O vento da madrugada cortava a torre como lâmina viva.
Chamas púrpuras ardiam nos braseiros do santuário escuro, alimentadas por seiva ancestral e sangue seco.
Kaelthar estava imóvel diante do espelho negro — um círculo de obsidiana líquida que pulsava em ondas silenciosas, como se respirasse o tempo.
Ele sentiu quando aconteceu.
Uma dor breve, seca, não física, mas queimando por dentro como uma artéria que se parte.
Um elo quebrado.
O selo que o ligava ao Eco-Sangrento foi arrancado do mundo.
Nenhum suspiro. Nenhum lamento.
Apenas a tensão no maxilar, o ranger leve dos dedos sobre o metal frio da mesa de rituais.
Com um gesto suave, ele ergueu a mão direita. Runa por runa, símbolo por símbolo, desenhou um círculo no ar com traços de energia crua.
A Memória do Caído.
A magia, proibida em qualquer culto honesto, puxava o fio das lembranças de um ser morto através dos traços de sua essência restante.
E o Eco havia deixado rastros… muitos.
A chama do espelho explodiu num anel vermelho.
Kaelthar não piscou.
As imagens vieram sem som, mas carregadas de verdade.
O campo destruído.
Cinzas onde antes havia pedra.
O grito sem voz da criatura.
E então ele o viu.
Grumak.
O corpo coberto de sangue e suor.
Os olhos — vivos.
Mas havia algo novo. Algo desperto.
Chamas brancas. Raios de energia que não pertenciam ao mundo comum.
O guerreiro respirava como se canalizasse os próprios elementos, como se o mundo estivesse respondendo à sua dor.
Kaelthar estreitou os olhos.
“A força desperta nos extremos… como esperávamos.
Mas não nesse ritmo.”
Na imagem, Grumak caiu de joelhos.
E a lembrança se apagou como fumaça ao vento.
O espelho se dissolveu.
Kaelthar virou de costas, o manto deslizando pesado.
Foi até a sacada da torre. O céu estava limpo, cruel e gelado.
— Por que você o deixou escapar, Greg…?
As palavras saíram num sussurro rouco.
— Ele devia ter sido apagado antes da primeira faísca.
Silêncio.
Então ele riu — baixo. Frio.
— Mas tudo bem. Ainda é cedo.
Ainda é frágil.
Kaelthar estendeu a mão sobre o altar cerimonial. Uma segunda superfície brilhou. Um metal espelhado com moldura de ossos. Dentro dele, rostos encapuzados surgiram. Sem olhos. Sem boca. Apenas runas costuradas nas testas.
— Localizem-no.
— O guerreiro da marca antiga.
— Elimine-o...
As criaturas assentiram em silêncio.
A superfície apagou.
Kaelthar apertou o punho.
“Nenhuma joia deve ser desperdiçada.
E nenhum herdeiro deve respirar tempo demais.”
No Reino de Karmil
A fumaça das tochas dançava acima das torres da cidadela.
A multidão reunida na praça ouvia em silêncio. O palco era simples, mas a figura no centro não precisava de adornos para brilhar.
Greg.
A armadura polida. O manto vermelho escuro. Os olhos… estranhamente calmos.
Ele discursava com voz medida, grave, sedutora:
— Não peço ódio. Peço vigilância.
— Os semi-humanos… vivem entre nós. Alguns com honra.
— Mas… outros?
— Trazem em si a centelha das forças que destruíram nossos templos.
Murmúrios.
Os nobres da corte, nas sacadas superiores, sussurravam entre si.
Greg não usava magia aparente.
Mas sua aura — sombria, espessa, invisível — escorria pelas bordas da praça como fumaça quente.
E tocava os corações.
Um dos lordes sussurrou para o vizinho:
— Ele tem razão… ultimamente têm havido sumiços. O mercado está mais silencioso.
— Aqueles… com presas e garras… circulam como se fossem livres.
Outro completou:
— Talvez… seja hora de restringir certas permissões.
Greg sorriu.
Ligeiramente.
E por trás do sorriso… algo acordava.
Mais tarde, no alto da torre dos emissários, Greg olhava o horizonte.
