A luz do sol atravessava as cortinas finas do meu quarto, desenhando faixas douradas no teto. Por um segundo, achei que pudesse ignorar o calor suave da manhã e continuar dormindo. Mas não. Ela já estava ali.
— Já tá vestida princesa? Que horas são?
— São 6:30, papai. Eu estou pronta!
A voz da Emi cortou minha preguiça com aquela energia inocente que só crianças sabem carregar. Abri os olhos devagar, e lá estava ela, parada ao lado da cama, usando o uniforme escolar como se fosse uma armadura de aventuras. Pequena, vibrante, cheia de vida. Tudo que o mundo ainda tinha de bom... concentrado nela.
— Tem certeza? Eu devo ser um pai péssimo. Jurava que hoje era fim de semana.
— Não sei o que você tá falando papai.
Ela me lançou aquele sorrisinho de canto, o que dizia “te enganei” melhor do que qualquer palavra. E por um instante, só por um... o peso sumiu. Nenhuma cicatriz, nenhum arrependimento. Só nós dois.
— Tá, você me pegou, pai.
— Não tem vergonha de fazer isso com seu velho pai? Eu já não tenho idade pra isso, sabia?
— Pai, você prometeu! Lembra? Hoje é o dia que você vai me levar pro parque.
— Hm... você tem certeza que foi comigo que combinou isso?
O sorriso dela se alargou. Não tinha como discutir com aquilo. Levantei da cama, tentando ignorar o ronco que meu estômago deu em protesto. O banheiro era frio, mas o banho ajudou a colocar minha mente em ordem. Me vesti com pressa, descendo as escadas enquanto Emi já tagarelava sobre coisas da escola — amigos, desenhos, sonhos.
O cheiro do café recém-passado se misturava ao da panqueca que ela tinha tentado esquentar sozinha. Não era perfeita, mas... era o gosto da minha felicidade.
O telefone vibrou na bancada. Tela acesa, nome da delegacia. Merda.
— Eu tenho que resolver umas coisas na delegacia, princesa.
— Jura? Mas a gente ia pro parque, papai!
Aquele olhar. Não de raiva, mas de decepção. Do tipo que faz seu peito doer de um jeito que arma nenhuma poderia causar.
— Vou fazer de tudo pra te levar amanhã, eu prometo.
— Jura?
— Juro. Eu já quebrei uma promessa?
— Jura de dedinho?
— Juro de dedinho.
O toque dos nossos dedinhos selando o “contrato” foi mais sagrado do que qualquer aliança de ouro. Dei um beijo na testa dela e saí.
Não sabia. Ninguém sabe. Que esse tipo de manhã pode ser a última.
O caso era banal: discussão conjugal que mais parecia teatro barato. Gritos, lágrimas e o mesmo desfecho de sempre. Mas levei horas ali, prendendo o fôlego enquanto minha mente vagava até Emi. Quando finalmente voltei pra casa, a cidade já estava engolida por um manto branco de neve.
E então vi.
A porta, entreaberta. Aquilo não fazia sentido.
O frio da rua já não era nada comparado ao que senti por dentro. Saquei minha arma, coração acelerado, passos lentos. As luzes estavam apagadas. O silêncio era tão grosso que parecia grudar na pele.
— Emi?
Nada.
— EMI?!
Entrei. Tudo... revirado. Como se um furacão tivesse passado. Meu peito parecia prestes a estourar. Continuei chamando, procurando, correndo de cômodo em cômodo até que — ali.
Um pedaço do vestido dela. Sujo. Com... sangue.
Não. Não. NÃO.
Minhas mãos tremiam. Quase deixei o celular cair quando tentei discar. Meus dedos tropeçavam nos números. Finalmente consegui.
Yuki foi a primeira a chegar. O rosto dela, normalmente leve, agora parecia feito de pedra.
— Vim assim que soube. Alguma pista?
Minha garganta estava seca. Minha mente, em ruínas. Eu... não conseguia aceitar.
Ela pousou a mão no meu ombro. Um gesto simples, mas que impediu meu colapso.
— A gente assume daqui.
— Traz ela de volta. Nem que tenham que virar essa cidade do avesso.
— Eu vou trazer ela de volta, eu juro.
E então... tudo apagou. Não literalmente. Mas dentro de mim, a luz... sumiu.
Três anos.
Três anos desde aquele dia.
Hoje, eu sou só uma sombra do homem que fui. Vivo num apartamento bagunçado, onde a companhia mais fiel é uma barata que anda pelo chão como se fosse dona do lugar. Eu não ligo. Nem pra ela, nem pra mim.
Peguei uma lata de cerveja da geladeira. Vazia. Joguei no chão. Macarrão instantâneo no prato, meio mofado mas dava pra comer.
E aí... uma batida na porta.
Ignorei. Mas ela insistiu.
Abri. Claro. Era ela a minha antiga parceira a Yuki.
— E aí, velho rabugento. Ainda vivo?
— Eu vou fechar a porta. Não tô com paciência pras suas piadas hoje.
— Mas tá com paciência pra sentar na cadeira e assistir TV o dia todo, se lamentando de como a vida é uma bosta?
— Fazer isso é bem melhor do que te ouvir, com certeza.
O sorriso dela era o de sempre, mas... nos olhos, algo diferente. Duro. Sério.
— Hoje a merda vai bater no ventilador, Haru.
— Por quê?
— A prefeita sumiu. Ninguém consegue encontrá-la.
E naquele instante, não sabia porem esse caso iria virar minha vida de ponta cabeça.
Mikami Haru já foi detetive. Hoje, é apenas um homem arruinado pela culpa de não ter salvado a filha desaparecida. Quando sua ex-parceira Yuki o força a voltar às investigações, ele se vê diante de um caso perturbador: a prefeita da cidade sumiu sem deixar vestígios. Relutante, Haru descobre que esse desaparecimento pode estar ligado ao de Emi — e que seguir essas pistas significa abrir feridas que nunca cicatrizaram. À medida que mergulha na escuridão, Haru percebe que a verdade pode ser mais cruel do que o luto. E que alguns segredos não querem ser descobertos.
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