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O Renascimento Das Sombras

Capítulo 9 — A Caminho do Vale Silencioso

Capítulo 9 — A Caminho do Vale Silencioso

Jul 02, 2025

A estrada de terra se estendia como uma cicatriz pela floresta adormecida, guiando os passos de Grumak e Malias enquanto a vila dos coelhos desaparecia aos poucos entre os galhos e a neblina da manhã. O som das chaminés fumegantes e das vozes baixas dos aldeões ficava para trás, substituído por silêncio e expectativa.

Malias andava com o capuz levantado, os olhos fixos no mapa dobrado em suas mãos. Grumak caminhava ao lado, calado, como se mastigasse os próprios pensamentos.

Foi então que Malias virou o pergaminho da missão por puro instinto — talvez buscando alguma anotação esquecida, talvez apenas por hábito de guerreira desconfiada. Mas o que viu atrás... fez seus passos pararem.

— Grumak — chamou, estendendo o papel para ele.

Ele pegou, girou nos dedos e leu em silêncio.

Três nomes estavam escritos com tinta antiga, quase desbotada. A caligrafia era firme, mas marcada por pressa ou frustração.

Sallira – 70 anos atrás
Velgran – 140 anos atrás
Jor’nel – 210 anos atrás

E logo abaixo, em letras menores, como um sussurro do tempo:

“Batalha do Equilíbrio — três falhas.”

Grumak franziu o cenho.

— Então não somos os primeiros — disse ele, devolvendo o pergaminho.

— E talvez nem os últimos, se falharmos também — completou Malias, guardando o mapa no manto. — Batalha do equilíbrio... Parece mais ritual do que missão.

— Três falhas em duzentos anos — murmurou Grumak. — Algo nesse vale não quer ser encontrado. Ou… não quer ser tocado.

Nenhum dos dois falou mais nada por um tempo.

A floresta à frente se tornava mais densa. Mas viva. E o caminho... mais estreito.

Como se o próprio mundo os testasse a cada passo.

E atrás deles, o pergaminho se fechava com o som sutil de papel velho — guardando segredos que talvez fosse melhor não saber.

 

— Vamos, Malias — disse Grumak, ajustando a mochila. O caminho à frente era estreito, mergulhado em sombras ancestrais.

— Eu só espero que esse tal de Vale Silencioso não seja mais uma lenda furada — resmungou Malias, os olhos grudados no mapa amassado. — Cruzar floresta por causa de uma pedra que aparece de vez em nunca… isso tá mais pra armadilha do que missão.

— Pedra Lunar — corrigiu Grumak com um meio sorriso. — Rara, mágica, poderosa. E se for real, pode abrir portas.

Malias bufou, puxando o capuz sobre as orelhas lupinas.

— Você e essa mania de achar significado em tudo. Criatura mística, pedra brilhante, ciclo da lua... Se essa missão não for uma provação, eu como meu arco.

— Pode ser as duas coisas — respondeu ele. — Mas já que estamos aqui…

A trilha se fechava a cada passo. A luz filtrava-se em feixes quebrados. O som da vila se tornava distante, como se pertencesse a outro mundo.

— Silêncio estranho — comentou Malias. — A floresta parece… atenta.

Grumak ergueu a mão.

— Espera. Você ouviu isso?

Malias parou. Os ouvidos se ergueram. Havia algo entre os galhos — pesado, rítmico. Um som que não pertencia ali.

Ela tocou o fragmento no cinto. Grumak já sentia o calor da luva elemental subir pelo braço.

— Pode ser só um animal...

As folhas se mexeram. Um farfalhar. Depois outro.

Mas Malias... não estava olhando.

Ela ofegava. O corpo inclinado pra frente. O nariz tremendo.

— Malias...? — chamou Grumak, desconfiado.

— Tem um cheiro... — sussurrou ela. — Forte. Quente, estranho.

Grumak franziu a testa.

— Que tipo de cheiro é esse?

Ela se aproximou, farejando o ar. Andava em círculos, o rabo tenso. Como se hipnotizada.

— Tá parecendo uma loba no cio — murmurou Grumak.

— EU OUVI ISSO! — ela virou num pulo, as bochechas queimando.

— Foi tático — defendeu-se ele. — Pra quebrar a tensão.

Ela cruzou os braços, tentando recuperar a dignidade. Mas a cauda balançava, entregando tudo.