Alguém entrou na sala. Mas ele não se virou.
— Está feito — disse a voz.
— Os primeiros editos serão propostos ao Conselho ainda esta semana.
— E os protestos foram contidos. Sem alarde.
Greg assentiu.
E então… ouviu a voz.
Não vinda da sala.
Mas dentro da mente.
“Dentro de alguns dias, precisarei que busque um item.
Em uma vila do sul. Aguarde o rastreio.”
Era Kaelthar.
Greg não respondeu de imediato.
Mas seus olhos cerraram.
E o sorriso retornou.
Kaelthar caminhava em círculos pelo salão inferior da torre.
Na parede, um mapa com traços de energia.
No centro… Eldoria.
Mas em volta, uma barreira de linhas douradas.
A Pedra da Amizade.
Um selo antigo.
Plantado como símbolo de pacto.
E agora… uma prisão.
Kaelthar rangia os dentes.
— Maldita pedra…
— Maldito símbolo.
Ele passou os dedos pela superfície encantada.
E então… um estalo na memória.
Uma imagem antiga.
Soldados da Aliança — invadindo as terras negras do continente demoníaco.
À frente deles, magos orcs… canalizando uma magia esquecida, um portal gigante.
Kaelthar saiu em disparada até a cripta inferior.
Lá, sob camadas de pedra e ferro, estavam os pertences de Gornak — o sábio orc que ele mesmo havia matado séculos atrás.
Entre pergaminhos, artefatos e armas antigas, encontrou o que procurava.
Um pergaminho circular, com traços vivos.
“A magia da Deslocação Sagrada.
Capaz de arrancar um item de seu lugar natural
e transferi-lo… para um ponto desconhecido.
Ou… escolhido.
Um círculo.
Seis pontos de catalisação.
Um centro.
“A magia não destrói.
Ela… dispersa.”
Kaelthar acariciou o centro do pergaminho.
“Se eu não puder atravessar a pedra…
Eu posso fazê-la desaparecer.”
O som dos sinos não anunciava glória.
Anunciava silêncio.
A capital do Reino de Karmil pairava sobre colinas amareladas, construída com torres de pedra pálida e ruas entrelaçadas como nervuras.
Mas naquele dia, o céu estava mais cinza que de costume.
E a praça central, abarrotada.
Havia bandeiras.
Havia soldados.
E havia Greg, de pé sobre o púlpito dourado, trajando a armadura negra do campeão dos homens, o brasão de três espadas sobre o peito — símbolo da antiga Ordem da Honra Pura.
Os olhos dele estavam calmos. Demais.
E ninguém sabia explicar o arrepio que sentia mesmo antes de ouvir sua voz.
— “Homens e mulheres de Karmil…”
A voz ecoava. Límpida, quase suave.
Mas cada palavra carregava um peso invisível, como se impregnasse o ar.
— “Este reino prospera pela ordem. Pela disciplina. Pela pureza da nossa linhagem.”
Silêncio tenso. As primeiras fileiras de nobres mantinham o queixo erguido. Os comerciantes, atrás, apenas escutavam.
Mais atrás ainda… os semi-humanos. Aqueles que trabalhavam fora das muralhas, mas precisavam entrar para vender, curar, ajudar.
Greg apontou o dedo para os céus, sem levantar a voz.
— “Mas há forças… que crescem nas sombras.
— Sussurram. Manipulam. Corrompem.
— Forças que não pertencem a este solo.”
Um murmúrio atravessou a multidão.
Greg baixou o olhar, fingindo pesar.
— “Nós não falamos de guerra. Não falamos de sangue.
— Falamos de proteção.”
A palavra caiu como pedra no centro da praça.
E com ela, sua aura se expandiu.
Uma energia densa. Invisível.
Mas todos ali a sentiram. Como se o ar se tornasse mais espesso, mais escuro.
Como se a dúvida deixasse de ser dúvida… e virasse certeza.
“Os semi-humanos trazem desequilíbrio.
Eles invocam forças que os próprios ancestrais tentaram esquecer.
Permiti-los… é abrir as portas da própria queda.”
