A torre negra estava em completo silêncio.
Não o silêncio natural da noite ou da ausência de som — mas aquele silêncio que precede o colapso.
Como o ar de uma câmara selada antes de explodir.
Kaelthar permaneceu imóvel na sala circular do subsolo.
O chão à sua volta estava riscado com selos que não pertenciam mais a esse mundo.
Runas que pulsavam em dois ritmos: o do presente... e o da ruína que ainda vive.
Apenas uma chama púrpura oscilava no centro.
E então, sem aviso, as vozes vieram.
Não surgiram de bocas.
Não ecoaram nas paredes.
Elas entraram direto na mente de Kaelthar, como se seu cérebro fosse uma mesa em que os generais depositavam suas palavras como punhais.
“Você ousa nos convocar com promessas… e ainda caminha como o mais fraco entre nós?”
“Um arauto mortal? Uma torre selada? Isso é o seu progresso, Kaelthar?”
“Enquanto eu, Morgath, dissolvo exércitos com um gesto… você ainda coleta migalhas entre os vivos.”
“Dez milênios presos entre véus… e agora servimos a um aprendiz de espírito? Isso é um insulto. Um desrespeito ao nome de Zaroth.”
Kaelthar manteve o olhar fixo. As vozes continuavam:
“Thal’Zar já queimaria três reinos enquanto você desenha círculos.”
“Vorath incineraria Eldoria em três respirares.”
“E Grimnar esmagaria a Pedra da Harmonia com um único passo.”
Mas então ele ergueu a cabeça.
— Eu não sou Zaroth. — Sua voz saiu baixa, mas firme.
— E não me importo em ser o menor…
desde que eu seja o que o traga de volta.
Silêncio.
Mas agora, um silêncio interessado.
Kaelthar girou a mão sobre a chama púrpura.
A brasa se expandiu, revelando o círculo ritual da dispersão.
Seis pontos já estavam marcados.
— “Com os catalisadores… e com o sangue certo…
eu abrirei a fenda.
Não apenas entre planos…
mas entre eras.
Zaroth vai caminhar novamente.”
As vozes recuaram. Mas não silenciaram.
“Você descobriu o caminho?”
“Ou só descobriu mais uma desculpa?”
Kaelthar mostrou o pergaminho circular.
No centro, girava o selo da Magia da Travessia do Véu, herdada dos próprios ancestrais que ousaram selar Zaroth no passado.
— “O ritual não é de invocação.
É de transposição.”
— “Ele não virá como espírito.
Ele será transportado, corpo e alma.
A armadura viva. O Escudo do Dragão Negro. A Voragine Sombria…”
“Você quer... abrir o limbo?”
— “Não abrir. Rasgar.
E deixar o próprio véu fechar atrás dele.”
As vozes pareceram hesitar.
Algumas riram. Uma… rosnou.
“Então que seja. Mas você tem pouco tempo.”
“Você carrega nosso selo…, mas não nossa paciência.”
“Quando a Pedra cair, exigiremos nossa passagem também.”
“E se não formos chamados… nós viremos assim mesmo.”
Kaelthar assentiu, tocando a runa da invocação.
— “Então comecem a se alinhar.
Preparem seus exércitos.
Logo… Terralume vai deixar de ser um mundo.
E se tornará… um campo de renascimento.”
A conexão se rompeu.
As runas apagaram como velas ao vento.
Kaelthar recuou um passo.
O suor deslizava pela testa, mas ele sorria.
“Eles já sentem o caminho.
O selo… está se abrindo.”
Ele caminhou até a janela da torre, onde o céu estrelado ainda brilhava.
Ao longe, os sinos de Raclaw tocavam em sua mente.
“Greg… chegou a hora.
Pegue o item.
Não apenas pelo ritual…
Mas porque ele vai atrair o outro.
O tolo com a Marca.
Aquele que ainda acha que existe uma escolha.”
O campo de treinamento não era mais o mesmo.
As marcas de batalha haviam sido apagadas pela relva nova, mas o vento ainda assobiava como se memórias estivessem presas no ar. Árvores tortas, círculos de pedra e pequenas estacas de madeira marcavam o terreno como um altar improvisado — mas era no centro, onde Alvim desenhava, que o verdadeiro ritual começava.