— Se eu dissesse que o cheiro era você?

Grumak congelou.

— Aí complica.

Ela rindo.

— Brincadeira, seu tolo. Só queria ver sua cara.

E com o clima finalmente mais leve, eles retomaram a caminhada. A floresta parecia menos opressiva agora…, mas os dois sabiam que o verdadeiro desafio ainda estava por vir.

Grumak avançava em silêncio, os olhos atentos às ramificações do caminho. Malias andava logo atrás, o arco pronto. A floresta começava a mudar — menos densa, mas mais... viva. Como se cada raiz observasse. Como se o ar escondesse vozes.

Foi então que ouviram o sussurro. Um farfalhar leve. Um estalo.

Grumak levantou a mão. Parou.

— Algo se mexeu ali — murmurou.

— De novo essas malditas hienas deformadas?

— Não. É menor. E mais rápido.

De repente, um vulto vermelho cruzou a trilha.

Grumak deu um salto para o lado. Malias puxou uma flecha, mas parou no meio do movimento, os olhos arregalados.

Da sombra, saiu uma figura esguia. Um semi-humano de aparência... única.

Pelagem curta, vermelho rubro, que brilhava levemente à luz filtrada. Orelhas longas, olhos dourados astutos e um sorriso que beirava a insolência. Usava roupas leves de couro escuro, com placas flexíveis presas por tiras. E nos flancos, presas com encaixes perfeitos, duas adagas curvas de metal azulado. Polidas. Afiadas. E rápidas.

O coelho levantou as mãos, mas manteve o sorriso.

— Calma, calma. Se fossem inimigos, já teriam sentido a ponta das minhas adagas. E se eu fosse inimigo... vocês não estariam discutindo.

Grumak ainda mantinha a guarda erguida.

— Quem é você?

— Tibrok — disse ele, curvando-se com um floreio elegante das orelhas. — Nascido da linhagem das Cinzas Vermelhas. Um dos últimos Nok’vai do sul do continente.

— Nok... quê? — Malias estreitou os olhos.

Tibrok suspirou, teatral.

— Ah... os forasteiros e sua falta de história. Os Nok’vai foram uma das primeiras tribos a tocar a luz da pedra lunar. Guardiões de florestas antigas, mensageiros entre planos, detentores de saberes esquecidos... e, ultimamente, caçados por isso.

Grumak não baixava o braço.

— Isso é bonito de ouvir. Mas ainda não responde o que está fazendo aqui.

— Observando. E esperando por vocês.

— A gente? — Malias franziu o cenho. — Por quê?

Tibrok se aproximou dois passos, sem medo, e se sentou sobre uma pedra musgosa, com a tranquilidade de quem já mediu o perigo.

— Não se assustem. Não sou vidente. Nem um espírito perdido. Só... escuto muito bem. E os rumores sobre dois viajantes que aceitaram a missão da Pedra de Luar... chegaram rápido à floresta.

— Isso veio da vila? — perguntou Grumak. — De Asterin?

Tibrok assentiu, erguendo uma sobrancelha.

— Missão registrada há décadas, não? Origem: “Velho Balbito, da estalagem do canto esquerdo.” — fez aspas com os dedos. — O mesmo Balbito que jura ter visto a pedra com os próprios olhos e passou a vida tentando achar um grupo que aceitasse a busca.

Grumak relaxou um pouco. Malias ainda observava com desconfiança, mas a curiosidade começava a dominar.

— Como sabe tudo isso?

— Porque escuto. E porque observo. E, neste caso, tenho um interesse... complementar ao de vocês.

— Interesse?

Tibrok levantou-se num salto, as adagas tilintando nas bainhas.

— Sei onde a Pedra de Luar costuma aparecer. Não exatamente — ninguém nunca sabe —, mas conheço o vale onde o ciclo da névoa abre o caminho. Eu posso guiar vocês até lá. Mas...

— Ah, o famoso “mas” — disse Malias, cruzando os braços.

— Mas em troca, vocês vão me ajudar com algo depois. Um artefato antigo, perdido em uma cripta esquecida a meio continente daqui. Não está nesta floresta. Mas está relacionado à minha linhagem. À minha missão. E a algo muito maior que todos nós.

Grumak o observou com mais atenção agora. O jeito como falava, a convicção, a escolha das palavras... não era vaidade. Era fé.

