As muralhas vivas da vila de Rastros-Sangue surgiram entre a neblina com a mesma intensidade de um pressentimento. O som das folhas, que antes murmurava julgamento, agora parecia apenas… escutar.
Alvim cruzou os portões primeiro, como um guardião que retornava com relíquias. Shiro e Helster o seguiram em silêncio — não por respeito, mas porque o mundo ainda os pesava sobre os ombros. Não de culpa. Mas de transformação.
As criaturas da vila pararam. Olhos felinos, córneos espiralados, o povo do véu assistia os dois atravessarem o centro como se carregassem um selo que ninguém podia ver.
Na cabana, Lysara os aguardava. Sentada como sempre, perto do caldeirão, os olhos opacos virados para o fogo. Mas ao sentirem a presença dos dois jovens, as chamas se ergueram, sibilando de leve — como se a energia reconhecesse o retorno.
— Entraram no véu e saíram inteiros — disse ela, sem levantar a cabeça. — Nem todos voltam com a alma na mesma carne.
Shiro se curvou levemente. Helster apenas assentiu, mas o gesto foi cheio de um novo peso.
— Ez’Thirra foi derrotada — disse Alvim. — Os dois resistiram à inversão. Venceram... e voltaram em pé.
Lysara ergueu os olhos.
— E com isso, deixaram de ser aprendizes. Mas ainda não são guerreiros.
Shiro franziu o cenho. Helster bufou leve, mas não rebateu.
— Vocês acham que lutaram contra o véu — disse Lysara, levantando-se. — Mas ainda carregam traços dele dentro de vocês.
Ela andou até uma prateleira escurecida. Tirou de lá duas pedras ovais, de cor opaca, como carvão antigo com veios apagados.
— Último teste antes da benção completa. Sem monstro. Sem ilusão. Sem grito.
Estendeu uma pedra para cada.
— Quero que partam isso com energia pura. Só concentração. Nenhum golpe. Nenhuma explosão.
Shiro tocou a pedra. Era fria. Mais pesada do que parecia.
Helster apertou a dele e franziu a testa.
— Isso é impossível.
Lysara sorriu de canto.
— É. Até não ser mais.
Alvim cruzou os braços, se encostando na parede.
— Quando vocês conseguirem, me chamem.
E antes de sair, lançou um último olhar:
— A diferença entre quebrar e transformar está na calma. Na vontade. E no silêncio.
A porta fechou atrás dele.
Shiro olhou para Helster.
Helster olhou para a pedra.
E ambos sentiram, no fundo da alma, que essa seria a prova mais cruel de todas.
O interior da cabana parecia mais silencioso do que o necessário.
Lysara permanecia sentada, os olhos voltados para as pedras em mãos — como se cada uma guardasse um segredo antigo demais para ser nomeado.
Shiro e Helster estavam ajoelhados no centro da sala, com as pedras sobre panos dobrados à sua frente. A textura daquelas pedras parecia sugar o calor da pele. Elas não rejeitavam, não resistiam — apenas esperavam.
— Respirem — murmurou Lysara. — Esqueçam a vitória. Ela já passou.
O fogo da lareira dançava devagar. Nenhuma rajada. Nenhum sussurro.
Shiro fechou os olhos. A espada do leão repousava atrás dele, silenciosa como um animal adormecido. Sentiu a energia se mover dentro do peito — a chama branca, constante. Com o tempo, aprendeu a canalizá-la…, mas até ali, sempre havia um alvo. Um impacto. Um sentido externo.
Agora, era diferente.
Helster mantinha o escudo encostado na parede. A espada curta no colo, descansando. Ele inspirava pelo nariz, como Alvim o ensinara: batidas longas, respiração ancorada no abdômen.
— Lembra do bastão? — murmurou.
— Lembro — respondeu Shiro, sem abrir os olhos.
Era a última lição de Alvim, semanas antes.
Canalizar o fluxo da energia nos bastões, até que ficassem leves como madeira seca.
Forçar o controle da essência sem deixar que ela escapasse.
Na época, parecia brincadeira de força.
