A cidade passava devagar pela janela do carro da Yuki. O tipo de dia em que até a luz parece hesitar.
Mas então ela parou o carro. Em frente a um asilo.
Franzi a testa.
— Ei, a esposa do Takeuchi Masanori não mora aqui.
— Eu tenho que falar com a minha mãe antes de ir continuar nosso caso. Sabe como é família — disse Yuki, com um tom mais sério do que o normal.
Raro ver esse lado dela. E raramente ele me passa confiança.
Descemos do carro. O prédio era simples, mas limpo. O cheiro do lugar misturava desinfetante e tempo parado. Cuidadoras cruzavam os corredores num vai e vem automático. O tipo de lugar onde o fim da linha é embrulhado em lençóis limpos e visitas esporádicas.
Toda vez que um caso grande aparece, Yuki faz questão de vir aqui. Eu costumava achar esse hábito dela irritante, até egoísta. Hoje... talvez eu entenda. Não dá pra saber o amanhã.
O quarto da mãe dela era absurdamente arrumado. Lençóis esticados como se fossem vitrines, cobertas dobradas com perfeição. Havia flores numa prateleira — sinal claro de visitas frequentes. Provavelmente da própria Yuki.
A senhora estava de costas, olhando pela janela. Cabelos grisalhos bem penteados. Sentada numa cadeira de rodas. Uma presença silenciosa, como se fizesse parte da mobília.
— Oi mãe — disse Yuki.
A mulher virou lentamente. Sorriu.
Yuki devolveu o sorriso com um olhar suave. Quase infantil.
Mas eu... sempre espero o pior. E naquele sorriso da Yuki tinha algo que me incomodou. Era... educado demais. Como se encobrisse alguma coisa. Seja o que for acho que não é problema meu.
Ela se ajoelhou diante da mãe e a abraçou com força. A senhora acariciou os cabelos da filha com um gesto cheio de carinho.
— Mãe estou em um caso no trabalho meio grande e acho que não vou poder vim por um tempo, eu só quero te avisar isso tá?
— Tudo bem minha filha, eu entendo. Mas não se cobre demais. Você fica tão focada no trabalho... não se esqueça de se divertir um pouco.
Se divertir? Aquela mulher claramente não conhece a filha que tem. Yuki vive fazendo piada de tudo e todos.
Yuki deu um beijo na testa da mãe e saímos do quarto. Seguimos de volta ao carro. O sol estava alto demais, jogando sombras duras nas calçadas.
Entramos no carro em silêncio. O tipo de silêncio que não pede companhia. Olhei de lado. Yuki parecia distante. Reflexiva. Até estranho ver ela assim. Geralmente sou eu quem carrega o peso morto do humor.
Seguimos até a próxima parada. A casa da esposa de Takeuchi Masanori.
Era uma construção simples, mas bem cuidada. Jardim florido. As cores não pareciam combinar com o clima. Soavam... deslocadas. O tipo de lugar onde se tenta manter a aparência viva.
Bati na porta.
Uma senhora atendeu. Cabelos presos, rosto abatido. Olhos vazios. Ela parecia ver através de mim e da Yuki, como se estivéssemos a quilômetros de distância. Então essa era a Fumiko.
— Olá?
— Somos da polícia, minha senhora. Viemos fazer algumas perguntas sobre seu marido — respondo.
— Polícia?
Ela parecia meio desorientada, como se a realidade escorregasse por entre os dedos. Algo nos olhos dela me deu um arrepio — não era só luto.
Engoli a sensação. Um incômodo estranho ficou ali, grudado na pele... mas ignorei. Estou aqui pra resolver esse caso — o resto, eu empurro pro fundo.
Mikami Haru já foi detetive. Hoje, é apenas um homem arruinado pela culpa de não ter salvado a filha desaparecida. Quando sua ex-parceira Yuki o força a voltar às investigações, ele se vê diante de um caso perturbador: a prefeita da cidade sumiu sem deixar vestígios. Relutante, Haru descobre que esse desaparecimento pode estar ligado ao de Emi — e que seguir essas pistas significa abrir feridas que nunca cicatrizaram. À medida que mergulha na escuridão, Haru percebe que a verdade pode ser mais cruel do que o luto. E que alguns segredos não querem ser descobertos.
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