Nos dias seguintes, os efeitos foram silenciosos… no início.
Um mercador semi-humano foi empurrado durante a feira.
Uma curandeira de olhos felinos foi impedida de cruzar o portão da muralha.
Três jovens caçadores de sangue misto foram espancados nos arredores de Karmil — e os guardas não fizeram nada.
Greg observava de longe.
Sem dar ordens.
Ele não precisava.
Sua influência era como mofo: invisível, lenta… e mortal.
Em reuniões internas, nobres discutiam entre taças e ameaças veladas.
— “Eles se infiltram nas guildas.”
— “Dormem com nossas filhas.”
— “Trazem artefatos antigos. Símbolos dos tempos impuros.”
Greg só ouvia.
E sorria, de vez em quando.
À noite, sozinho na torre onde fora hospedado, fitava o mapa do continente sob velas negras.
A linha de fronteira entre Karmil e as Terras Mistas pulsava lentamente sob um feitiço que só ele via.
Ele sussurrou:
— “Dividir antes de dominar… é só o primeiro passo.”
Uma centelha percorreu sua armadura.
A essência do Eco-Sangrento ainda vivia dentro dele.
Misturada ao próprio sangue.
Foi quando a voz chegou.
De novo.
Kaelthar.
“O rastreio está quase completo.
Quando a magia se fixar, quero que vá à vila de Dur’Malen.
Há algo lá… que preciso.
E só você pode pegar sem despertar o véu.”
Greg respondeu com frieza.
— “Entendido. Mas cuidado com seus planos.
— Eldoria ainda é inacessível. A pedra resiste.”
“Não por muito tempo.”
Silêncio.
“Ah… e cuidado com Grumak.
Meus caçadores já partiram. Mas se ele escapar…
Termine o que deveria ter feito.”
Greg fechou os olhos.
E murmurou:
— “Desta vez… ele não volta andando.”
Na manhã seguinte, novos panfletos circularam por Karmil:
“Protocolo de pureza urbana: revisão das permissões para entrada e permanência de semi-humanos nas zonas internas.”
A cidade ainda não era uma prisão.
Mas se transformava, a cada hora, num campo cercado por olhares.
Greg desceu os degraus de sua torre.
A cidade respirava com medo.
E ele — com fome.
O salão pulsava.
As paredes respiravam como pele antiga, e o chão, riscado com runas primordiais, vibrava sob os pés de Kaelthar como um tambor sussurrando guerra.
À frente dele, o Altar de Ossos.
Acima, o mapa encantado de Terralume girava lentamente, envolto em brumas púrpuras.
Eldoria brilhava no centro como uma ferida ainda não tocada.
E ao redor… os pontos começavam a se acender.
Seis.
— Está quase na hora… — sua voz roçou o silêncio como uma lâmina embotada.
Ele abriu o pergaminho circular, recuperado dos restos espirituais de Gornak, o antigo sábio orc que morrera jurando proteger os segredos da Primeira Aliança.
No centro do pergaminho: um selo espiralado.
Ao redor: seis marcas — cada uma pedindo um artefato. Uma âncora. Um símbolo.
“Seis forças para quebrar o caminho.
Um ponto para transferir o mundo.
E o sopro da vontade para selar o que nunca deveria ser visto.”
Essa era a chave.
Não para destruir a Pedra da Harmonia — mas para bani-la.
Empurrá-la do plano físico para o Véu Cinzento.
Um lugar onde nem luz, nem sombra possuem forma.
E onde a magia da Pedra… não alcançaria Eldoria.
Kaelthar respirou fundo. Tocou o mapa flutuante com a mão manchada de sangue ancestral e murmurou:
— “Vocês abriram a fenda com as gemas…
…então eu também posso.”
Do relicário inferior, retirou o artefato central de seu plano:
o Olho de Varhel.
Uma esfera de obsidiana viva, com nervuras internas douradas, que se moviam como serpentes presas num rio de luz.
Um instrumento proibido, capaz de rastrear os fluxos de energia que pertencem ao Véu, ou que carregam “memória espiritual selada”.
Kaelthar verteu seu próprio sangue sobre a superfície da esfera.