Agora, pareciam prelúdios de algo que não sabiam nomear.
— A diferença — sussurrou Lysara, como se lesse seus pensamentos — é que o bastão era um intermediário. Um tradutor.
Ela tocou uma das pedras com a ponta do dedo.
— Aqui… não há tradução. Vocês são o canal. A lâmina. A pergunta. E a resposta.
Shiro engoliu em seco. A chama dentro dele parecia querer explodir — mas ele não podia deixá-la escapar. Precisava controlá-la sem suprimir. Alimentá-la sem deixá-la devorar.
A tensão era invisível, mas esmagava.
O tempo passou como se estivesse parado.
Lá fora, a vila seguia viva. Dentro da cabana, o mundo se resumia ao que estava sob as mãos.
A pedra.
A respiração.
A memória do bastão.
Helster foi o primeiro a falhar.
Um lampejo de energia escapou pela mão — e a pedra deslizou sobre o pano, intacta. Ele xingou baixo, frustração no rosto.
— Mais devagar — corrigiu Lysara. — Você não está tentando arrebentar uma porta. Está tentando abrir um fecho de seda.
Shiro tentou outra vez.
Concentrou a chama na palma. Visualizou a estrutura da pedra. Não com os olhos, mas com o fluxo.
E por um instante… sentiu.
Não calor.
Não pressão.
Pulsação.
Como se a pedra tivesse coração. Um ritmo. Um eco.
Se conectou.
E então — rachadura.
Fina, quase imperceptível. Mas lá.
Ele suspirou.
Helster olhou de lado.
— Que foi?
Shiro ergueu a pedra. Uma linha fina cortava seu centro como uma cicatriz de luz.
Ele sorriu. Não de arrogância — mas de alívio.
— Ouvi o coração dela.
Helster riu seco.
— Claro que ouviu. É o protagonista.
Shiro entregou a pedra rachada para Lysara.
Ela a segurou como quem recebe um pergaminho antigo.
— Primeira marca. Falta partir.
Ela virou para Helster.
— E você?
Helster bufou, colocou as mãos sobre a própria pedra, e fechou os olhos.
— Escudo não quebra. Mas também não corre.
E voltou a tentar.
Helster ainda estava de olhos fechados, o suor escorrendo pela têmpora. A pedra sob suas mãos vibrava, mas não cedia. A frustração fazia sua mandíbula ranger. Até que Lysara, pela primeira vez desde que os testara, levantou a voz:
— Chega.
Helster abriu os olhos, confuso.
— Mas eu ainda não…
— Não é aqui dentro que vão conseguir. Vocês não foram feitos para ficar imóveis. A energia de vocês se move. Ela exige movimento, respiração, mundo.
Ela deu meia-volta e caminhou até a porta. O vento frio entrou na cabana como um sussurro antigo. Lysara olhou por cima do ombro.
— Levem as pedras.
Helster e Shiro se entreolharam.
— Pra onde? — perguntou o javali.
— Pela vila.
Alvim, que até então observava em silêncio, soltou um pequeno riso.
— De novo?
— De novo. — Lysara lançou um olhar de lado para ele. — Mas desta vez… com destino.
Ela olhou diretamente para os dois jovens.
— Vocês vão atravessar toda a vila. Rua por Rua. Do portão norte à casa do fundo. E vão fazer isso canalizando a energia o tempo inteiro.
Shiro já sentia o estômago afundar.
— Sem perder o controle?
— Não é sobre perder — respondeu Lysara. — É sobre manter. A pedra vai partir no momento em que a canalização atingir o ponto de comunhão. Nem antes. Nem depois.
Helster suspirou.
— Igual o treinamento com os bastões, quando a gente subiu o morro com o Alvim.
— Similar — respondeu o Urso. — Mas agora o bastão é tua alma.
O céu estava cinza quando eles saíram.
Moradores da vila observavam com olhos silenciosos. A dupla passou pelas ruelas estreitas, cada um com a pedra na palma, sentindo o mundo ao redor amplificar seus próprios limites.
