Não era por causa do frio. Era outra coisa, aquilo que a gente sente antes de uma queda.
Como se o mundo ao redor segurasse a respiração junto comigo.
Yuki se aproxima por trás, vê o que estou segurando e diz:
— Crianças escolhidas? Pra quê?
— Não sei... mas vendo esse lugar... estou com um mau pressentimento.
A resposta saiu antes que eu pudesse racionalizar. Porque alguma parte de mim já sabia.
Então eu a escuto.
A risada.
Aquela mesma risada distorcida, infantil, grotescamente familiar — a de Takeuchi Masanori.
Yuki escuta também. Nossos olhos se encontram por um segundo que parece se esticar demais.
— Acho que temos que nos apressar. — falo, olhando e procurando saber de onde vinha a risada.
— Quem você acha que pode estar aqui?
— Não faço ideia. Mas dá pra sentir... a gente não é bem-vindo aqui.
Yuki ficou séria. Não fingia coragem — só vestia ela como se fosse uma armadura fina, prestes a rachar. O medo estava lá, nítido. Mas ela não dava um passo atrás. Apenas sacou a arma e seguiu.
Atravessamos o corredor até uma sala logo atrás do balcão. Minha mão empurrou a porta devagar. Madeira velha, cheiro de remédio vencido e mofo. A sala parecia organizada, até demais.
E estranhamente vazia.
Mas o tipo de vazio que faz barulho dentro da cabeça.
Havia uma estante cheia de remédios. Mas nada de uso comum — tudo ali era coisa de hospital. Alguns nem eram mais usados — ou sequer liberados. Produtos vencidos. Produtos proibidos.
O que diabos estava acontecendo aqui?
Yuki me chama. A voz dela tem aquele tom que mistura nojo e curiosidade.
Sigo até onde ela está, e então vejo.
Um símbolo pintado na parede.
Era estranho.
Era um símbolo pintado com grafite na parede. Eu não conhecia aquele símbolo, mas ainda assim não parecia ser obra de vândalos ou algo do tipo. Yuki tira uma foto como evidência.
Me aproximo da estante de remédios e fico apenas olhando... que tipo de orfanato precisa desses tipos de remédios?
Antes que eu pudesse pensar mais, escuto algo.
Passos.
No andar de cima. Correndo.
Congelo.
Yuki me encara. O desconforto é mútuo. Está estampado em nossos rostos.
— Melhor a gente voltar. Se não, a gente não sai mais.
Minhas palavras saem mais baixas do que eu pretendia. Mas elas não precisavam ser altas. Yuki entendeu.
Abro a porta com cuidado. O suor escorre pela minha nuca.
Estava preparado pro pior. Mas não tinha nada.
Nada visível, pelo menos.
Continuamos. Chegamos à escada. As gotas continuavam pingando, insistentes, como se marcassem o tempo que nos restava.
Cada passo era um rangido.
Madeira velha, memórias podres.
Subimos.
Chegamos ao quarto e, por um instante, meus pés cravaram no chão. O ar ficou pesado.
O corpo da prefeita... não estava mais lá.
Isso não era só estranho — era impossível. Mas “impossível” já tinha virado a regra aqui dentro. Yuki travou ao meu lado. A voz dela saiu trêmula, mas firme o bastante para não quebrar.
— Pra onde o corpo foi e...
— Yuki, por isso eu pedi pra você tirar uma foto. Nada neste lugar é normal.
— Você usou o corpo da prefeita como isca?
— Talvez sim. Mas agora nosso suspeito não tá longe, isso é uma certeza — acendi um cigarro, puxando a fumaça como se fosse oxigênio — Vamos. Ele ainda deve estar perto.
Ela me olhou de um jeito que misturava irritação e incredulidade. Cara fechada, sobrancelha arqueada.
Era o tipo de expressão que dizia “eu devia te dar um soco”, mas, no fim, não passava de Yuki sendo Yuki.
Vou andando até a porta e abro, sem cerimônia. Nenhum cuidado. Talvez uma parte de mim quisesse mesmo encarar o que fosse.
Mas o que vejo me paralisa.
Mais de quarenta pessoas, todas adultas, dentro do orfanato. Algumas brincavam com bonecos, outras jogavam bola ou brincavam de pega-pega. Todos se comportavam como se fossem crianças num mundo que deixou de funcionar. Mas o pior... eram os olhos e a boca.
Aquela gosma preta.
Todos infectados.
É. Acho que agora dá pra chamar assim.
E então acontece.
Todos eles param as brincadeiras. Ao mesmo tempo. E nos encaram. Eles abrem um sorriso enorme, quase anormal, como se as bocas fossem rasgar, e, depois de nos encararem com seus sorrisos, todos começam a rir.
A mesma risada.
Aquela risada.
Corrompida. Infantil. Uma única voz vinda de muitas bocas.
Mikami Haru já foi detetive. Hoje, é apenas um homem arruinado pela culpa de não ter salvado a filha desaparecida. Quando sua ex-parceira Yuki o força a voltar às investigações, ele se vê diante de um caso perturbador: a prefeita da cidade sumiu sem deixar vestígios. Relutante, Haru descobre que esse desaparecimento pode estar ligado ao de Emi — e que seguir essas pistas significa abrir feridas que nunca cicatrizaram. À medida que mergulha na escuridão, Haru percebe que a verdade pode ser mais cruel do que o luto. E que alguns segredos não querem ser descobertos.
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