Ela pulsou.
O mapa de Terralume se formou no ar com precisão absoluta.
E então… os pontos começaram a brilhar.
Um por um.
—
O Primeiro Item — O Martelo de Nurok
No norte das terras humanas, próximo às montanhas de cinza, um brilho denso pulsava em vermelho queimado.
— “A Tribo de Nurok…” — Kaelthar murmurou.
Orcs resistentes. Herdeiros diretos de Gornak.
O martelo de guerra que repousa em seu templo não foi forjado — foi descoberto, dentro de uma cratera onde o tempo ainda sangra.
“Gema da Forja.
Pulsa com a memória da criação bruta.”
Kaelthar sabia que aquele local era sagrado.
E guardado por linhagens que ainda lembravam o nome dele.
Mas também sabia os caminhos esquecidos.
“Eu abrirei a fenda perto da fronteira sul.
Mandarei Greg buscar quando for o momento.”
O Segundo Item — A Esfera Solar de D’Shakar
No deserto escaldante do continente semi-humano, uma nova luz emergia.
Amarela. Pulsante. Quase viva.
— “A Esfera Solar…” — ele sussurrou, encantado.
Guardada no Trono Reptiliano de D’Shakar, um reino antigo cujos reis vivem séculos e ainda cultuam o sol como entidade espiritual.
A esfera gira perpetuamente, regulando os fluxos térmicos das cerimônias da Alvorada.
“Gema da Luz.
Representa o pulso do fogo equilibrado.”
Kaelthar rangeu os dentes.
— “Eles não me darão esse artefato.
Mas toda luz tem sua noite.”
O Terceiro Item — O Segredo de Rastro-Sangue
O terceiro brilho foi o mais estranho.
Ele não surgiu no mapa.
Surgiu fora dele.
Entre árvores que não existiam nos registros.
Numa vila esquecida pelos reinos, oculta por véus espirituais.
Rastro-Sangue.
Kaelthar estreitou os olhos.
A imagem se fixou:
Cabana circular.
Raízes envolvendo os telhados.
No centro… uma figura sentada diante de uma chama baixa.
Lysara.
Ele estremeceu.
— “Você… ainda vive?”
A imagem dela estava enfraquecida. O rosto mais pálido. O corpo mais curvado.
Mas era ela.
Aquela que outrora recusou se curvar.
A que lutou contra a fenda original.
A que selou o primeiro traço de ruína.
“A Gema da Raiz… está com ela.”
Kaelthar recuou um passo. A esfera tremeu.
— “Mesmo fraca… você ainda protege.”
Ele não podia atacá-la diretamente. Ainda não.
Mas sabia o que fazer.
“Rastro-Sangue será tocada por sombras primeiro.”
O mapa permaneceu girando.
Três pontos já revelados.
Faltavam três.
Mas Kaelthar não precisava mais esperar.
O Círculo da Ruína já estava em movimento.
Ele caminhou até o centro do salão.
As runas no chão começaram a brilhar.
Seis marcas.
Ele tocou cada uma com o sangue da memória.
Falou em línguas esquecidas.
E a terra respondeu.
“Com esses seis pontos, cercarei Eldoria.
Com esses seis selos, arrancarei a Pedra da Harmonia do mundo.”
A fenda se abriria no mesmo lugar onde estaria a pedra da harmonia, onde o solo foi selado com sangue durante a Última Guerra.
Seria um corredor. Controlado. Preciso.
Pelo qual um exército não de bestas, mas de soldados do continente demoniaco, atravessaria.
No limbo. No escuro. No silêncio.
E Greg…
Greg seria o arauto.
“Com sua aura, com seu nome, com seu escudo… ele trará a primeira brecha.”
Kaelthar se virou para a esfera e sussurrou:
— “Rastro-Sangue…D’Shakar…Nurok…
Vocês são o início.”
Ele estalou os dedos.
Sombras surgiram nas extremidades do salão.
Os condutores foram convocados.
O sangue seria colhido.
Os portadores seriam acionados.
O ritual estava escrito.
Eldoria não veria o próximo festival.
A Pedra da Harmonia…seria exilada.

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