Fico vendo o desespero daquela mãe. Encho mais um copo de água fria e me aproximo. Ela tremia, desesperada. Toco gentilmente em seu ombro e ofereço o copo.
Eu vi a morte nos olhos dela. Como se o próprio ser estivesse morrendo a cada dia sem notícia do filho.
E isso... é algo que eu conheço bem.
Olho pro policial ao lado e digo que me deixasse falar com ela. Ele concorda, balançando a cabeça.
Gentilmente a coloco para sentar. Ela continuava tremendo, seus olhos inchados — nitidamente de tanto chorar. Sento ao lado dela, tentando parecer menos quebrado do que realmente sou.
— Quando foi que seu filho sumiu?
— Já faz um mês — responde a mãe, dando mais um gole na água. Suas mãos tremiam, como se a mente dela vagasse pelas lembranças do filho. Ela me encara, e o olhar dela carrega uma irritação evidente.
— Mas do que adianta falar isso? Já faz um mês sem notícias, e vocês não fazem nada. Só é mais uma criança desaparecida. Meu filho foi reduzido a uma mera estatística.
Ela desaba em lágrimas.
Sinceramente? Desde que perdi a Emi, não sentia mais nada. Mas ver alguém sofrendo o mesmo que eu... me aperta o peito.
Era como se eu estivesse falando comigo mesmo. Como se eu estivesse consolando eu mesmo.
E isso me dá uma empatia que jamais pensei que teria de novo.
Uma lágrima escorre dos meus olhos sem que eu perceba. A mulher me encara, surpresa:
— Por que está chorando, policial?
— Não sou policial... não mais. — Respondo, limpando as lágrimas. — Como você, perdi minha filha há três anos. Em uma situação muito, muito igual à sua. Mas... não encontrei até hoje. Então eu te entendo.
— Você ainda a procura?
— Depois de dois anos, eu parei por um tempo. Aceitei que ela estivesse morta.
Mas eu quero saber. Independente se minha filha tá viva ou morta, eu quero saber o que aconteceu. O que posso prometer pra você... é que, se os casos estiverem ligados, eu vou salvar seu filho. Eu prometo.
Ela me entrega uma foto do filho.
Cabelo preto, pele branca. Aparentava ter mais ou menos a idade da minha Emi quando desapareceu. Atrás da foto ela anota o endereço e o celular dela.
Ela completa, a voz trêmula:
— O nome dele é Renji.
— Como ele sumiu?
Ela fica em silêncio. Como se aquelas memórias fossem facas afiadas rasgando a alma dela.
Depois de alguns segundos, me encara e diz:
— Fui ao mercado perto da minha casa. Só dobrei a rua. Quando voltei... a porta estava aberta e... — ela começa a chorar de novo, forçando as palavras — tudo estava revirado.
— Teve algo estranho? Tipo... antes disso?
— Meu vizinho...ele era bom mas depois ficou estranho.
Isso me chama atenção. Diferente do meu caso, esse tinha alguma pista.
— Estranho?
Ela aperta os braços com força, como se quisesse se proteger de novo.
— Ele não parecia humano.
— Pode descrever ele pra mim?
— Ele tinha uns cinquenta, sessenta anos... cabelo grisalho. E... ele tinha uma gosma preta que escorria dos olhos e da boca.
Na hora que ela fala isso, meu coração aperta.
Sinto um choque atravessar meu peito.
Peço pra ela esperar e saio correndo até a sala da Yuki.
Ela me olha e diz, com aquela expressão de sempre:
— Então vamos?
— Cala a boca. Tô resolvendo uma coisa.
Ignoro ela e pego a ficha do senhor Takeuchi Masanori, nosso "homem misterioso". Levo a foto até a mãe e mostro pra ela.
— É ele?
Ela olha a foto com atenção. O olhar dela é sério, pesado.
— Não.
Estranho a resposta imediata. Fixo nela:
— Tem certeza? Absoluta?
— Sim. Não é ele.
Nesse momento, o peso volta para o meu peito.
Tem mais uma pessoa com essa gosma preta, isso não pode ser coincidência.
Yuki chega perto de mim, curiosa. Eu olho para a mãe e digo, com a voz baixa:
— Vou encontrar seu filho. Eu prometo. Eu gostaria de saber o seu nome.
— Fujimoto Tomoe.
Me despeço dela.
Quando chego no carro, Yuki pergunta:
— Quem é a coroa?
Olho pra ela, sério:
— Ela é igual a mim.
Antes de entrar no carro, Nakamura chega ofegante atrás da gente.
— Consegui... destravei o celular e o notebook da prefeita. Mas... não totalmente.
Eu e Yuki trocamos um olhar confuso.
Talvez a gente estivesse prestes a conseguir respostas.
Mikami Haru já foi detetive. Hoje, é apenas um homem arruinado pela culpa de não ter salvado a filha desaparecida. Quando sua ex-parceira Yuki o força a voltar às investigações, ele se vê diante de um caso perturbador: a prefeita da cidade sumiu sem deixar vestígios. Relutante, Haru descobre que esse desaparecimento pode estar ligado ao de Emi — e que seguir essas pistas significa abrir feridas que nunca cicatrizaram. À medida que mergulha na escuridão, Haru percebe que a verdade pode ser mais cruel do que o luto. E que alguns segredos não querem ser descobertos.
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