A estrada de terra se estendia como uma cicatriz pela floresta adormecida, guiando os passos de Grumak e Malias enquanto a vila dos coelhos desaparecia aos poucos entre os galhos e a neblina da manhã. O som das chaminés fumegantes e das vozes baixas dos aldeões ficava para trás, substituído por silêncio e expectativa.
Malias andava com o capuz levantado, os olhos fixos no mapa dobrado em suas mãos. Grumak caminhava ao lado, calado, como se mastigasse os próprios pensamentos.
Foi então que Malias virou o pergaminho da missão por puro instinto — talvez buscando alguma anotação esquecida, talvez apenas por hábito de guerreira desconfiada. Mas o que viu atrás... fez seus passos pararem.
— Grumak — chamou, estendendo o papel para ele.
Ele pegou, girou nos dedos e leu em silêncio.
Três nomes estavam escritos com tinta antiga, quase desbotada. A caligrafia era firme, mas marcada por pressa ou frustração.
Sallira – 70 anos atrás
Velgran – 140 anos atrás
Jor’nel – 210 anos atrás
E logo abaixo, em letras menores, como um sussurro do tempo:
“Batalha do Equilíbrio — três falhas.”
Grumak franziu o cenho.
— Então não somos os primeiros — disse ele, devolvendo o pergaminho.
— E talvez nem os últimos, se falharmos também — completou Malias, guardando o mapa no manto. — Batalha do equilíbrio... Parece mais ritual do que missão.
— Três falhas em duzentos anos — murmurou Grumak. — Algo nesse vale não quer ser encontrado. Ou… não quer ser tocado.
Nenhum dos dois falou mais nada por um tempo.
A floresta à frente se tornava mais densa. Mas viva. E o caminho... mais estreito.
Como se o próprio mundo os testasse a cada passo.
E atrás deles, o pergaminho se fechava com o som sutil de papel velho — guardando segredos que talvez fosse melhor não saber.
— Vamos, Malias — disse Grumak, ajustando a mochila. O caminho à frente era estreito, mergulhado em sombras ancestrais.
— Eu só espero que esse tal de Vale Silencioso não seja mais uma lenda furada — resmungou Malias, os olhos grudados no mapa amassado. — Cruzar floresta por causa de uma pedra que aparece de vez em nunca… isso tá mais pra armadilha do que missão.
— Pedra Lunar — corrigiu Grumak com um meio sorriso. — Rara, mágica, poderosa. E se for real, pode abrir portas.
Malias bufou, puxando o capuz sobre as orelhas lupinas.
— Você e essa mania de achar significado em tudo. Criatura mística, pedra brilhante, ciclo da lua... Se essa missão não for uma provação, eu como meu arco.
— Pode ser as duas coisas — respondeu ele. — Mas já que estamos aqui…
A trilha se fechava a cada passo. A luz filtrava-se em feixes quebrados. O som da vila se tornava distante, como se pertencesse a outro mundo.
— Silêncio estranho — comentou Malias. — A floresta parece… atenta.
Grumak ergueu a mão.
— Espera. Você ouviu isso?
Malias parou. Os ouvidos se ergueram. Havia algo entre os galhos — pesado, rítmico. Um som que não pertencia ali.
Ela tocou o fragmento no cinto. Grumak já sentia o calor da luva elemental subir pelo braço.
— Pode ser só um animal...
As folhas se mexeram. Um farfalhar. Depois outro.
Mas Malias... não estava olhando.
Ela ofegava. O corpo inclinado pra frente. O nariz tremendo.
— Malias...? — chamou Grumak, desconfiado.
— Tem um cheiro... — sussurrou ela. — Forte. Quente, estranho.
Grumak franziu a testa.
— Que tipo de cheiro é esse?
Ela se aproximou, farejando o ar. Andava em círculos, o rabo tenso. Como se hipnotizada.
— Tá parecendo uma loba no cio — murmurou Grumak.
— EU OUVI ISSO! — ela virou num pulo, as bochechas queimando.
— Foi tático — defendeu-se ele. — Pra quebrar a tensão.
Ela cruzou os braços, tentando recuperar a dignidade. Mas a cauda balançava, entregando tudo.