A energia em Shiro queria correr como chama livre.
A de Helster pesava como uma muralha subindo do estômago aos ombros.
— Passos curtos — murmurou Shiro.
— Respira — respondeu Helster.
Eles sorriam. Mas cada passo era tortura.
Em uma curva, a energia de Helster subiu para o peito — quase explodiu nos ombros. Ele rangeu os dentes, puxou de volta, empurrando a força pro centro do corpo. A pedra brilhou por um segundo. Depois escureceu.
Shiro sentia a chama vibrar no pescoço, querendo sair pelos olhos. Ele baixou o foco até os quadris, concentrando o calor ali, como se fosse acender o chão com os pés.
A pedra dele esquentou. Mas não quebrou.
Na rua dos forjadores, uma criança da vila os olhou com olhos dourados e disse:
— Eles tão suando sem correr. Tão sonhando acordado?
A mãe puxou a criança para perto, murmurando algo sobre "quem carrega pedras com alma".
Ao fim da terceira rua, Helster tropeçou. Quase caiu de joelhos, mas a mão apertou a pedra como quem segura uma verdade. A energia canalizada zuniu por dentro do escudo invisível — a pedra emitiu um leve estalo.
Shiro parou, ofegante. O braço tremia.
— Ainda não.
— Tá perto — respondeu Helster, arfando.
E continuaram.
No portão norte, viraram. Iniciaram o caminho final — uma trilha por entre raízes vivas e trepadeiras pendendo dos telhados. Era a parte mais antiga da vila. A parte onde, segundo Lysara, a energia era mais densa, onde as verdades se ouviam melhor.
Lá, a pressão ficou pior.
Mas também… mais íntima.
Shiro sentiu a pedra vibrar como se respirasse com ele. Cada passo ressoava como um tambor sagrado.
Helster sentia o escudo interior reverberar junto da palma, canalizando como um rio subterrâneo.
Na penúltima curva, sem aviso…
Shiro parou.
A pedra em sua mão se partiu ao meio, sem som, como se tivesse apenas exalado.
Ele caiu de joelhos, exausto, mas sorrindo.
— Eu ouvi… tudo.
Helster parou um passo depois. A pedra dele também tremia, veios se abrindo como rachaduras vivas. Ele caiu sentado, segurando o último fio de energia como se fosse o fôlego final.
A pedra se quebrou.
Duas metades. Uma para cada lado da mão.
Ele riu. Longo. Rouco.
— Finalmente.
Do alto da trilha, Alvim observava, braços cruzados. Lysara ao lado dele.
— E agora? — perguntou ele. — Damos o nome?
Lysara sorriu, suave.
— Agora… eles estão prontos para o mundo.
Na manhã seguinte, a névoa ainda rastejava pelas trilhas, quando Alvim os chamou — sem palavras, só com um gesto seco da garra.
Shiro e Helster, cansados, mas inteiros, o seguiram.
O caminho os levou além da muralha de Rastros-Sangue, por entre pinheiros de casca negra e rochas cobertas por musgo antigo. Nenhum outro som os acompanhava — apenas o som dos próprios passos, como se o mundo ao redor segurasse a respiração.
Chegaram a uma clareira onde duas pedras imensas, partidas do solo, erguiam-se como colunas de um templo esquecido.
Alvim parou no centro. Sacou de dentro do manto dois bastões simples, de madeira escura com veios dourados — como se o sangue da terra corresse dentro deles.
— Reconhecem?
Shiro pegou um deles. Sentiu de imediato o pulsar contido — igual ao que treinara dias atrás…, mas agora vivo.
Helster segurou o outro, sentindo o peso mudar quando canalizava.
— São os bastões que usaram comigo — disse Alvim. — Mas eles não são os mesmos. E vocês… também não são.
Ele apontou com a garra para as pedras erguidas.
— Aquilo ali é pedra do Véu. Dura como vergonha, fria como medo.
Partam-nas. Não com força bruta.
Mas com energia viva, direcionada.
Com o Daishi.
Os dois se entreolharam. Shiro inspirou profundamente, sentindo a chama branca subir da base da espinha até o centro das mãos.
