Yuki algemou o homem misterioso e o colocou no carro. Não sou muito de me assustar, mas aquele cara... ele me dava calafrios. Não parecia humano. E aquela gosma preta... também me intriga. O que é aquilo? Mas não tenho tempo pra pensar nisso agora.
Yuki agradeceu ao mordomo e entramos no carro. Ainda estávamos meio abalados. O homem, no banco de trás, cantarolava e balançava a cabeça como se dançasse. Uma dança estranha, sem música. Yuki olhou para ele e começou a rezar. Eu disse:
— Você não é muito de ficar assustada.
— Cala a boca, velho. Eu ainda tenho que manter a pose de durona, tá?
Virei para o homem e perguntei:
— Olha, homem suspeito... qual seu nome?
O homem misterioso apenas me olhou e sorriu.
— Eu não gosto de você.
Ele se encolheu como uma criança assustada. E isso era bizarro. O cara tinha barba e agia como uma criança. Será que tem problemas mentais?
Yuki começou a dirigir. Eu olhei para o homem de novo e, dessa vez, falei com um tom infantil, tentando arrancar algo dele:
— O titio não vai te machucar, nem a titia. A gente só quer conversar.
Yuki me lançou um olhar estranho. Parecia que eu tinha enlouquecido.
Ela imediatamente voltou a atenção para frente. Olhei de novo para o homem misterioso e disse:
— Então... o titio quer saber o que você tava fazendo naquela mansão.
— Eu tava passeando, e procurando minha boneca — disse ele, rindo.
A risada dele era estranha, quase infantil, mas com algo... corrompido. Esse cara ia ser meu novo trauma, eu já sabia. Mas, ao mesmo tempo, algo nele me deixava intrigado.
Chegamos na delegacia. Todos que viam o rosto do homem misterioso ficavam em choque. Ninguém nunca tinha visto alguém com aquela gosma preta escorrendo pelo rosto. Não os culpo.
Ele foi levado para uma cela. Yuki caminhava comigo pelos corredores até uma salinha apertada, cheia de peças de computador. Ela chamou:
— Ei, Nakamura. Tenho um trabalhinho pra você.
— O quê? — respondeu ele.
— Pega esse telefone e esse notebook e analisa pra mim, por favor. Quero saber tudo que tem aí. Até os nudes.
— Menos, Yuki — reclamei. — Isso é uma tremenda falta de privacidade.
— Você que não tem senso de humor, vovô tarado.
— Não sou eu que tá querendo ver se a prefeita tem nude.
— Ih, agora eu quero saber mesmo. Vai que a prefeita mandava uns packs? — disse Nakamura.
Coloquei a mão na testa e murmurei:
— Eu vou ali fora preservar o que sobrou da minha sanidade.
Fui até a recepção. Era impossível não notar os olhares, os cochichos. Deviam estar pensando "coitado", "espero que ele supere"... esse tipo de merda que dizem quando veem alguém na fossa. Patético.
Notei, ao longo da recepção, vários cartazes de crianças desaparecidas. Uma curiosidade macabra: desde o desaparecimento da minha filha, outras começaram a sumir também. E não ficava restrito apenas a crianças — adultos também sumiam, mas não tanto quanto elas. Eu tentei encontrar conexão entre os casos, mas fracassei, como sempre.
Um policial se aproximou, me oferecendo um café.
— Você tá bem, Mikami?
— Tô na mesma merda de vida de sempre. E você? Te conheço?
— Sou um grande fã do seu trabalho. Você solucionou um caso muito pessoal pra mim. O assassinato da minha mãe. Você levou o homem à justiça. Sou muito grato por isso.
Fiquei sem palavras. Sou péssimo com elogios, ainda mais sendo quem sou. Mas balancei a cabeça. Pra ele, eu era o Superman. Eu? Só um pedaço de bosta.
Ele me estendeu um cartão.
— Quando perdi minha mãe, me afundei. Ela era toda a minha família. Quero te dar esse cartão. Talvez não signifique muito, mas se der uma chance...
— Eu não vou — interrompi. — Não vou pra essas reuniões pra ver um bando de gente se lamentar e tentar esquecer. Eu não consigo esquecer.
— Não é pra esquecer. É pra aprender a conviver.
Ele saiu. Aquele bostinha, se achando o bom samaritano. Quem ele pensa que é?
Yuki chegou.
— Nosso homem misterioso está na sala de interrogatório.
Me levantei e a acompanhei. Quando chegamos, ele estava encolhido no canto da sala, no chão.
— Senhor, sente na cadeira, por favor — pediu Yuki.
Fiz um sinal para ela se calar. Me aproximei, sentei ao lado dele e falei num tom mais infantil:
— O titio ainda não sabe seu nome. Quer contar pra mim?
Ele olhou pra mim em silêncio. Depois respondeu:
— Hina.
Estranhei. Nome de menina. Mas o cara não parecia exatamente... são. Continuei:
— Oi, Hina. Tudo bem com você?
— Tudo bem. Eu tô com medo.
— Não precisa ter medo. Não vamos te fazer mal. Só queremos tirar umas dúvidas. Por exemplo, por que você sabia que a prefeita havia sumido?
— Prefeita era má. Pessoas más têm que sumir.
— Por que acha isso?
— Porque eles me machucam... eu não quero que me machuquem de novo. Não quero ficar aqui. Quero ir embora!!
As luzes da sala começaram a falhar. Yuki começou a rezar. Olhei pra ela.
— Quer parar com essa merda?
— Respeita minha fé e meu medo.
O homem murmurou:
— Eu te conheço…
Olhei estranho pra ele.
— Me conhece?
Ele balançou a cabeça, afirmando.
— Você é o pai da Emi.
Quando ele disse isso, meu coração parou por um segundo. Ele... ele sabe onde ela está?
Mikami Haru já foi detetive. Hoje, é apenas um homem arruinado pela culpa de não ter salvado a filha desaparecida. Quando sua ex-parceira Yuki o força a voltar às investigações, ele se vê diante de um caso perturbador: a prefeita da cidade sumiu sem deixar vestígios. Relutante, Haru descobre que esse desaparecimento pode estar ligado ao de Emi — e que seguir essas pistas significa abrir feridas que nunca cicatrizaram. À medida que mergulha na escuridão, Haru percebe que a verdade pode ser mais cruel do que o luto. E que alguns segredos não querem ser descobertos.
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