— Se eu dissesse que o cheiro era você?
Grumak congelou.
— Aí complica.
Ela rindo.
— Brincadeira, seu tolo. Só queria ver sua cara.
E com o clima finalmente mais leve, eles retomaram a caminhada. A floresta parecia menos opressiva agora…, mas os dois sabiam que o verdadeiro desafio ainda estava por vir.
Grumak avançava em silêncio, os olhos atentos às ramificações do caminho. Malias andava logo atrás, o arco pronto. A floresta começava a mudar — menos densa, mas mais... viva. Como se cada raiz observasse. Como se o ar escondesse vozes.
Foi então que ouviram o sussurro. Um farfalhar leve. Um estalo.
Grumak levantou a mão. Parou.
— Algo se mexeu ali — murmurou.
— De novo essas malditas hienas deformadas?
— Não. É menor. E mais rápido.
De repente, um vulto vermelho cruzou a trilha.
Grumak deu um salto para o lado. Malias puxou uma flecha, mas parou no meio do movimento, os olhos arregalados.
Da sombra, saiu uma figura esguia. Um semi-humano de aparência... única.
Pelagem curta, vermelho rubro, que brilhava levemente à luz filtrada. Orelhas longas, olhos dourados astutos e um sorriso que beirava a insolência. Usava roupas leves de couro escuro, com placas flexíveis presas por tiras. E nos flancos, presas com encaixes perfeitos, duas adagas curvas de metal azulado. Polidas. Afiadas. E rápidas.
O coelho levantou as mãos, mas manteve o sorriso.
— Calma, calma. Se fossem inimigos, já teriam sentido a ponta das minhas adagas. E se eu fosse inimigo... vocês não estariam discutindo.
Grumak ainda mantinha a guarda erguida.
— Quem é você?
— Tibrok — disse ele, curvando-se com um floreio elegante das orelhas. — Nascido da linhagem das Cinzas Vermelhas. Um dos últimos Nok’vai do sul do continente.
— Nok... quê? — Malias estreitou os olhos.
Tibrok suspirou, teatral.
— Ah... os forasteiros e sua falta de história. Os Nok’vai foram uma das primeiras tribos a tocar a luz da pedra lunar. Guardiões de florestas antigas, mensageiros entre planos, detentores de saberes esquecidos... e, ultimamente, caçados por isso.
Grumak não baixava o braço.
— Isso é bonito de ouvir. Mas ainda não responde o que está fazendo aqui.
— Observando. E esperando por vocês.
— A gente? — Malias franziu o cenho. — Por quê?
Tibrok se aproximou dois passos, sem medo, e se sentou sobre uma pedra musgosa, com a tranquilidade de quem já mediu o perigo.
— Não se assustem. Não sou vidente. Nem um espírito perdido. Só... escuto muito bem. E os rumores sobre dois viajantes que aceitaram a missão da Pedra de Luar... chegaram rápido à floresta.
— Isso veio da vila? — perguntou Grumak. — De Asterin?
Tibrok assentiu, erguendo uma sobrancelha.
— Missão registrada há décadas, não? Origem: “Velho Balbito, da estalagem do canto esquerdo.” — fez aspas com os dedos. — O mesmo Balbito que jura ter visto a pedra com os próprios olhos e passou a vida tentando achar um grupo que aceitasse a busca.
Grumak relaxou um pouco. Malias ainda observava com desconfiança, mas a curiosidade começava a dominar.
— Como sabe tudo isso?
— Porque escuto. E porque observo. E, neste caso, tenho um interesse... complementar ao de vocês.
— Interesse?
Tibrok levantou-se num salto, as adagas tilintando nas bainhas.
— Sei onde a Pedra de Luar costuma aparecer. Não exatamente — ninguém nunca sabe —, mas conheço o vale onde o ciclo da névoa abre o caminho. Eu posso guiar vocês até lá. Mas...
— Ah, o famoso “mas” — disse Malias, cruzando os braços.
— Mas em troca, vocês vão me ajudar com algo depois. Um artefato antigo, perdido em uma cripta esquecida a meio continente daqui. Não está nesta floresta. Mas está relacionado à minha linhagem. À minha missão. E a algo muito maior que todos nós.
