A velha Fumiko ficou nos encarando por tempo demais.
Não dizia nada. Piscar, ela quase não piscava. Os olhos dela pareciam... vazios. Não daquele jeito poético de gente perdida. Vazios mesmo. Como se ela tivesse deixado algo importante pra trás e agora só restasse a carcaça.
Yuki me lança um olhar. Aquela cara de “o que tá acontecendo aqui?”. Depois volta os olhos pra Fumiko, tentando manter a educação.
— Podemos entrar, dona Fumiko?
— Entrar...? — repete, como se a palavra doesse. — Dentro... sim. É... é seguro. Pode entrar... agora.
Ela se vira e caminha lentamente. Cada passo parece um esforço. Como se o corpo dela ainda quisesse ficar parado. Eu e Yuki entramos atrás, e assim que cruzamos a porta, o cheiro nos acerta.
Podre.
Era como se a casa estivesse apodrecendo de dentro pra fora. Um fedor rançoso, úmido, ácido... dava vontade de sair de ré. Migalhas pelo chão, móveis revirados, cortinas penduradas como se tivessem sido arrancadas por alguma briga — ou algum colapso.
Já vi isso antes. Quando perdi Emi, eu destruí meu próprio apartamento. Luto é isso. Às vezes o corpo explode quando a mente não aguenta. Mas ali... tinha algo diferente. Fumiko não parecia enlutada. Parecia ausente. Desligada.
Ela se aproxima de uma poltrona virada no chão. Com calma, a levanta. Depois encara o móvel por um tempo, como se estivesse esperando ele falar com ela.
— Vocês... querem sentar? Aqui... é um bom lugar... eu acho.
O sorriso que acompanha a frase não tem nada de acolhedor. É tenso. Forçado. Quase um pedido de socorro disfarçado de simpatia. Assinto com a cabeça e me sento na cadeira. Yuki escolhe a poltrona recém-levantada.
Fumiko continua nos observando. O mesmo sorriso. A mesma rigidez. Era como estar num teatro onde a atriz esqueceu o texto e só continuava sorrindo pra ganhar tempo.
— Viemos falar sobre o desaparecimento do seu marido. — digo, direto ao ponto.
— Vocês querem café? — ela responde, com uma empolgação repentina que não combina com absolutamente nada.
Minha mente para. Ela ouviu o que eu disse?
Será que está tentando fingir normalidade? Ou aquilo é um tipo de negação? Yuki também se incomoda e tenta manter o foco:
— Gostaríamos de saber quando viu seu marido pela última vez?
— Eu... eu faço café. Vocês gostam de café, né? Todo mundo gosta... — Fumiko diz, ignorando completamente a pergunta.
Vai até a cozinha. Correndo. Quase animada. Como se tivesse sido acionada por um comando automático.
Yuki se inclina na minha direção e cochicha:
— Eu acho que ela tá loucona.
— Isso aí não é um "acho". É certeza. — respondo seco.
— Será que vamos mesmo conseguir informações dela? Ou teremos que exorcizar?
Penso. Mas antes que qualquer ideia se forme, Fumiko já volta com duas xícaras. Aquele sorriso continua. Mais firme. Mais assustador.
Ela estende o café.
O cheiro me acerta antes da visão. Algo errado. Errado demais. Quando olho dentro da xícara, o estômago vira.
Pedaços.
Não sei o que é de início. Yuki arregala os olhos, quase deixa escapar um grito. Eu entendo. Ali, boiando no café preto e ralo... estavam pedaços de carne crua. Era pedaços de galinha.
Yuki engole a raiva. Vai falar alguma coisa, mas eu levanto a mão, num gesto discreto, e ela entende.
Não aqui. Não agora.
— Obrigado pelo café... agora, sobre o Takeuchi Masanori. O que ele fazia da última vez que viu ele?— Pergunto
— Estávamos brigando no parque aqui perto, duas ruas daqui. — Fumiko responde de maneira fria, automática. Como uma gravação.
Depois, sorri. Mais largo. Mas algo escorre do canto da boca. Saliva escura, espessa, com um cheiro ácido que lembrava vinagre estragado. Era idêntica à gosma de Masanori, só que... mais fraca, como se ainda estivesse se formando.
Aquilo me bastava. Não íamos tirar nada útil dali. Só mais perguntas.
Me levanto.
— Bom, acho que vamos indo... Obrigado por ceder seu tempo.
— De nada, homem mal... eu vou te ver de novo.
O sorriso se amplia como se a pele dela fosse rasgar. Me gelou até os ossos. Aquilo não era só um comentário estranho. Era... pessoal. Tinha algo ali. Algo que me enxergava por dentro.
Faço sinal pra Yuki, e saímos juntos.
Lá fora, o ar parecia mais limpo, mesmo com o céu nublado e o frio aumentando. Ainda assim, não quisemos deixar o carro perto da casa. Fumiko parecia alterada demais. Melhor manter distância.
Mesmo que o parque fosse logo ali, decidimos ir de carro. Por segurança. Vai que ela resolvesse nos seguir, ou pior... sei lá. Aquela mulher já tinha cruzado várias linhas na minha cabeça.
Dirigimos em silêncio. Yuki ficou olhando pela janela, distraída. Eu mantinha os olhos na estrada, mas minha mente ainda estava dentro daquela casa. A baba preta. O sorriso desumano. O cheiro de podridão.
Chegando ao parque, paramos o carro numa rua lateral e descemos.
O lugar estava deserto. Ninguém. Só vento, árvores e bancos solitários. O tipo de silêncio que faz barulho.
Yuki olha pra mim.
— Então, o que espera encontrar, velhote?
— Eu não sei ainda. Preciso verificar aqui. E você, para de fazer corpo mole e procura alguma pista também.
Ela faz cara de emburrada. Como sempre. Mas começa a olhar ao redor.
Passamos um tempo vasculhando o parque. Nada demais. Até que, numa loja próxima, algo chama minha atenção.
Câmera.
Uma câmera de segurança bem posicionada. Apontando direto pro parque.
Meus olhos brilham. Talvez... talvez a gente consiga ver essa tal briga de casal.
Talvez a gente veja algo que Fumiko não contou. Ou não quis contar.
Mikami Haru já foi detetive. Hoje, é apenas um homem arruinado pela culpa de não ter salvado a filha desaparecida. Quando sua ex-parceira Yuki o força a voltar às investigações, ele se vê diante de um caso perturbador: a prefeita da cidade sumiu sem deixar vestígios. Relutante, Haru descobre que esse desaparecimento pode estar ligado ao de Emi — e que seguir essas pistas significa abrir feridas que nunca cicatrizaram. À medida que mergulha na escuridão, Haru percebe que a verdade pode ser mais cruel do que o luto. E que alguns segredos não querem ser descobertos.
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