A neblina se afastava como se temesse o retorno deles.
Três silhuetas surgiam entre os veios do bosque — uma figura de músculos e cicatrizes que carregava nos ombros mais do que a própria pele, uma lupina de passos firmes, olhos famintos e alma em combustão e um coelho de olhar agudo, duas adagas presas à cintura, como extensões da própria desconfiança.
Grumak, Malias e Tibrok pisaram de volta na vila dos Coelhos Guerreiros.
E o mundo, mesmo sem saber, respirou fundo.
O portão se abriu sem aviso. Balbito estava lá.
Os olhos do ancião miraram Grumak com respeito, Malias com surpresa…
Mas quando viram Tibrok, o velho travou no tempo.
— Tibrok...?
— Em carne, ossos… e um pouco menos de vergonha — disse o coelho, com um sorriso torto.
Balbito piscou algumas vezes.
— Faz… quantas décadas?
— Mais do que devo admitir. Mas você continua o mesmo… só com menos pelos.
Balbito soltou uma risada rouca, que logo se desfez num suspiro comovido. Tocou de leve o ombro do velho amigo, como se quisesse conferir se ele era real.
— Achei que nunca mais voltaria a te ver.
— E eu achei que não sobraria vila pra voltar.
A entrada deles foi silenciosa, mas carregada.
Não havia festa — mas havia olhares.
As Joias Lunares cintilavam sutilmente no peito de Grumak, e nos pulsos de Malias.
A missão havia sido concluída. Mas ninguém ali precisava ouvir isso em voz alta.
Thargus os aguardava na entrada da Guilda.
Alta, felina, com pelagem cinza escura e olhos dourados de comandante que já enterrou mais aliados do que gostaria.
Ela não sorriu.
Mas inclinou levemente a cabeça.
— Vocês cumpriram o ciclo. As Joias Lunares pulsam com ritmo antigo… e com sangue novo.
Grumak assentiu. Malias mantinha o olhar fixo — séria, firme, mas inquieta.
Thargus os conduziu até o interior do salão.
O salão da guilda parecia mais denso do que da última vez.
Lá, entre tapeçarias de caça e brasões de alianças antigas, havia uma estrutura cristalina — como um casulo vertical, flutuando em suspensão mágica.
Dentro dele… alguém.
Quando Malias parou de frente, o ar congelou.
A figura era de uma lupina, de cabelos curtos, armadura gasta e olhar vazio — mas um lado do rosto estava completamente escurecido, como se tivesse sido tocado por sombra viva.
Ela não os via. Mas respirava.
Tibrok deu um passo à frente.
Balbito ficou imóvel.
— Sallira?
A voz saiu como um sussurro entre preces.
Thargus falou, baixo:
— A última a aceitar a missão das Joias. A filha adotiva de Balbito.
Caída durante o cerco ao Véu-Seco… resgatada por mim, antes que o Eco a levasse de vez.
Balbito levou a mão à boca, trêmulo.
— Eu… pensei que ela…
— Estava perdida. Todos pensamos.
Grumak se aproximou devagar.
— O lado escurecido… é resíduo?
— Não só isso — disse Thargus. — É um elo corrompido. Algo que ainda pulsa dentro dela. Mas ela resistiu. Não quebrou.
Malias sentiu o cristal azul-dourado no pescoço pulsar.
Sallira… vibrava no mesmo ritmo.
Thargus estendeu a mão, e uma pequena caixa de madeira foi aberta diante dos três.
— Vocês não vieram só por justiça. Vieram por um laço. E por promessas.
Farlan ainda espera. Tibrok fez um pedido. E Sallira… precisa de respostas que ninguém mais pode buscar.
Ela entregou os objetos um por um:
Para Grumak: uma braceleira de couro e ferro, marcada por runas vivas.
— “Chama Interior. Para quando até as pedras hesitarem.”
Para Malias: um amuleto com veios negros e um núcleo vermelho, quente ao toque.
— “Instinto Sombrio. Para quando a escolha for entre silenciar… ou se tornar um trovão.”
Para Tibrok: uma lanterna pequena, feita de osso entalhado e cristal dourado.
— “Rastros Perfeitos. Porque às vezes… o rastro que deixamos é o que define quem somos.”
Tibrok aceitou o presente em silêncio. Mas seus olhos estavam marejados.
Thargus deu um passo atrás.
— A cidade de Eldoria aguarda.
— E se vocês vão encarar o que está vindo… precisam falar com o ancião da Pedra da Amizade.
Grumak assentiu.
Malias tocou o cristal azul-dourado em seu colar.
Sallira, no casulo… mexeu os dedos.
O silêncio após a entrega dos presentes era denso.
Grumak sentia o peso das palavras não ditas.
Malias fixava os olhos no casulo, como se esperasse que Sallira despertasse por vontade.
Tibrok apenas observava — mas a rigidez dos ombros traía o turbilhão sob a pele.
A sombra da mulher flutuando no cristal — o lado do rosto consumido por algo que ainda respirava — era mais do que estranha.