Grumak o observou com mais atenção agora. O jeito como falava, a convicção, a escolha das palavras... não era vaidade. Era fé.
— Você quer que confiemos em você — disse. — Sendo que nos seguiu, se apresentou do nada, carrega duas adagas e fala como um contador de histórias místico.
Tibrok sorriu, fechando um dos olhos como se fosse cúmplice.
— Confiança se constrói em dois lados. Eu ofereço o caminho. Vocês oferecem o braço armado. Juntos, buscamos uma lenda e, depois, um segredo.
Malias piscou devagar.
— E se recusarmos?
— Então encontrarão o vale, talvez. Se sobreviverem às rotas falsas, à névoa viva e às criaturas que se alimentam do brilho da lua. Mas não encontrarão a Pedra. Ela não aparece pra qualquer um. Só quando o caminho certo é trilhado... e quando os que caminham têm um motivo maior que o brilho da recompensa.
Grumak se virou para Malias.
Ela apenas balançou os ombros.
— Se ele tiver a metade do que tá prometendo... vale a pena.
Grumak assentiu.
— Está bem, Tibrok. Você nos guia até a pedra. E se isso for real... falaremos sobre sua tal relíquia depois.
Tibrok abriu um sorriso largo. O primeiro genuinamente alegre.
— Então temos um acordo.
E as adagas brilharam sob a luz filtrada da floresta enquanto ele girava nos calcanhares e sumia entre os galhos, como se a trilha já estivesse pronta para ele — e agora, também para eles.
O trio seguia pela floresta, agora um corredor vivo de raízes torcidas, sombras sussurrantes e galhos que pareciam dobrar-se sob o peso do que vigiavam. Tibrok caminhava adiante com uma leveza quase absurda para alguém que recém havia se juntado a dois guerreiros armados — mas seus olhos não paravam de se mover. Atento. Silencioso. Coelho de sangue antigo.
Foi então que o mundo rasgou.
Uma criatura surgiu do mato como uma flecha saída do próprio inferno. Corcunda, pele acinzentada e coberta por crostas, a boca aberta como uma fenda costurada a navalhadas, e olhos negros como fundo de poço. O som que fazia era o pior: estalos de osso, como se o próprio corpo se quebrasse para se mover.
— TIBROK! — gritou Grumak.
O pequeno Nok’vai congelou. Os olhos arregalados, o corpo travado pela visão que se aproximava num salto predador, a boca da criatura aberta, prestes a engoli-lo.
Mas... puf!
Tibrok desapareceu.
E reapareceu meio segundo depois... no ombro de Grumak, arfando como um gato que escapou da morte por um fio de pelo.
— EU QUASE VIREI SNACK! — berrou, os olhos arregalados e a pelagem toda eriçada.
Grumak nem teve tempo de responder.
Malias já estava com o arco em mãos. A flecha encantada zuniu como um trovão e atravessou a cabeça da criatura. Ela caiu sem emitir som — como uma boneca que teve os fios cortados.
Mas o alívio não veio.
Mais três surgiram.
Bestas deformadas, como hienas feitas de restos de ossos. Garras arrastando-se no chão. Mandíbulas abertas e dentes demais para uma boca só.
Grumak avaliou o terreno.
Fogo aqui seria suicídio.
Uma névoa azulada começou a escapar pelas ranhuras metálicas dos dedos.
A primeira criatura veio com tudo. Grumak esperou o tempo exato e golpeou.
O soco bateu no peito da besta com o som de um trovão abafado. No mesmo instante, o corpo congelou por dentro — e quebrou de dentro pra fora estilhaçando-se em mil pedaços que voaram entre galhos e folhas.
Malias sussurrou, já preparando outra flecha:
— Tá aí uma habilidade que eu não esperava... congelar um bicho no meio do mato e ainda sair bonito na foto.
— Só não deixa esses vermes chegarem perto do guia — respondeu Grumak, olhos atentos. — Ele já quase virou entrada de taverna.
— TÔ AQUI AINDA, TÁ?! — protestou Tibrok, do ombro de Grumak. — E agora vocês me devem pelo menos um jantar e um abraço emocional!
— Concentre-se! — gritou Malias.
As duas criaturas restantes atacaram ao mesmo tempo.
