Eu estava sentado ao lado da minha esposa, Mikami Kaori. Ela estava careca por causa do tratamento. Os olhos fundos, apagados pelo cansaço, a pele fina demais para quem já teve tanto vigor… e, mesmo assim, ainda a achava linda. Linda de um jeito calmo, quase intocável, como porcelana antiga. Aqueles olhos — mesmo agora — ainda me viam. De verdade. Como se atravessassem todas as minhas máscaras e me vissem como realmente sou. Sinceramente, até hoje me pergunto o que a Kaori viu em um homem como eu.
Lembro daquele dia como se estivesse preso nele. Porque foi o último. O último dia em que nós três estivemos juntos… como uma família.
Emi segurava a mão da mãe, os olhinhos apertados de preocupação. Era uma imagem impossível de suportar. Então estendi a mão e alisei a cabeça dela, tentando, em vão, proteger aquele mundo pequeno da queda inevitável.
— Sua mãe vai sair dessa.
— Promete, pai?
Aquela pergunta... foi como um prego direto no meu peito. Eu quis prometer. Quis mentir. Mas não consegui. Suspirei fundo. Não queria enfrentar aquela realidade.
— Emi, às vezes, na vida, existem coisas que estão além do nosso controle. E, infelizmente, a doença da sua mãe é uma delas… Se eu pudesse, eu juro que ela nunca ficaria doente. E ficaríamos todos felizes…
Foi nesse momento que desabei. As lágrimas vieram como um colapso interno, e o pior de tudo é que eu não tinha como escondê-las. Lembranças de Kaori invadiam minha cabeça, como registros de um tempo feliz — mas que passou. Dói muito saber que isso escorre pelas mãos. Foi quando senti a mãozinha da Emi repousar sobre minha cabeça. Ela começou a fazer um cafuné em mim, como se os papéis tivessem se invertido. A voz dela veio baixa, doce:
— Vou pegar um presente pra mamãe. Já volto.
Ela saiu da sala. E, mesmo com o sorriso nos lábios, percebi que estava apenas tentando ser forte. Mas desde aquela época acho que sempre fui um fraco.
Olhei para Kaori.
E meu coração gelou.
Ela me encarava de um jeito estranho. O olhar apagado. Vazio. Como se algo dentro dela tivesse se perdido, ou pior… se rendido. A voz veio fraca, quase um sussurro impossível de entender, mas que pareceu ecoar direto dentro da minha cabeça:
— Você deveria cuidar dela.
Foi aí que vi.
Da boca de Kaori começou a escorrer uma gosma negra. Grossa. Densa. Tanta que inundou o chão. Em segundos, a sala inteira estava coberta. Eu tentei gritar. Tentei correr. Mas era tarde. A gosma me engoliu, me afogando em puro terror. Quando percebi, já não conseguia respirar.
E então acordei.
Ofegante, coberto de suor, meu peito subindo e descendo como se ainda estivesse me afogando. Estava no meu quarto. Só um pesadelo... Estou tão envolvido no caso que estou misturando ele com minhas lembranças. Ainda assim, me pergunto: será que Kaori ficaria com raiva de mim? Eu mesmo teria ódio de alguém que não conseguiu proteger a própria filha.
Levantei da cama, ainda atordoado, e fui até a sala. Yuki já estava lá. Vestida, animada como sempre. Ou fingindo estar, depois do que aconteceu ontem. Parecia tudo tão falso e forçado que doía meus olhos.
— Bom dia, velhote — disse ela, com um sorriso artificial. Ela deve estar querendo que tudo pareça normal. — Preparei seu café. Imaginei que estivesse com pressa, então vamos?
Passei a mão na testa, tentando organizar a mente.
— Tudo bem… vou me arrumar logo.
Troquei de roupa rápido, peguei o café e o sanduíche que ela tinha deixado, e seguimos juntos para o carro. Dentro dele, o cheiro doce de tutti-frutti — aquele maldito cheiro que parecia grudar no meu nariz como uma tortura — ainda estava ali. Fiquei mastigando em silêncio, encarando o vazio pela janela. Mesmo depois do que aconteceu ontem… mesmo com o pedido de desculpas, o clima entre nós continuava estranho. Talvez o tempo ajeite isso. Ou talvez não. Melhor nem pensar nisso agora.
Chegamos ao orfanato Asas do Amanhecer.
O prédio era isolado, longe da parte habitada da cidade. Mato alto por todos os lados, como se até a natureza tivesse vergonha daquele lugar. Cinco andares, janelas quebradas, porta semiaberta e destruída. Um muro alto e o portão fechado com um cadeado enferrujado.
Peguei minha arma.
Um disparo seco.
O cadeado caiu com um estalo metálico. Yuki me lançou um olhar de desaprovação.
— Você tá meio alterado, hein?
— Só tô com pressa pra ver o que tem aqui.
Seguimos até a porta da frente. Ao empurrá-la, o som do rangido ecoou por todo o hall vazio. Um cheiro muito ruim invadiu meu nariz — forte, azedo, já senti esse cheiro antes no meu tempo de policial e isso não era um bom sinal.
— Que cheiro horrível — reclamou Yuki, cobrindo o rosto com a manga da blusa.
— Pior que esse cheiro está bem forte mesmo…
Mas não era só mofo. Era pior. Um cheiro que parecia nos chamar. Segui o odor pelos corredores. A madeira do chão rangia a cada passo. Tudo era escuro demais. Yuki ligou a lanterna do celular, lançando um facho fraco, mas aquele lugar... parecia que algo nos observava. Não conseguia ver, mas sentia. Não estávamos sozinhos. Desde que comecei esse caso, sinto que sempre tem algo me observando. Mas acho que o mais provável é que eu esteja caminhando a passos rápidos para o abismo da loucura.
Paramos diante de uma porta.
O cheiro vinha dali.
E algo em mim hesitou. Uma parte quase implorava para não abrir. Mas respirei fundo e aproximei minha mão da porta...
E abri.
Era difícil ver o que era. Parecia alguém sentado. Então Yuki, lentamente, iluminou com a lanterna e, na hora, levou a mão à boca. O espanto em nós dois foi imediato.
Lá dentro, encostado na parede do fundo do quarto, estava um cadáver — por isso o cheiro.
Ela segurava uma faca nas mãos, nitidamente com força. Como se tivesse morrido agarrada a ela. Não quero nem imaginar o que fez. Continuei observando e notei algo, na mão dela havia uma marca, uma mordida... Isso pode ser teoria minha, mas será que ela foi infectada?
Mikami Haru já foi detetive. Hoje, é apenas um homem arruinado pela culpa de não ter salvado a filha desaparecida. Quando sua ex-parceira Yuki o força a voltar às investigações, ele se vê diante de um caso perturbador: a prefeita da cidade sumiu sem deixar vestígios. Relutante, Haru descobre que esse desaparecimento pode estar ligado ao de Emi — e que seguir essas pistas significa abrir feridas que nunca cicatrizaram. À medida que mergulha na escuridão, Haru percebe que a verdade pode ser mais cruel do que o luto. E que alguns segredos não querem ser descobertos.
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