— Sentem-se. — disse o velho, com a voz baixa, mas firme.
Com a garra suja de fuligem, ele traçou um círculo largo no chão, feito de símbolos rústicos: três anéis conectados por um eixo vertical, com traços que lembravam veias de raízes ou costelas quebradas. O Círculo de Condensação do Daishi.
Shiro e Helster se posicionaram em lados opostos. Cada um com a palma voltada para o centro. Nenhuma arma. Nenhuma fala.
A energia do Daishi não era feita para atacar. Não ali.
— Hoje vocês não vão mover ela. — disse Alvim, encostado em uma pedra atrás deles. — Vão sentir ela se mover por vocês.
Shiro fechou os olhos. A chama branca no peito respondia com familiaridade, mas havia algo novo ali… um leve zumbido atrás dos olhos. Como se sua essência estivesse tentando se derramar além do corpo, ocupar mais espaço do que devia.
Helster, por sua vez, sentia o corpo estremecer. Na batalha contra Ez’Thirra, algo havia se partido — mas em vez de ruína, fora força. Uma energia densa, crua, que agora latejava nas costas como um músculo tensionado.
O círculo acendeu levemente.
Alvim cruzou os braços.
— Concentrem. Mas não travem. O Daishi quer correr. Vocês têm que ser rio… não barragem.
A luz flutuava entre os dois jovens, pulsando. Primeiro fraca. Depois mais densa. Cada respiração arrastava um fio da essência, e cada fio parecia um fragmento de verdade sendo puxado da alma.
— Vocês ainda acham que o poder nasce do grito — murmurou Alvim. — Mas o verdadeiro controle… nasce do transbordo.
Shiro gemeu levemente. O peito ardia, e seus braços estavam tremendo. O fluxo era intenso, como se sua chama interior estivesse tentando se erguer em forma viva — algo que ele já havia sentido uma vez, na forma bestial, quando perdeu o controle.
Mas agora, não era raiva. Era chamado.
Do outro lado, Helster já suava. A energia se acumulava nos ombros, nos antebraços — não como força de impacto, mas como massa espiritual.
A mesma força que o permitiu parar Ez’Thirra estava ali. Mas agora, pulsava de modo mais pesado, quase estrutural.
— Ela quer romper. — Rosnou Helster. — Quer sair pelos ossos.
— Deixe-a querer. — respondeu Alvim. — Mas ensine que quem manda ainda é você.
O círculo brilhou com mais intensidade. E então, a energia entre os dois tremeu.
Por um instante, não havia campo. Nem vento. Nem tempo.
Apenas a chama e o escudo.
O instinto e o limite.
A alma e a forma.
E no centro… o Daishi pulsando como um coração lendário.
Shiro viu flashes.
A forma bestial. Garras brancas como fogo. Olhos de fera.
Mas agora, a imagem não rugia. Apenas observava.
— Eu sou você. — disse a fera, em sua mente.
E ele respondeu:
— E eu não vou mais fugir.
Helster, por sua vez, sentia os ossos do braço vibrarem como aço sagrado. Sua postura se firmou, e o escudo imaginário que ele erguera em tantas lutas agora parecia parte do próprio corpo.
— Você não precisa me carregar. — disse ele à energia.
— Eu sou teu peso. — respondeu a força.
E ele sorriu.
O círculo brilhou mais uma vez. Depois… se apagou.
Os dois caíram de joelhos. Ofegantes. Mas vivos.
Alvim se aproximou devagar.
— Vocês conseguiram.
Shiro olhou para a palma da mão.
Ela ainda tremia, mas agora… brilhava levemente.
Helster olhou para o antebraço.
Veios de energia corriam como marcas de raio sob a pele.
— A forma não vai te dominar mais. — disse Alvim a Shiro. — Mas agora ela exige resposta.
— E a tua força… — completou, olhando para Helster — ...vai quebrar o chão se você não aprender a contê-la.
Ambos assentiram.
E no silêncio que se seguiu, uma única folha caiu no centro do círculo, apagado e calmo — como se até o vento soubesse que algo havia mudado.
