, contar uma história ou deixar eu ver um filminho antes de dormir. Sempre foi forte e gentil.
— E vocês se dão bem hoje em dia?
— Sim. Depois que cresci e ela decidiu voltar pro interior, a gente se fala sempre. Todo dia, se der. Ela sempre me apoiou. Inclusive... — Davi o olhou nos olhos e continuou, com um leve sorriso triste: — ...quando eu me assumi, aos dezoito. Foi um alívio. Não sabia o que esperar. Crescer num lugar simples, com gente de mente fechada, não é fácil. Mas ela me aceitou numa boa.
Miguel sorriu.
— Dá pra ver que vocês têm uma conexão bonita.
— Temos. E ela sempre soube que eu era meio... diferente. Desde pequeno, eu adorava filmes de mistério. “Os Sete Suspeitos”, “Janela Indiscreta”, “O Falcão Maltês”... Eu pirava nesses filmes. Tentava adivinhar o final antes dos personagens.
— Clássico — Miguel riu baixinho.
— Aos quinze, li “O Mistério no Museu Imperial”. Foi quando a obsessão ficou séria. Comecei a pesquisar casos por conta própria, fuçava fóruns, passava horas lendo teorias sobre várias bizarrices. A internet ainda era um lugar mágico naquela época. Parecia que tudo era possível.
— Você sempre teve esse lance com mistério, né?
— Desde que me entendo por gente. Mas nem tudo foi filme e livro. Na juventude, conheci um cara.
Miguel ficou mais sério.
— Ele se chamava Nero. Charmoso, rebelde, despojado... parecia o pacote completo. Eu era bobo, caí na lábia dele. Mas ele era controlador e abusivo. A relação durou uns quatro anos e deixou marcas físicas e psicológicas.
Miguel olhou para as luvas de Davi.
— Nas mãos?
Davi assentiu.
— É por isso que eu uso essas luvas. Não é só “estilo”. São cicatrizes. Lembranças de um período que eu preferia apagar. A relação terminou quando ele foi acusado de roubo. Eu juntei provas e entreguei tudo pra polícia. Ele foi preso. E foi ali, na delegacia, que conheci o professor.
— O seu futuro mentor?
— Sim. Ele foi um dos primeiros a ver potencial em mim. Disse que eu deveria ir pra faculdade. E eu fui. Fiz dois anos de Criminologia. Depois, abri meu próprio escritório. Uma salinha modesta, em cima de uma loja de R$ 1,99, ao lado de um consultório dentário. Não era glamouroso, mas era meu. E foi ali que comecei, resolvendo casos pequenos. Um sumiço de cão aqui, um adultério ali...
Miguel sorriu e brincou:
— E foi assim que surgiu o detetive Davi Cardoso.
— Mais ou menos — Davi riu baixo.
— Você nunca pensou em manter contato com ele depois de se formar?
— Achei que não precisava. Ele já tinha feito muito mais por mim do que meu próprio pai.
Miguel percebeu que algo havia mudado naquele momento. Não era só o modo como Davi falava, mas uma conexão mais profunda. Sem pensar demais, com o coração batendo forte ao ver Davi ali, vulnerável e adorável, ele respirou fundo e disse:
— Davi, eu acho que... gosto de você.
Davi arregalou os olhos, surpreso com a confissão desajeitada.
— Ah, droga! Não precisa responder agora. Eu só... senti que precisava te falar — Miguel riu, sem graça.
Davi desviou o olhar, levantou-se e foi para o quarto que Miguel havia mostrado mais cedo. Uma parede de gelo foi erguida ali. Ele apenas disse:
— Boa noite pra você.
Sem esperar resposta, Miguel ficou parado no sofá, suspirando, com as grandes mãos cobrindo o rosto. Amanhã iriam juntos à clínica. Mas, de alguma forma, ele sabia: a investigação não era a única coisa caminhando para um desfecho, fosse ele feliz ou não.

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