Entramos no quarto e tudo pareceu congelar por um instante. Yuki e eu não conseguimos nem falar. O choque foi imediato.
O cômodo estava uma bagunça —móveis desalinhados, objetos caídos pelo chão. Ela estava ali, caída, vestindo apenas um roupão. Exatamente como o mordomo havia descrito. Mas... por que ela veio pra cá? Aquela mensagem no celular... ela se encontrou com alguém neste lugar?
Mas o que mais chamava atenção era a gosma preta. A mesma que vimos nas gravações — a contaminação acontece quando ela entra pela boca. Ou seja, a prefeita foi infectada por alguém.
Será que o nosso Desconhecido era... Takeuchi Masanori?
Sabemos que ele tinha ligação com a prefeita. Era ex-funcionário público — setor financeiro. Talvez eu esteja forçando uma conexão, mas... é possível que tenha contaminado a própria esposa.
De qualquer forma, isso agora não importava tanto quanto entender o que diabos aconteceu aqui.
Yuki fala, séria:
— A gente devia chamar reforço antes que....
— Agora não — corto, seco. — Vão só encher o saco. A gente investiga mais antes que a burocracia venha estragar tudo. Deixa o corpo aí. Aposto que esse lugar ainda tem mais segredos.
Yuki hesita. A tensão está estampada no rosto dela, mas então ela me encara:
— Isso vai dar merda, mas… tudo bem, senhor teimoso.
Fechamos a porta. O som da madeira selando o ambiente pareceu mais pesado do que devia. Seguimos pelos corredores do prédio. A cada passo, a atmosfera se tornava mais densa, como se o ar carregasse um segredo sujo grudado nas paredes.
Chegamos a um dos quartos. Várias camas de ferro, sem colchões. No chão, sapatos infantis empoeirados, jogados de qualquer jeito. O lugar tinha cheiro de mofo antigo e abandono. Mas não havia nada de útil ali.
Fomos explorando os demais cômodos. Um por um.
Até que chegamos a uma porta. Abri e dei de cara com o que parecia ser uma sala de arquivos.
O ar era pesado, cheio de poeira. Papéis soltos voavam de um canto para o outro com a corrente de ar que entrou quando abrimos. Algumas cadeiras estavam quebradas — não por vandalismo, mas pela ação lenta e paciente do tempo.
Me aproximei de uma das paredes e vi um cartaz que me chamou atenção.
Era um desenho infantil… ou pelo menos parecia. Mostrava uma menina punk, mal rabiscada, com um enorme X vermelho sobre ela. Logo abaixo, a frase:
“Não seja diferente. Ser igual é viver em paz.”
Fiquei encarando aquilo.
Que tipo de cartaz de conscientização era esse? Normalmente se incentiva a criatividade, ainda mais entre crianças. Pelo menos na minha época. Talvez os tempos tenham mudado… para pior.
Olhei por cima do ombro e vi Yuki revirando gavetas, espalhando mais papéis pelo chão. Comecei a vasculhar junto com ela.
Depois de um tempo, senti um toque leve no meu ombro. Quando virei, o rosto dela estava diferente… não era surpresa qualquer, era espanto puro.
Ela me mostrou um documento.
Uma transação financeira entre a prefeitura e o orfanato. Pela data, era da época em que o orfanato ainda funcionava. A quantidade de zeros naquilo quase me fez rir — e não de alegria. Eu sabia que manter um lugar daquele tamanho não era barato… mas aquilo não era gasto normal. Era absurdo.
Yuki me olhou:
— Eu nunca vi nada assim. Por que gastar tanta grana num lugar desses? Isso tá com cara de corrupção… ou lavagem de dinheiro bem descarada. — disse, ainda espantada.
— Eu não sei, mas algo me diz que não deve ser tão simples.
O tempo passou… e nada. Nenhuma nova pista. Nenhuma resposta. Só dúvidas.
Decidimos voltar para o quarto da prefeita.
Assim que abrimos a porta, algo nos paralisou.
O corpo dela não estava mais no mesmo lugar.
Estava mais à frente, como se tivesse sido... arrastado.
Yuki e eu sacamos nossas armas no mesmo instante. Havia mais alguém ali. Isso era certo. Nossos olhos varreram o cômodo, buscando qualquer sinal de movimento. Mas tudo o que encontramos foi um silêncio sufocante.
Foi então que senti.
Um vento fraco passou pelas minhas pernas.
Frio. Quase imperceptível.
Aquele quarto não tinha janelas.
Olhei em volta, confuso. De onde vinha aquele vento?
Ainda em alerta, me aproximei da parede mais próxima. Toquei com os dedos. Depois, dei alguns socos leves.
Rígido. Rígido. Oco.
Uma parte da parede estava... vazia por dentro.
Olhei para Yuki e falei:
— Tire foto do corpo da prefeita, precisamos de provas de que vimos ela.
— O que você vai fazer, Haru? Descobriu alguma coisa?
— Talvez sim — respondi, com um leve sorriso de canto.
Recuei um passo. Depois, chutei com força a parte oca. A madeira se rachou. Do outro lado, havia espaço. Continuei chutando, destruindo o que restava. Pedaços da parede cederam, revelando uma escada que descia para algum andar subterrâneo.
Yuki e eu trocamos um olhar.
Alguém não queria mostrar seja lá o que tem lá embaixo.
Comecei a descer.
As paredes estavam úmidas. O som das gotas de água ecoava nas paredes, como se o lugar estivesse chorando sozinho há anos. Yuki vinha logo atrás. Nenhum de nós disse nada. Não havia mais espaço para palavras.
Chegamos a um corredor estreito.
Celas acolchoadas de cada lado. Como aquelas usadas para prender pacientes psiquiátricos em surto.
Em um orfanato.
O que diabos essas celas estavam fazendo aqui? Espera um segundo será que aquele alto investimento era por causa disso? Esse caso tá ficando cada vez mais estranho.
Seguimos em silêncio, cada passo fazendo o chão ranger de leve.
Mais à frente, encontramos um balcão velho, quase desmanchando.
Em cima dele, uma anotação amarelada pelo tempo.
Uma lista de nomes.
No topo da folha, escrito à mão:
“Crianças escolhidas”
Havia muitos nomes. Demais.
Mas um me fez parar.
Hina.
Eu já tinha ouvido esse nome.
Foi como Takeuchi Masanori se apresentou para mim no interrogatório.
Mikami Haru já foi detetive. Hoje, é apenas um homem arruinado pela culpa de não ter salvado a filha desaparecida. Quando sua ex-parceira Yuki o força a voltar às investigações, ele se vê diante de um caso perturbador: a prefeita da cidade sumiu sem deixar vestígios. Relutante, Haru descobre que esse desaparecimento pode estar ligado ao de Emi — e que seguir essas pistas significa abrir feridas que nunca cicatrizaram. À medida que mergulha na escuridão, Haru percebe que a verdade pode ser mais cruel do que o luto. E que alguns segredos não querem ser descobertos.
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