— Você quer que confiemos em você — disse. — Sendo que nos seguiu, se apresentou do nada, carrega duas adagas e fala como um contador de histórias místico.

Tibrok sorriu, fechando um dos olhos como se fosse cúmplice.

— Confiança se constrói em dois lados. Eu ofereço o caminho. Vocês oferecem o braço armado. Juntos, buscamos uma lenda e, depois, um segredo.

Malias piscou devagar.

— E se recusarmos?

— Então encontrarão o vale, talvez. Se sobreviverem às rotas falsas, à névoa viva e às criaturas que se alimentam do brilho da lua. Mas não encontrarão a Pedra. Ela não aparece pra qualquer um. Só quando o caminho certo é trilhado... e quando os que caminham têm um motivo maior que o brilho da recompensa.

Grumak se virou para Malias.

Ela apenas balançou os ombros.

— Se ele tiver a metade do que tá prometendo... vale a pena.

Grumak assentiu.

— Está bem, Tibrok. Você nos guia até a pedra. E se isso for real... falaremos sobre sua tal relíquia depois.

Tibrok abriu um sorriso largo. O primeiro genuinamente alegre.

— Então temos um acordo.

E as adagas brilharam sob a luz filtrada da floresta enquanto ele girava nos calcanhares e sumia entre os galhos, como se a trilha já estivesse pronta para ele — e agora, também para eles.

O trio seguia pela floresta, agora um corredor vivo de raízes torcidas, sombras sussurrantes e galhos que pareciam dobrar-se sob o peso do que vigiavam. Tibrok caminhava adiante com uma leveza quase absurda para alguém que recém havia se juntado a dois guerreiros armados — mas seus olhos não paravam de se mover. Atento. Silencioso. Coelho de sangue antigo.

Foi então que o mundo rasgou.

Uma criatura surgiu do mato como uma flecha saída do próprio inferno. Corcunda, pele acinzentada e coberta por crostas, a boca aberta como uma fenda costurada a navalhadas, e olhos negros como fundo de poço. O som que fazia era o pior: estalos de osso, como se o próprio corpo se quebrasse para se mover.

— TIBROK! — gritou Grumak.

O pequeno Nok’vai congelou. Os olhos arregalados, o corpo travado pela visão que se aproximava num salto predador, a boca da criatura aberta, prestes a engoli-lo.

Mas... puf!

Tibrok desapareceu.

E reapareceu meio segundo depois... no ombro de Grumak, arfando como um gato que escapou da morte por um fio de pelo.

— EU QUASE VIREI SNACK! — berrou, os olhos arregalados e a pelagem toda eriçada.

Grumak nem teve tempo de responder.

Malias já estava com o arco em mãos. A flecha encantada zuniu como um trovão e atravessou a cabeça da criatura. Ela caiu sem emitir som — como uma boneca que teve os fios cortados.

Mas o alívio não veio.

Mais três surgiram.

Bestas deformadas, como hienas feitas de restos de ossos. Garras arrastando-se no chão. Mandíbulas abertas e dentes demais para uma boca só.

Grumak avaliou o terreno.

Fogo aqui seria suicídio.

Uma névoa azulada começou a escapar pelas ranhuras metálicas dos dedos.

A primeira criatura veio com tudo. Grumak esperou o tempo exato e golpeou.

O soco bateu no peito da besta com o som de um trovão abafado. No mesmo instante, o corpo congelou por dentro — e quebrou de dentro pra fora estilhaçando-se em mil pedaços que voaram entre galhos e folhas.

Malias sussurrou, já preparando outra flecha:

— Tá aí uma habilidade que eu não esperava... congelar um bicho no meio do mato e ainda sair bonito na foto.

— Só não deixa esses vermes chegarem perto do guia — respondeu Grumak, olhos atentos. — Ele já quase virou entrada de taverna.

— TÔ AQUI AINDA, TÁ?! — protestou Tibrok, do ombro de Grumak. — E agora vocês me devem pelo menos um jantar e um abraço emocional!

— Concentre-se! — gritou Malias.

As duas criaturas restantes atacaram ao mesmo tempo.

Grumak pulou pro lado, mas uma delas já vinha por cima — boca aberta, garras em riste.

Tibrok sumiu de novo.

Puf!

Reapareceu atrás da criatura com as duas adagas nas mãos. Os olhos brilhavam em dourado selvagem. Com dois movimentos rápidos e precisos, cravou as lâminas nos tendões traseiros da besta.

