Yuki falava da prefeita como se fosse alguém importante. Talvez fosse. Mas pra mim, só soava como mais um nome numa lista de pessoas que desapareceram sem fazer barulho. Olhei pra ela com o cansaço habitual e soltei:
— Isso não é problema meu?
— O quê?
Tentei fechar a porta, mas ela segurou. Mais irritante que barata de madrugada. Vi nos olhos dela aquele brilho teimoso e soube que não ia ter paz.
— Como assim não é problema seu?
— Eu não sou mais policial, Yuki. Então sai do meu pé, garota.
— Eu não sou uma garota. A gente só tem dez anos de diferença.
— Mas me chamar de velho você pode, né?
Ela abriu a porta com facilidade. Venci na lógica, perdi na força física. De novo. Faz anos que não levanto mais do que o próprio corpo — e mesmo assim, com esforço.
— Você vem comigo sim.
— Por que eu iria?
— Porque eu tenho uma arma.
— Acha que pode me ameaçar com uma arma? Olha bem pra minha cara e diz se eu tenho medo.
— Então você tá preso.
— Preso? Por quê?
— Tu tem uma cara de tarado, então deve ser suspeito de assédio.
Ela disse isso com um sorrisinho infantil. Sarcástica, como sempre. Coloquei a mão na testa, já cansado do teatro.
— Você não vai me deixar em paz enquanto eu não for com você, né?
— Exatamente isso, velhote.
— Tá bom, eu vou. Mas não precisa me algemar pra isso.
Quando saímos, Yuki perguntou se eu não ia fechar a porta. Olhei pro apê vazio atrás de mim. Um caixão de memórias e mofos.
— Não tenho nada de importante aí. Então vamos logo embora.
Ela fechou a porta. Descemos.
Preferia ter ficado com as baratas do apartamento. Ao menos elas não falavam.
Chegamos ao carro. Entrei calado. Ela ligou a ignição e enfiou uma música J-pop que parecia vinda diretamente do inferno. Desliguei na hora.
— Já é tortura ir pra esse caso. Não vai me torturar colocando essas músicas porcarias.
— Você devia relaxar um pouco. Ou virar um defunto logo, dá menos trabalho.
Ela levou a mão até o nariz.
— E também tomar um banho. O chuveiro mandou lembranças.
— Estamos indo pra delegacia?
— Pra casa da prefeita. O caso ainda não tá na mídia.
— Tem muito policial na casa dela?
— Estamos indo só nós dois, como nos velhos tempos. Como havia dito... o caso ainda não chegou na mídia. Quando tiver muito policial lá, com certeza a mídia vai fazer um alvoroço. Sabe como é, né?
Ignorei. Fiquei olhando a cidade escorrendo pela janela. Pessoas indo e vindo. Uns rindo, outros parecendo zumbis — a maioria apenas fingindo que a vida faz algum sentido.
Acendi um cigarro. Ela nem pensou duas vezes: arrancou da minha mão e jogou pela janela.
— Nada de cigarro no meu carro. Não quero respirar essa fumaça. Isso dá câncer.
— Eu não ligo pra isso.
Chegamos.
A casa da prefeita não era bem uma casa — era uma mansão. Cercada por muros altos, portão automático, jardim perfeitamente podado. A grama ali devia custar mais que meu aluguel.
Subimos os degraus da entrada. Um senhor de idade nos esperava. Impecável, de luvas e terno. Olhos fundos. Postura rígida. Parecia parte da mobília.
— Esse é o senhor Shiba Taizou. Ele é o mordomo da prefeita — disse Yuki.
Assenti com a cabeça. Fui direto ao ponto:
— Como ela sumiu?
O velho pensou um pouco. Seu olhar vacilou — medo, talvez. Ou vergonha.
— Na noite passada. Ela trajava um roupão... saiu do quarto por volta das duas da manhã. Estranhei, pois não era de seu costume. Foi em direção ao jardim. Pensei que desejasse ar fresco. Mas... não retornou.
— Isso realmente é estranho. Ela tinha sonambulismo?
— Trabalho aqui há 25 anos. Nunca vi ela com sonambulismo.
Noto que ele segurava uma correntezinha como fosse um terço com bastante força, acho que ele parecia preocupado.
Yuki perguntou se podíamos entrar. O mordomo assentiu.
A mansão por dentro era um museu. Tapetes grossos, quadros dourados, móveis que pareciam tirados de um filme de época. Tudo cheirava a perfume caro e solidão antiga.
Subimos uma escada larga de madeira. Nenhum rangido. Polida o suficiente pra escorregar e quebrar o pescoço. Chegamos ao quarto da prefeita. O luxo era sufocante.
Havia um notebook sobre a mesa. Tela preta. Tentei ligar. Pedia senha.
— O senhor sabe a senha desse computador?
— Perdão, senhor, mas não.
Yuki me chamou. Estava segurando uma fotografia pequena. Uma vila no meio do mato. Gente vestida como se ainda fosse século passado.
— Ela cresceu no interior. Essa é a vila onde morava. Era meio isolada do mundo — disse o mordomo.
— Ela deve ter ralado muito pra conseguir chegar onde chegou.
— Sim.
Continuei fuçando. Encontrei o celular dela. Também com senha. Ótimo.
— Acho bom levar o celular e o computador pra delegacia. Pode ter pistas — disse Yuki.
Assenti. Era o pouco que tínhamos.
Mas então... senti algo.
Como um calafrio que começa na nuca e escorre pelas costas. Me virei e olhei pela janela.
E vi.
Um homem. Em pé, parado, lá fora. Estava olhando diretamente pra mim.
Algo nele... não estava certo. Gosma preta escorria dos olhos e da boca. O rosto vazio, como se a alma tivesse ido embora e deixado só o corpo.
— Ele trabalha aqui? — perguntei, apontando.
— Não. Nunca vi, senhor — respondeu Shiba.
Desci as escadas num pulo. Yuki me seguiu. O homem ainda estava ali. Parado. Olhando pra janela. Nem reagia.
Ela sacou a arma. Me aproximei devagar. Ele não se mexia.
Até que fugiu.
Começamos a correr. Yuki o alcançou antes de mim. Se jogou em cima e o imobilizou com técnica de quem já fez isso mil vezes. Ele começou a gritar:
— Não! Não puxa assim! Tá machucando... dói, dói, dói!
Chorava. Como uma criança. Um adulto chorando daquele jeito é sempre errado. Além disso era nítido que Yuki não o segurava com força
— Você sabe algo sobre a prefeita? — perguntei.
Ele parou de se debater e lentamente me olhou. Um sorriso torto rasgou o rosto. Gosma preta escorrendo pela boca.
Mikami Haru já foi detetive. Hoje, é apenas um homem arruinado pela culpa de não ter salvado a filha desaparecida. Quando sua ex-parceira Yuki o força a voltar às investigações, ele se vê diante de um caso perturbador: a prefeita da cidade sumiu sem deixar vestígios. Relutante, Haru descobre que esse desaparecimento pode estar ligado ao de Emi — e que seguir essas pistas significa abrir feridas que nunca cicatrizaram. À medida que mergulha na escuridão, Haru percebe que a verdade pode ser mais cruel do que o luto. E que alguns segredos não querem ser descobertos.
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