Grumak pulou pro lado, mas uma delas já vinha por cima — boca aberta, garras em riste.
Tibrok sumiu de novo.
Puf!
Reapareceu atrás da criatura com as duas adagas nas mãos. Os olhos brilhavam em dourado selvagem. Com dois movimentos rápidos e precisos, cravou as lâminas nos tendões traseiros da besta.
Ela gritou. Um som horrível. E tropeçou no impulso.
Antes que se recuperasse, Grumak girou e aplicou um segundo golpe congelante no pescoço do monstro.
Ele explodiu em gelo e dor.
A última criatura mirou Malias.
Mas Malias já a esperava. Girou o corpo suavemente, puxou a corda e disparou no momento exato. A flecha atravessou o crânio da criatura, que caiu com um baque seco a poucos passos dela.
Então, o silêncio veio.
Como se o próprio vale estivesse prendendo a respiração.
Grumak abaixou os braços lentamente. A névoa ainda se dissipava entre as árvores.
— Estão mortos? — perguntou Malias, varrendo o ambiente com os olhos.
— Por enquanto — respondeu ele. — Mas não gosto desse silêncio.
Tibrok escorregou do ombro de Grumak e caminhou até os corpos com passos lentos.
Os olhos dourados dele... tinham uma tristeza contida.
— Varnek — sussurrou. — Eles sentem o sangue Nok’vai como se fôssemos faróis na escuridão. Nós não os caçamos. Eles vêm atrás. Sempre.
Grumak se aproximou, observando o corpo retorcido de um dos monstros.
— Você já enfrentou isso antes?
— Fui criado fugindo disso. Me tornei útil... por isso. Por escapar. Por voltar. Por cortar rápido quando não dava pra correr. — Ele olhou os dois com seriedade. — O que fizeram aqui hoje... meu povo não esquece. Os Nok’vai honram quem sangra por nós.
Malias abaixou o arco. Os ombros tensos, mas a respiração já começando a voltar ao normal.
— Espero que essa seja a parte mais difícil da trilha — murmurou.
Tibrok negou com a cabeça.
— Isso foi só o portão. O vale ainda nem começou a testar vocês.
os três seguiram em silêncio até encontrar o local do acampamento — três árvores entrelaçadas em forma de cúpula. Tibrok apontou e liderou a montagem da plataforma elevada com destreza. Cipós amarrados. Galhos encaixados. Tecidos improvisados como teto.
Malias, ainda bufando, murmurou:
— Se o monstro não nos matar, a fome mata.
Tibrok, como se tivesse esperado aquele momento, ergueu as orelhas.
— Vi uma árvore de Frulambras há pouco. Frutas douradas, doces... e dizem que acalmam a alma. Servem até pra sonho bom.
Grumak arqueou a sobrancelha.
— Você tem um mapa mental da floresta ou só tá fugindo do trabalho?
— Instinto. E um pouco de preguiça estratégica.
Voltou minutos depois com frutas âmbar que brilhavam sob a luz filtrada da lua.
Malias provou uma.
— Doce, madeira... e menta? — fez careta. — Ok, melhor que raiz crua.
Com o estômago mais calmo, ela adormeceu encolhida sob o manto.
Tibrok se deitou com os braços cruzados atrás da cabeça.
Grumak, no entanto, continuou acordado.
— Não dorme? — sussurrou Tibrok.
— Primeiro turno é meu. E... tava pensando no seu sumiço hoje.
Tibrok sorriu de leve.
— Salto Etéreo. Nok’vai antigo. É como deslizar entre os planos. Mas custa caro. Três vezes no mesmo dia e quase vomito os pulmões.
— Você sumiu três vezes hoje.
— Quase vomitei os pulmões. E metade da coragem.
Grumak soltou um ruído abafado. Quase um riso.
— Da próxima vez, só... avisa.
— Prometo. E apareço do lado. Mais educado.
Silêncio.
Mas não o tipo pesado.
Era o silêncio bom.
O de quando não se precisa fingir força.
O de quando três pessoas completamente diferentes compartilham um mesmo abrigo no fim do mundo.
E sabem que, pelo menos por essa noite... sobreviveram.

Comments (0)
See all