Ela gritou. Um som horrível. E tropeçou no impulso.

Antes que se recuperasse, Grumak girou e aplicou um segundo golpe congelante no pescoço do monstro.

Ele explodiu em gelo e dor.

A última criatura mirou Malias.

Mas Malias já a esperava. Girou o corpo suavemente, puxou a corda e disparou no momento exato. A flecha atravessou o crânio da criatura, que caiu com um baque seco a poucos passos dela.

Então, o silêncio veio.

Como se o próprio vale estivesse prendendo a respiração.

Grumak abaixou os braços lentamente. A névoa ainda se dissipava entre as árvores.

— Estão mortos? — perguntou Malias, varrendo o ambiente com os olhos.

— Por enquanto — respondeu ele. — Mas não gosto desse silêncio.

Tibrok escorregou do ombro de Grumak e caminhou até os corpos com passos lentos.

Os olhos dourados dele... tinham uma tristeza contida.

— Varnek — sussurrou. — Eles sentem o sangue Nok’vai como se fôssemos faróis na escuridão. Nós não os caçamos. Eles vêm atrás. Sempre.

Grumak se aproximou, observando o corpo retorcido de um dos monstros.

— Você já enfrentou isso antes?

— Fui criado fugindo disso. Me tornei útil... por isso. Por escapar. Por voltar. Por cortar rápido quando não dava pra correr. — Ele olhou os dois com seriedade. — O que fizeram aqui hoje... meu povo não esquece. Os Nok’vai honram quem sangra por nós.

Malias abaixou o arco. Os ombros tensos, mas a respiração já começando a voltar ao normal.

— Espero que essa seja a parte mais difícil da trilha — murmurou.

Tibrok negou com a cabeça.

— Isso foi só o portão. O vale ainda nem começou a testar vocês.

os três seguiram em silêncio até encontrar o local do acampamento — três árvores entrelaçadas em forma de cúpula. Tibrok apontou e liderou a montagem da plataforma elevada com destreza. Cipós amarrados. Galhos encaixados. Tecidos improvisados como teto.

Malias, ainda bufando, murmurou:

— Se o monstro não nos matar, a fome mata.

Tibrok, como se tivesse esperado aquele momento, ergueu as orelhas.

— Vi uma árvore de Frulambras há pouco. Frutas douradas, doces... e dizem que acalmam a alma. Servem até pra sonho bom.

Grumak arqueou a sobrancelha.

— Você tem um mapa mental da floresta ou só tá fugindo do trabalho?

— Instinto. E um pouco de preguiça estratégica.

Voltou minutos depois com frutas âmbar que brilhavam sob a luz filtrada da lua.

Malias provou uma.

— Doce, madeira... e menta? — fez careta. — Ok, melhor que raiz crua.

Com o estômago mais calmo, ela adormeceu encolhida sob o manto.

Tibrok se deitou com os braços cruzados atrás da cabeça.

Grumak, no entanto, continuou acordado.

— Não dorme? — sussurrou Tibrok.

— Primeiro turno é meu. E... tava pensando no seu sumiço hoje.

Tibrok sorriu de leve.

— Salto Etéreo. Nok’vai antigo. É como deslizar entre os planos. Mas custa caro. Três vezes no mesmo dia e quase vomito os pulmões.

— Você sumiu três vezes hoje.

— Quase vomitei os pulmões. E metade da coragem.

Grumak soltou um ruído abafado. Quase um riso.

— Da próxima vez, só... avisa.

— Prometo. E apareço do lado. Mais educado.

Silêncio.

Mas não o tipo pesado.

Era o silêncio bom.

O de quando não se precisa fingir força.

O de quando três pessoas completamente diferentes compartilham um mesmo abrigo no fim do mundo.

E sabem que, pelo menos por essa noite... sobreviveram.

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Grumak era só mais um homem tentando sobreviver em um mundo que não dava trégua. Um lugar onde sobreviver era tudo, e amor... era quase um luxo. Entre batalhas, trabalhos sujos e noites vazias, ele mal conseguia tempo pra olhar nos olhos do próprio filho, quem dirá criar laços. O mundo moderno o engoliu cedo demais — e ele apenas seguiu endurecendo.

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Uma história de fantasia, paternidade, sacrifício e reconstrução.
Onde monstros são enfrentados com espada, mas também com o coração.
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