Helster canalizou do abdômen aos braços, escudo invisível se realinhando, a espada curta agora apenas lembrança.
— Bastão não é só madeira — murmurou Alvim. — É espelho. Se vocês ainda mentem… ele não responde.
Shiro correu primeiro.
A chama concentrou-se na base do bastão, e ele girou no ar como uma extensão do braço. No último passo, canalizou tudo — e ao tocar a pedra…
CRACK.
A rocha se abriu com um grito seco.
Não uma explosão.
Um corte limpo.
Helster avançou sem palavras.
O bastão em sua mão pesava como um martelo de trovão — mas movia-se com elegância.
Ele parou a meio metro da outra pedra, puxou a energia… e liberou como um fôlego profundo.
TCHAAK.
A segunda pedra rachou em dois, descendo com elegância para os lados, como se tivesse aceitado a derrota com respeito.
Alvim soltou um som grave no fundo da garganta. Algo entre um grunhido e um riso contido.
— Agora sim.
Ele os olhou com mais do que aprovação.
Com aceitação.
— Vocês dois quebraram pedra sem quebrar a alma.
Daqui pra frente, podem escolher armas, caminhos ou guerra.
Mas se esquecerem o que aprenderam com o bastão… nada disso vai importar.
Shiro olhou para Helster. Helster, para o céu.
E juntos, sabiam:
o ciclo de aprendiz terminava ali.
A vila parecia mais viva naquela manhã. Os olhos que antes vigiavam, agora apenas observavam.
Nem sorrisos. Nem palavras.
Só reconhecimento.
Shiro e Helster estavam de pé na frente da cabana de Lysara.
Atrás deles, Alvim já esperava com os braços cruzados, paciente como uma pedra acostumada ao vento.
Lysara saiu da sombra do umbral e os encarou com seus olhos opacos, firmes como a raiz que não se curva nem ao tempo.
— Vocês esperam palavras — disse ela. — Mas palavras demais enfraquecem os gestos.
Ela se aproximou, pousando uma mão sobre o ombro de cada um.
— Shiro. Sua espada é seu reflexo. Mas só brilha quando o coração é firme.
— Helster. Seu escudo carrega mais do que defesa. Ele é um voto. Uma promessa calada.
Ela olhou para os dois.
— Esperam por um prêmio. Mas os verdadeiros já carregam com vocês.
Shiro tocou o punho da espada-leão. Helster firmou a mão sobre o escudo.
Não havia mais o que dizer.
Lysara se virou. Antes de entrar novamente na cabana, murmurou:
— Se sobreviverem ao que vem… voltem. A vila ainda vai precisar de vocês.
E eu… talvez ainda tenha o que ensinar.
A porta fechou. O vento soprou.
E o ciclo da vila terminou.
Horas depois, já fora dos limites de Rastros-Sangue, Alvim esticou os braços como quem voltava a respirar de verdade.
— Pronto. Já fizeram sua parte com véu, veias e véus antigos.
Helster respirava fundo, passos ainda marcados pelo treino.
— A gente vai direto pro campo de treinamento?
— Vai sim — disse Alvim. — Mas…
Ele esticou um pequeno pergaminho de casca vegetal com dois símbolos desenhados: chama e escudo.
— Vão canalizando.
O caminho inteiro.
Shiro e Helster congelaram.
— De novo?! — reclamaram simultaneamente.
Alvim sorriu pela primeira vez naquele dia.
— Se quebraram pedra com energia, agora quero ver o que fazem com estrada e exaustão.
E foi andando.
Os dois o seguiram, resmungando, ajustando respiração, firmando os passos.
Canalizar era o novo andar.
Respirar, o novo lutar.
E entre um suspiro e outro, Helster murmurou:
— Se eu soubesse que virar forte doía tanto, tinha ficado vendendo legumes.
Shiro riu, ofegante.
— E perdido a chance de me ver brilhar?
— Ah, vai pro inferno.
A trilha se estendia.
O campo os esperava.
E o mundo… também.

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