A mata fechava ao redor como uma garganta antiga.
Galhos retorcidos se entrelaçavam sobre a trilha, deixando entrar apenas feixes esparsos de luz azulada. Raízes elevadas formavam degraus naturais, cobertos por musgo úmido e silêncio.
Grumak ia à frente, as luvas de combate envoltas em um brilho suave — pulsando em tons terrosos, como se o solo respirasse por seus dedos. Cada passo dele afundava levemente, mas a vibração sob a sola dizia mais do que qualquer pegada.
Malias seguia logo atrás, os olhos dourados atentos, uma pedra de energia negra com veios pulsantes girando entre os dedos. Bastava um toque e o arco etéreo surgiria em sua mão — mas ela ainda não o chamara.
Tibrok vinha por último. As duas adagas repousavam nas laterais da cintura, mas o corpo já estava em tensão. Orelhas levantadas, nariz farejando o vento. O coelho estava em alerta desde o vale anterior.
— A trilha deveria terminar logo depois do rochedo. — Sussurrou Tibrok. — Depois disso… só a entrada.
— Já consigo sentir — respondeu Grumak, sem olhar para trás. — O ar ficou mais denso. Mais antigo.
Malias parou, o corpo rígido.
— Tem algo errado.
Grumak virou-se, encarando-a.
— Algo no cheiro?
— Não no cheiro. — Ela murmurou, os olhos percorrendo o topo das árvores. — No rastro.
Tibrok se aproximou, cauteloso.
— Que tipo de rastro?
— O tipo que… não deixa pegadas.
Ela tocou a pedra de energia com dois dedos. O ar ao redor dela crepitou. O arco ainda não se formou, mas a vibração do cristal sussurrava que estavam cercados.
— Estão nos seguindo há pelo menos meia hora — continuou. — Mas estão bons. Nunca os vejo… só noto quando param.
Grumak franziu o cenho. As luvas vibraram levemente, e ele fechou os punhos.
— Quantos?
— Não sei. — disse Malias, sombria. — Dois, talvez três. Talvez mais.
Mas não são bestas.
Estão usando o vento. A névoa.
Tibrok rosnou.
— Capangas do Kaelthar?
— Ou piores. — respondeu ela. — Gente do véu. Daqueles que já não carregam mais cheiro próprio.
O silêncio que veio depois pesava como poeira sobre os ombros.
O grupo seguiu, mais devagar.
A trilha os levou até um declive coberto por pedras negras. E então… ela apareceu.
A entrada da caverna.
Não havia porta. Nem sinalizações.
Apenas uma rachadura vertical numa parede de rocha azul, viva, vibrando levemente com energia ancestral. Gravuras circulares cercavam a fenda — símbolos do tempo anterior à Aliança, línguas extintas que até os magos de Eldoria temiam decifrar.
Tibrok parou.
— Essa é a boca.
— Do quê? — perguntou Grumak.
O coelho não respondeu. Apenas apontou para o céu — onde nenhum pássaro voava.
— Esse lugar não é marcado nos mapas — disse ele. — Mas os velhos falavam.
De uma garganta viva. De uma trilha que não ecoa.
De um lugar onde até os ecos preferem o silêncio.
Malias deu um passo à frente. O cristal em sua mão sussurrou com mais intensidade. Ela estava prestes a invocar o arco.
Grumak levantou uma das luvas, e a terra sob seus pés tremeu levemente.
— Não. Ainda não.
Se eles quisessem nos atacar, já teriam feito.
Estão esperando a gente entrar.
Tibrok farejou o ar.
— Ou esperando que alguém… ou algo… acorde lá dentro.
Malias respirou fundo.
— Eu odeio emboscadas. Odeio cavernas. E odeio quando o inimigo tem paciência.
Grumak sorriu de canto, o primeiro desde que saíram da vila dos Coelhos Guerreiros.
— Então vai odiar o que vem a seguir.
Eles pararam diante da fenda.
O vento ali não soprava — era sugado.
Como se o próprio mundo respirasse para dentro da pedra.
Lá dentro, uma luz azul muito tênue piscava no fundo.
Como um olho.
Ou um convite.
— É agora? — perguntou Tibrok.