Era familiar.
Grumak deu um passo à frente, as mãos fechadas.
— Aquela sombra que o Eco-Sangrento conjurou… a que lutou comigo…
— Ela se parecia com ela.
Thargus inclinou a cabeça, os olhos felinos fixos nele.
— Você a viu?
— Senti. Lutei com aquilo.
— E agora olho pra Sallira… e vejo o mesmo tom escuro nos olhos, o mesmo peso quebrado.
Tibrok cruzou os braços.
— Você quer nos explicar agora por que uma missão que começou com uma estalagem, um pedido simples… terminou num combate contra espectros ancestrais, artefatos espirituais e ecos que nos seguiram?
Thargus não hesitou.
— Porque Farlan já sabia.
Malias ergueu as sobrancelhas. Grumak cerrou o maxilar.
— Ele… sabia?
— Não exatamente. Mas… previu. Ele sentiu o movimento.
Sabia que as Joias estavam se reativando. Que o Eco estava voltando.
Ele sabia que a missão real só começaria quando vocês aceitassem algo sem saber o preço.
Grumak deu um passo, agora diante dela.
— Você me envolveu numa guerra… por causa de uma noite de hospedagem.
Thargus sorriu com o canto da boca. Não por deboche, mas como quem carrega culpas antigas.
— E essa foi a melhor barganha que já fiz.
Silêncio.
Então ela andou até a parede, onde repousava um mapa velho — e cravou a unha sobre o Sul, perto de Eldoria.
— Eu não te peço pra mudar tua jornada. Ajude Tibrok. Vá até a cidade mista.
Mas quando a missão acabar… volte para cá.
— Pra quê?
— Porque talvez… apenas talvez… possamos salvar Sallira.
Grumak a encarou.
— Como?
— Ainda não sei. Mas há uma linha que liga as Joias Lunares, o Eco e a ruptura espiritual dela.
Talvez haja um jeito. Mas vou precisar de alguém que já enfrentou a sombra dela e sobreviveu.
Malias abaixou os olhos. O cristal azul-dourado em seu colar pulsava.
Ela sabia que algo dentro dela também vibrava com o nome de Sallira.
Thargus completou, num tom quase suave:
— Farlan disse que, se alguém podia completar esse ciclo… era você.
Grumak desviou o olhar, suspirando como quem carrega uma floresta nas costas.
— Eu volto. Mas antes… ajudo Tibrok.
Tibrok deu um leve sorriso — curto, honesto.
Thargus assentiu. E então Balbito se aproximou.
— Grumak…
O velho estava com os olhos úmidos, mas o corpo firme como nunca.
— Se você… se você salvar ela…
Você nunca mais vai pagar por cama nenhuma nesta vila.
Nem que fique por um ano inteiro.
Grumak estendeu a mão. Balbito a segurou com força, como quem entrega mais que um agradecimento.
Na saída, o grupo já se preparava para partir.
Malias prendia o cabelo num nó simples. Tibrok verificava o fio das adagas. Grumak vestia o manto reforçado que ganhara da guilda.
Foi então que Thargus os chamou pela última vez.
— Grumak.
Ele se virou.
— Mostre a eles.
O guerreiro ergueu as mãos, puxando parte do manto para o lado. Nas costas, entre os ombros, estava a marca.
Um triângulo perfeito.
Formado por três símbolos:
Uma estrela de oito pontas no vértice superior.
Um sol com núcleo em espiral no canto esquerdo.
Uma lua minguante invertida no direito.
A Marca da Primeira Aliança.
Balbito estalou a língua. Thargus fechou os olhos por um segundo.
Malias tocou levemente a borda do triângulo, como quem reconhece uma pintura esquecida.
— É mais do que herança — sussurrou ela.
Grumak vestiu o manto de novo.
— É um lembrete.
E partiu, ao lado dos dois, rumo ao sul.
Rumo ao que viria.
Mas agora, não apenas como o guerreiro que venceu o Eco-Sangrento.
Nem só como o portador das Joias Lunares.
Agora, como aquele que carrega a marca que selou o mundo — e que talvez… seja o único que pode reabri-lo.
Os três desceram a trilha de terra batida, mergulhando novamente nas florestas que levavam ao desconhecido.
A missão de Tibrok começava ali.
O reencontro com Farlan estava próximo.
E a cidade mista… prometia verdades que poderiam mudar o curso de tudo.
A trilha serpenteava sob a copa fechada da floresta, onde feixes de sol dançavam entre folhas espessas.
Grumak ia à frente, atento. Malias logo atrás, inquieta. Tibrok acompanhava os dois calados.
O mato estalava sob as botas. O vento cantava entre as copas altas, mas a mata parecia… quieta demais.
— Se eu comer mais uma fruta, vou começar a uivar só pra assustar esquilos — resmungou Malias, chutando uma pedra coberta de líquen. — Eu preciso de carne!
