Meu coração disparou. As mãos tremiam. Tentei manter o foco, mas tudo dentro de mim gritava. Como assim ele conhecia minha filha?
Levantei num salto. O sangue fervia nas veias. Confuso, tomado pela raiva, agarrei aquele desgraçado pela gola, o levantei com força e o empurrei contra a parede.
— Onde ela está? Onde você a viu? Me diga agora!
O homem chorava. Chorava como uma criança assustada.
Sem pensar, acertei um soco. A cabeça dele tombou para o lado, mas ele continuava chorando, repetindo a mesma frase.
— Minha família.
A gosma negra escorria, mais densa, pelos olhos e pela boca dele, pingando no chão como óleo. Continuei a socá-lo, descontrolado, repetindo a pergunta que não saía da minha cabeça. Onde estava a Emi? Onde? Mas o desgraçado só chorava e me olhava com horror.
Yuki segurou meu braço. O olhar sério e duro dizia tudo: "Que merda você tá fazendo?"
Soltei o homem, que caiu no chão como um saco vazio.
Ele continuava chorando. Baixo. Trêmulo.
— Eu pensei que você fosse bom... Mas você é mal... como todos eles...
Se levantou, cambaleando. Yuki imediatamente levou a mão à arma e ordenou que ele se sentasse, mas ele ignorou, repetindo sem parar:
— Você é mal.
A frase ecoava como um mantra torto, distorcido. As luzes do teto começaram a piscar. Meu peito apertou, o coração acelerou ainda mais.
— Você é mal. Você é mal.
Então, lentamente, ele andou, ficando de frente para a parede. Arregalou o sorriso e então veio o som seco, o impacto dele contra a parede...
Yuki tentou contê-lo, desesperada. Ele era forte. Incrivelmente forte. Ela o segurava com tudo que tinha, tentando impedi-lo de continuar, mas parecia não surtir efeito.
A risada foi enfraquecendo, os movimentos perdendo força... até que tudo cessou.
O corpo dele caiu, inerte.
A gosma negra continuava a escorrer dos olhos e da boca, como se a própria vida tivesse se esvaído por ela.
Eu e Yuki nos entreolhamos, em silêncio.
Saí da sala.
O nervosismo me dominava. Meu corpo inteiro tremia. Nada fazia sentido na minha cabeça. Peguei um isqueiro e acendi um cigarro com as mãos suadas. A imagem da minha filha me atingiu com força. Uma única pergunta vinha na minha cabeça: será que ela está viva?
Mal conseguia respirar. Senti como se algo me sufocasse, como se uma mão invisível apertasse minha garganta.
Fui até o lado de fora da delegacia, tentando recuperar o ar.
Yuki veio atrás de mim. Estava visivelmente preocupada. Se colocou na minha frente e, com calma, ergueu meu rosto.
— Respira... Acalme-se, Haru — disse ela, serena.
Obedeci.
Puxei o ar com força. Devagar. E, aos poucos, meu corpo começou a desacelerar.
Sentei no chão, ainda ofegante. Olhei para ela, assustado. Apavorado.
— Como ele sabia dela? Como?
Levei as mãos à cabeça, tentando organizar os pensamentos. Mas tudo era um borrão.
Yuki se sentou ao meu lado e me abraçou. Alisou meus cabelos como se eu fosse uma criança perdida.
— Você precisa se acalmar, velhote. Senão, você não vai conseguir resolver esse caso — disse ela, com aquele tom meio maternal que eu odiava admitir que me acalmava.
— Eu tenho que conseguir. Agora, mais do que nunca, eu tenho que resolver isso. Eu preciso resolver esse caso.
Me levantei, determinado. Precisava entender tudo aquilo. Cada detalhe.
Um policial chamou por Yuki para resolver os trâmites da morte do nosso "homem misterioso".
Yuki olhou para mim e disse:
— Hoje foi um dia muito puxado, e você parece muito abalado. Hoje acho melhor você ir para casa. Amanhã a gente se fala. Tá certo?
Apenas concordei, balançando a cabeça.
Pedi um táxi e cheguei ao meu palácio da perdição. Peguei uma lata de cerveja e fiquei bebendo. Uma. Duas. Três. Até perder a conta. Até eu simplesmente apagar.
Quando abri os olhos, estava deitado na cama da minha antiga casa. O silêncio era espesso, quase sagrado. Senti uma carícia leve no rosto, suave como uma lembrança. Virei lentamente... e lá estava ela.
Linda.
Os cabelos longos e negros, a pele suave como se o tempo nunca tivesse tocado, e aquele perfume de rosas — o mesmo que ainda vivia nos cantos esquecidos da minha memória.
Minha esposa.
Beijei seus lábios, devagar, com saudade. Saudade de verdade. Daquela que rasga o peito em silêncio. Um beijo que não era só amor — era luto, era desespero, era a vontade absurda de voltar no tempo.
Um encontro que jamais pensei que teria depois que a perdi... mas, por um instante, tive.
Olhei para ela, que apenas me olhava de volta, dizendo:
— Ela está viva. E você vai encontrar. Porque eu sei que você não vai desistir.
Acordei de verdade desta vez com o som do celular tocando no chão. Coloquei a mão no rosto, estava com muita dor de cabeça por causa da cerveja.
Atendi o telefone. Era a Yuki, desesperada:
— Liga a TV — exclamou Yuki.
Ao ligar a TV, vi algo que ia me dar uma dor de cabeça muito maior do que a que eu estava sentindo. Todos os noticiários estavam cobrindo o desaparecimento da prefeita de Aokusa.
Mikami Haru já foi detetive. Hoje, é apenas um homem arruinado pela culpa de não ter salvado a filha desaparecida. Quando sua ex-parceira Yuki o força a voltar às investigações, ele se vê diante de um caso perturbador: a prefeita da cidade sumiu sem deixar vestígios. Relutante, Haru descobre que esse desaparecimento pode estar ligado ao de Emi — e que seguir essas pistas significa abrir feridas que nunca cicatrizaram. À medida que mergulha na escuridão, Haru percebe que a verdade pode ser mais cruel do que o luto. E que alguns segredos não querem ser descobertos.
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