Grumak assentiu.
— Se for armadilha… lidamos com ela lá dentro.
Malias tocou o cristal. O arco surgiu em sua mão, etéreo, tenso.
— Que venha o inferno, então.
Tibrok sacou as duas adagas.
Grumak inspirou.
As luvas brilharam com luz terrosa — e uma leve fumaça azul escapou entre os dedos.
— A marca sente esse lugar.
— Eu também. — Murmurou Malias.
Eles deram o primeiro passo.
E as sombras da fenda os engoliram.
Nas copas das árvores acima, olhos surgiram entre as folhas.
Pupilas verticais.
Rostos cobertos por véus de energia e trapos.
Um deles ergueu um cristal negro.
Sussurrou em uma língua esquecida:
— "O escolhido entrou.
O sangue antigo está no centro.
O véu pode começar a se dobrar."
A resposta veio… de lugar nenhum.
Apenas um calor no cristal.
E o som de garras… se preparando.
A noite em Terralume nunca foi só ausência de luz.
Era uma presença.
Algo que se deitava sobre as montanhas, sobre os lagos, sobre a pele e os ossos dos que ousavam permanecer de olhos abertos quando o céu fechava.
Na torre esquecida pelo tempo, Kaelthar observava os mapas queimarem devagar. Não com fogo — mas com destino.
Seis pontos.
Seis chaves.
Um véu pronto para ser rasgado, não pelas mãos… mas pela vontade.
Os generais do outro lado sussurravam cada vez mais perto.
E o selo — antes adormecido — começava a pulsar como um dente infeccionado sob o tecido da realidade.
Kaelthar não precisava correr.
Porque o tempo já estava caminhando por ele.
Em outro ponto do continente, num campo que já viu treino, batalha e luto, Shiro encarava as próprias mãos — e elas finalmente pararam de tremer.
Não porque o medo cessara. Mas porque ele aprendera a escutar o rugido dentro do peito, e a não se deixar engolir por ele.
Sua forma bestial não era mais um fardo.
Era um acordo.
Ao seu lado, Helster fixava os olhos no céu, sentindo a própria força pulsar como um trovão contido sob a pele.
Ambos haviam cruzado uma linha invisível.
A infância do poder acabara.
E agora… vinham as escolhas que moldam o que se é.
Alvim, observando de longe, sabia disso.
Lysara também sabia.
E o corvo, sobrevoando o campo com as penas cintilando em azul, também.
Porque a próxima lição não viria com gritos.
Viria com perda.
Mais ao sul, nas entranhas da floresta silenciosa, Grumak, Malias e Tibrok cruzavam a garganta da caverna ancestral.
Lá dentro, os ecos não retornavam.
As palavras sumiam.
Até a coragem precisava sussurrar para não ser ouvida demais.
A energia antiga que tremia sob seus pés não era hostil.
Era expectante.
Como se aquilo ali esperasse… por eles.
Malias sentia o cristal em seu colar acelerar o ritmo.
Tibrok farejava o medo…, mas era o medo do mundo.
Grumak, com as luvas bruxuleando em cores terrosas, sentia a marca entre os ombros pulsar com a pedra.
Algo ali reconhecia ele.
Ou esperava por algo pior.
Acima, escondidos entre os galhos das árvores mais velhas, olhos impuros observavam.
E esperavam o momento de fechar a trilha por onde eles entraram.
Em outro ponto, Greg caminhava pelos corredores frios de Karmil, carregando em silêncio uma missão que ainda não revelara nem a si mesmo.
Seu sorriso era contido.
Sua fome… crescente.
Kaelthar havia pedido um item.
Mas Greg queria mais do que um objeto.
Ele queria confronto.
E em algum ponto entre os véus — onde a luz não alcança e a escuridão não reina — algo abriu os olhos.
Não de carne.
Nem de espírito.
Mas de lembrança.
Porque a Pedra da Harmonia resistia.
Mas já ouvia passos do outro lado.
E ela sabia:
Se o portador da Marca,
O dominador do Daishi,
E o arauto da ruína
Cruzassem os caminhos…
…o mundo precisaria escolher o que queria proteger.
Ou o que estava disposto a esquecer. Continua…

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