— Da próxima vez, avisa que quer parar numa taverna antes de partir — retrucou Tibrok, bufando. — Meu povo não sobrevive a base de cerveja e perna de frango assada, Malias.
— Então agora é culpa do seu povo?
Grumak apenas sorriu de canto, sem virar. O silêncio entre eles era confortável, quase familiar.
Tibrok puxou o mapa bordado em linho antigo. No centro, símbolos entrelaçados: lua, estrela e sol.
— Procuramos o Orun’Tarrak — explicou, traçando com o dedo um círculo sobre o tecido. — Um espírito guardião. Dizem que ele protege uma relíquia antiga chamada Eco da Harmonia. E que repousa onde o tempo dobra sobre a memória.
Grumak parou de súbito, o corpo imóvel, mas os olhos carregados.
— Farlan me disse que a história da guerra dos heróis foi reescrita. Que os símbolos da aliança foram apagados das bandeiras depois da vitória.
Tibrok assentiu, guardando o mapa com cuidado.
— Meu povo lembra…, mas só em sussurros.
Os mais velhos dizem que os guardiões caídos foram riscados não pelos inimigos…, mas pelos aliados.
— Quem carrega o sangue antigo ainda sente esses ecos.
Se o Eco da Harmonia for real… talvez revele o que foi calado.
Malias cruzou os braços.
— Se esse Orun’Tarrak aparecer rugindo, prometo ser a primeira a dar um chute no que quer que ele use como queixo.
— Se ele não te devorar antes — disse Tibrok.
— Que tente. No máximo, vai se engasgar com meu osso da raiva.
Eles riram. Mesmo ali, à beira do desconhecido, a risada se mantinha viva.
O sol já caía quando o verde se abriu em uma clareira natural.
Raízes entrelaçadas formavam uma espécie de altar natural. No centro, um lago raso refletia os primeiros brilhos do céu noturno.
O silêncio ali era mais profundo.
Grumak parou e falou com voz baixa:
— Aqui dá pra passar a noite.
Malias olhou em volta, avaliando o lugar com olhos de caçadora.
— Se tiver alguma coisa por perto, eu trago.
Tibrok tirou as botas e mergulhou os pés na água fria com um gemido de alívio.
— Pelos astros, eu precisava disso.
Malias sumiu na mata antes que alguém dissesse algo.
O crepúsculo descia quando ela retornou.
Nos ombros, carregava um cervo-do-orvalho — um animal esguio, pelagem cinza-azulada, olhos fechados e um pequeno corte limpo no pescoço. Mítico, quase silencioso, e reverenciado em muitas regiões como sinal de equilíbrio.
— Jantar — disse ela, com um brilho de vitória nos olhos.
Grumak ergueu uma sobrancelha.
— Sério que você achou um cervo-do-orvalho?
— Ele me olhou como se tivesse aceitado o destino. Achei justo respeitar o acordo.
Tibrok a observou por um instante. Depois se levantou e começou a preparar a fogueira com gravetos secos.
Enquanto a carne assava lentamente, o céu se enchia de estrelas.
Malias, exausta, recolheu algumas mudas de roupa, e se afastou.
— Vou pro banho. Nada de me seguir, ou perco a piedade que não tenho.
Tibrok desviou os olhos, corando.
Grumak tirou o manto, revelando o torso coberto por cicatrizes e o símbolo entre as escápulas.
Mergulhou no lago.
Foi quando percebeu. Um olhar o tocava. Não era ameaça, mas também não era leve.
Tibrok se aproximava, lentamente.
Parou à beira da água, os olhos presos às costas de Grumak.
— Desde quando você tem isso?
Grumak virou o rosto, confuso.
— O quê?
— Aquilo que vi na guilda. A marca. A mesma que carregava nos sonhos. A mesma do mapa.
Grumak pousou a mão nas costas, onde sentia o calor da tatuagem.
— Desde sempre, eu acho.
— Grumak… você entende o que isso significa?
— Não tudo. Mas entendo uma coisa.
Ele saiu da água, a pele pingando, os olhos fixos no céu acima.
— Eu não sou daqui Tibrok.
— Fui trazido. Jogaram-me neste mundo com uma missão que nem eu entendia.
— Mas mesmo sem saber… eu lutarei. Sangrarei. Eu escolhi ficar.
Pausa. Ele olhou nos olhos do amigo.
— Eu tenho um filho. E preciso reencontrá-lo.
Tibrok engoliu seco.
— Isso muda tudo.
— Não. Só mostra o que sempre esteve aí.
Mais tarde, quando Malias voltou, viu os dois sentados perto do fogo, em silêncio.
A chama crepitava, e por um instante, refletiu algo nas costas de Grumak.
Malias parou.
A luz desenhou um triângulo.
E ela não precisou ver de novo para entender.
Ela se sentou sem dizer nada. Apenas estendeu a mão, tocando o ombro de Grumak com a ponta dos dedos.
— A Primeira Aliança… ainda respira.
Grumak não respondeu.
Mas o fogo dançou mais alto.
E o mundo, por um instante, pareceu esperar.

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