Entramos no mercadinho. Era pequeno, mas surpreendentemente bem cuidado. Piso limpo, prateleiras organizadas, tudo com um certo zelo quase obsessivo, como se o dono passasse mais tempo limpando do que vendendo.
A chuva tamborilava lá fora, um som constante que parecia me lembrar a todo instante de que o mundo seguia desabando, literalmente. Yuki estava logo atrás de mim, mas não por muito tempo. Como sempre, ela passou na frente, sem cerimônia, e foi direto ao balcão. O homem que nos atendeu tinha uns trinta anos, barba desgrenhada e uma mania desagradável de coçá-la o tempo todo. A cada coçada, uma tempestade de caspa desabava sobre o balcão. Às vezes ele limpava com a mão. Às vezes só deixava ali mesmo, como se fosse parte da decoração. Tive vontade de voltar pra chuva.
Yuki, como de costume, assumiu o controle da conversa. Pediu pra ver as câmeras de segurança com aquele jeitinho sorridente e dissimulado que ela usava quando queria algo. Enquanto ela tagarelava, meu olhar se perdeu na televisão pendurada no alto da parede. Um jornal local.
E então, claro… a notícia que parecia ter sido escrita só pra ferrar a minha vida: o suicídio de Takeuchi Masanori. Também o apontavam como suspeito no desaparecimento da prefeita.
Maravilha.
Quando voltei minha atenção pra Yuki, ela estava visivelmente irritada. Não, irritada é pouco. Ela estava furiosa. Começou a despejar um monólogo carregado de palavrões, ofensas, acusações e termos que eu nem sabia que ela conhecia. Juro que em um minuto ela falou tanta merda que meu cérebro resolveu desligar por autodefesa.
— Não concorda? — perguntou, bufando, com os olhos acesos.
— Acho que sim — respondi no automático, sem a menor ideia do que eu estava concordando.
— Temos que investigar quem tá vazando essas notícias e...
— Não. — Interrompi. — Isso é irrelevante. Já sabemos que tem um informante da mídia dentro da delegacia. Perder tempo com isso agora é inútil.
— Então vamos pra sua casa?
— Pode ser. Baratas não vazam informações. Mas vamos focar no agora. Ele vai nos mostrar as câmeras?
— Vai sim.
Fomos levados até uma sala minúscula nos fundos da loja. Era como entrar num caixão com cheiro de mofo. O ar parecia velho, engarrafado. Duvidava que alguém tivesse usado aquele lugar nos últimos anos. Eu e Yuki nos sentamos em cadeiras de plástico enquanto o atendente ligava o sistema de segurança.
O tempo passou devagar. Muito devagar.
Yuki se levantava toda hora pra comprar salgadinho. Ela sempre foi inquieta — parecia movida a açúcar — e agora não era diferente. Eu, por outro lado, mantinha os olhos fixos nas gravações. Não esperava encontrar nada. Talvez por isso tenha me surpreendido quando algo, enfim, apareceu.
Era ele. Takeuchi Masanori.
No vídeo, Masanori estava sentado em um banco no parque. Estava calmo, respirando fundo, como quem busca um pouco de paz, algo bem normal. E, por um instante, parecia só isso: um homem exausto tentando respirar.
Mas então, outro sujeito se aproximou. Desconhecido. A postura de Masanori mudou sutilmente — desconforto, talvez um resquício de alerta — mas ele não reagiu, apenas permaneceu ali ignorando o desconhecido.
O estranho começou a balançar a cabeça de um lado para o outro, como se ouvisse uma música imaginária. Aquilo me incomodou. Era familiar.
Lembrei na hora. Masanori, algemado no banco de trás do carro da Yuki, fazia exatamente aquilo. A cabeça oscilando devagar, o olhar distante, como se dançasse com alguma coisa que só ele ouvia.
Parei. Olhei com mais atenção.
O homem estava com ela. A gosma preta.
Masanori o encarou, confuso. E então veio o ataque. Rápido. Brutal. O estranho o derrubou com um soco, e então mordeu seu braço.
Sim. Ele mordeu o braço do Masanori.
Na gravação, Masanori rapidamente o empurrou e era nítido o pânico dele, que começou a correr desesperado. O outro homem, o portador da gosma, apenas ficou parado. Olhou diretamente para a câmera e... sorriu. Fez caretas. Se balançou como uma criança boba brincando sozinha. Depois, foi embora, como se nada tivesse acontecido.
Yuki, que tinha acabado de voltar com mais um pacote de salgadinhos, viu o vídeo. Ficou pálida.
— A Fumiko mentiu...
— O que quer dizer? — perguntei, com um pressentimento ruim.
— Ela disse que teve uma briga com o Masanori no parque. Mas nesse vídeo... ela nem aparece.
Ela tinha razão. A história da Fumiko não batia. Se ela não estava lá, como sabia do que aconteceu? E se Masanori foi atacado... por que ela disse que eles brigaram?
Nada fazia sentido. Nada se conectava. Era como tentar montar um quebra-cabeça onde as peças pertencem a caixas diferentes. A única coisa que passava na minha cabeça além disso era como tudo isso se encaixa no desaparecimento da minha filha.
E então, o telefone da Yuki tocou. Vi o nome na tela: o médico-legista.
Yuki atendeu. Em poucos segundos, o rosto dela ficou tenso. Quando desligou, olhou pra mim.
— Recebi o laudo do corpo do Masanori... — disse, a voz vacilando. — A gosma preta... não é uma substância. É um parasita.
Mikami Haru já foi detetive. Hoje, é apenas um homem arruinado pela culpa de não ter salvado a filha desaparecida. Quando sua ex-parceira Yuki o força a voltar às investigações, ele se vê diante de um caso perturbador: a prefeita da cidade sumiu sem deixar vestígios. Relutante, Haru descobre que esse desaparecimento pode estar ligado ao de Emi — e que seguir essas pistas significa abrir feridas que nunca cicatrizaram. À medida que mergulha na escuridão, Haru percebe que a verdade pode ser mais cruel do que o luto. E que alguns segredos não querem ser descobertos.
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