Rapidamente, ao ver aquele maldito noticiário, me troco e me visto o mais rápido possível. Ainda saio de casa trancando a porta, descendo as escadas sem pensar, quase tropeçando nos próprios pés. A rua é fria, vazia, só uma ou duas almas perdidas vagando por aí — nada que não fosse normal pra três e meia da manhã. Minha cabeça dói. Não sei se é pela cerveja de ontem ou pela vida inteira.
Fico ali, no meio-fio, esperando um táxi. Mas é quando sinto.
Aquela sensação maldita.
Como se algo me observasse, escondido na escuridão.
Olho ao redor — postes piscando, uma lixeira tombada, um bêbado se arrastando longe. Nada de novo. Nada que explicasse a sensação gelada na espinha. Talvez só fosse o cansaço. Ou... talvez eu já estivesse louco de vez.
O táxi chega. Entro e digo o destino com a voz seca:
— Delegacia.
Durante o caminho, o mundo lá fora parece um quadro borrado — luzes sujas, rostos apagados, o silêncio gritando no ouvido.
Quando chegamos, a delegacia já estava sitiada. A mídia inteira parecia ter brotado do chão, como baratas em festa. Câmeras, microfones, gente gritando por qualquer migalha de notícia.
Ligo pra Yuki. Ela atende rápido:
— Yuki, aqui fora tá um inferno. Como eu entro?
— Vai lá pro fundo da delegacia. Te encontro lá.
Desligo. Dou a volta pelo quarteirão. O cheiro de lixo fermentado me acerta como um soco. Ratos — pelo menos três — se revezavam num banquete miserável. Um deles me encara por um segundo, como se dissesse “bem-vindo ao fundo do poço”.
Enquanto atravesso aquele beco fedorento, a sensação volta.
Aquela presença invisível, grudada nas costas.
Escuto um som atrás de mim. Um estalo, um arranhar... ou talvez só o vento sacaneando minha mente.
Me viro, alerta. Nada além do lixo e dos ratos, fuçando como sempre. Talvez tenha sido só minha cabeça mesmo. Talvez ontem tenha sido só um pesadelo muito real.
Yuki abre a porta dos fundos de repente, me fazendo quase sacar a arma no susto.
— Entra logo — diz ela, com aquela pressa nervosa que me deixa ainda mais desconfortável.
Entro. A delegacia respira tensão. Yuki anda rápido, sem sorrir.
— Que merda... Por que essa notícia tinha que vazar justo agora? Por que eles não vão atrás de fofoca de famoso traindo a esposa, sei lá? — resmunga ela.
— O mais importante... por que vazou? — pergunto, acendendo um cigarro, pouco me importando com quem desaprovasse.
— Foi o mordomo. — Ela suspira, irritada. — Um repórter investigativo começou a estranhar o sumiço da prefeita. Pressionaram o velho e boom... ele abriu a boca.
— Mordomo fofoqueiro... e agora?
— Agora o delegado tá puto da vida. Quer sangue. Vai ter que resolver o caso logo. Se não encontrar o culpado, pega um aleatório na rua e faz ele pagar o pato.
— Coitado do aleatório. — Trago a fumaça devagar, sentindo a garganta arranhar.
Yuki me lança aquele olhar de quem quer fazer um sermão antitabagismo. Só reviro os olhos. Falsa moralidade me cansa mais que qualquer cigarro.
Ela cruza os braços:
— E agora? Próximos passos?
Penso por um momento, deixando a fumaça sair pelo nariz.
— Temos muitas dúvidas e nenhuma resposta. — Meu olhar fica sério. — Por exemplo, o que era aquela gosma que saía do nosso homem misterioso?
— Estão analisando o material. Em breve devem ligar com os laudos. — responde ela, meio sem paciência.
— Mas... quem era ele? Essa é a segunda dúvida. Minha teoria? Ele tem ligação com a prefeita. Ele a chamou de “má”, lembra?
Yuki puxa uma ficha do bolso e me entrega. Papel barato, cheiro de tinta fresca. Meus olhos correm pelas informações:
Ficha de Registro – Polícia da Prefeitura de Aokusa
Nº de Arquivo: AO-2025-4931
Nome Completo: Takeuchi Masanori
Data de Nascimento: 12 de agosto de 1975
Idade: 50 anos
Gênero: Masculino
Nacionalidade: Japonesa
Estado Civil: Casado
Cônjuge: Takeuchi Fumiko
Endereço Residencial: Cidade de Aokusa, Bairro Midorigaoka 3-12-5
Dou uma olhada rápida. Três informações importantes me saltam:
Primeira, sabemos quem é o nosso homem — Takeuchi Masanori.
Segunda, ele é casado — o que significa que podemos pressionar a esposa, Fumiko.
Terceira, ex-funcionário do setor financeiro municipal...
Aí está a conexão com a prefeita.
Tudo começa a se encaixar.
Mas... não.
Uma parte de mim grita que isso é só a ponta do iceberg.
Que o fundo é muito, muito pior.
Guardo a ficha e encaro Yuki:
— Temos um ponto de partida. Vamos visitar a esposa dele, a Fumiko. Alguém já avisou sobre a morte dele?
— Bom... na verdade, ela veio aqui antes de a gente chegar ontem. — Yuki coça a cabeça, visivelmente desconfortável. — Disseram que ela tava desesperada porque ele tava desaparecido.
— Ótimo. — ironizo. — Então daqui a algumas horas vamos passar por lá. Agora ainda é muito cedo. Agora vou pegar uma água minha garganta tá seca.
— Vai pegar uma água? — provoca Yuki. — Deve ser a garganta ferrada pelo cigarro.
Lanço um olhar feio pra ela. Nada que ela não esteja acostumada. Caminho até a recepção.
A delegacia fervia de ansiedade, mas lá dentro... o silêncio era quase insuportável.
Chego no filtro, encho um copo de plástico com água fria.
Quando estou tomando, vejo uma mulher entrar.
Aos prantos. Desesperada.
— Eu quero meu filho! — ela grita. — Por que vocês não estão atrás dele?!
O policial da recepção tenta acalmá-la:
— Senhorita, estamos fazendo o possível, mas não encontramos nada...
— Como não?! — ela soluça, a voz rasgando a garganta. — Eu só saí de casa por dois segundos... e quando voltei, tava tudo revirado! Traz ele de volta... por favor...
Meu coração gela.
Um arrepio me atravessa.
O copo de água quase cai da minha mão.
Aquilo...
Aquilo era exatamente como no caso da Emi.
Mesma cena.
Mesmo desespero.
Coincidência?
Eu não acreditava mais em coincidências há muito tempo.
Era só mais uma criança sumida. E eu já sabia como essa história acabava.
Mikami Haru já foi detetive. Hoje, é apenas um homem arruinado pela culpa de não ter salvado a filha desaparecida. Quando sua ex-parceira Yuki o força a voltar às investigações, ele se vê diante de um caso perturbador: a prefeita da cidade sumiu sem deixar vestígios. Relutante, Haru descobre que esse desaparecimento pode estar ligado ao de Emi — e que seguir essas pistas significa abrir feridas que nunca cicatrizaram. À medida que mergulha na escuridão, Haru percebe que a verdade pode ser mais cruel do que o luto. E que alguns segredos não querem ser descobertos.
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