Yuki segurava a arma com força, mas era evidente o nervosismo nos olhos dela — aquele brilho trêmulo de quem sabe que talvez esse seja o fim. O quarto não tinha janelas. O único lugar por onde podíamos escapar era a passagem secreta. Mas mesmo ali... ainda estaríamos encurralados. Apenas com mais espaço para morrer. A situação não era nada favorável.
Saquei minha arma e falei baixo, quase em sussurro, com Yuki:
— Temos que descer... é nossa melhor chance. Lá tem mais espaço. Aqui estamos encurralados e vamos morrer ou fazer parte dos infectados.
O silêncio era pesado. Eles estavam ali, parados, olhando pra gente. Aqueles sorrisos... a maldita gosma preta escorrendo das bocas, como se a podridão viesse de dentro pra fora. Era nojento. Meu coração quase pulava pela boca — um passo em falso e já era.
E então, como se fossem uma só coisa, todos falaram juntos. Vozes múltiplas que se fundiram numa só. Sincronia absurda. Inumana.
— Vocês não são meus novos irmãos.
Foi como um estalo. Eles avançaram de uma vez. Um enxame de corpos sem alma, desumanos e determinados. A única coisa que podíamos fazer era correr — e correr rápido.
Descemos as escadas. A madeira rangia sob nossos pés. Cada passo era um risco. Escorregadia, molhada, fedendo a mofo e goteira. Yuki perdeu o equilíbrio e caiu. Um dos infectados agarrou a perna dela e, no reflexo, ela me puxou junto. Caímos os dois.
O mundo virou caos.
No chão, o infectado tentou vomitar aquela gosma maldita direto na boca da Yuki. Mas ela reagiu antes — puxou o gatilho. Um tiro seco. O infectado caiu morto, antes de conseguir contaminar.
Foi aí que eu vi.
Todos os outros... pararam. Ficaram estáticos. Em pânico. Começaram a chorar. Como crianças. Um choro real, desesperado, sufocante. Como se todos tivessem sentido a dor daquele único tiro. Como se fossem um só.
E então disseram:
— Isso dói, dói muito... vocês também querem me machucar... vocês são maus!!!
Me levantei rápido e puxei Yuki. A adrenalina queimava no peito.
— Vamos nos trancar naquela sala... — Yuki diz, ofegante e em pânico.
Não gostei da ideia. Tudo em mim gritava que ia dar merda. Mas com eles atrás, não havia escolha.
Corremos até a sala dos remédios. Derrubamos estantes, empurramos móveis pra bloquear a porta. As batidas vieram logo depois. Fortes. Ritmadas. Insistentes. Aquilo não ia aguentar muito.
Yuki começou a explorar a sala — abrindo, derrubando, empurrando tudo — procurando uma saída. Mas nada. Estávamos trancados. Sem rota de fuga. E eles prestes a entrar. Traduzindo: com toda certeza, vamos morrer.
Fechei os olhos. Tentei respirar. Pensar. Manter a cabeça no lugar. Eu precisava de algo, qualquer coisa. Então lembrei.
A reação deles ao tiro. Como se todos tivessem sentido a dor. Talvez isso fosse um ponto fraco. Olhei pra Yuki.
— Tenho uma ideia, mas não sei se vai dar certo. — digo, determinado.
— Qual é a ideia?
— Abre a porta.
— Você tá maluco?! Se quer se matar, faz isso sozinho. — diz Yuki, em desespero.
As batidas ficaram mais intensas. A madeira da porta estalava. Não ia durar muito. Olhei pra ela. Yuki estava com medo, isso era claro. Mas ainda tinha aquele olhar firme. Sempre tem.
— Yuki, quando você atirou naquele infectado, acredito que todos sentiram. Ou seja, se você acertar um tiro num lugar de muita dor, isso pode nos dar uma brecha pequena pra fugirmos.
— Baseado em que você diz isso?
— Em achismo. Mas tem alguma teoria melhor?
Yuki parou, olhou pra mim com incredulidade e apenas disse:
— Se a gente morrer, eu vou te pegar no inferno.
Acendi um cigarro. Traguei fundo. Era como se meus pulmões gritassem em resposta.
— Sério que você vai fumar agora? — ela disse, quase querendo voar na minha cara.
— Pode ser a última vez que vou fumar.
Ela fez uma cara que dizia tudo: faz sentido.
E então, a porta foi arrombada.
O infectado entrou primeiro. Nos olhou direto nos olhos. Havia algo ali que não era humano. Era fome. Era ódio. Era... vazio.
Segurei a arma com força. Estava paralisado. Mas Yuki, mesmo com medo, era fria. Fria o bastante pra atirar primeiro. A bala atravessou a cabeça de um dos infectados. Na mesma hora, os outros gritaram. Agonia. Dor. Desespero.
Essa foi nossa brecha.
Corremos.
Mas eu não fui rápido o suficiente.
Um deles me agarrou. Me puxou pra trás. Meu corpo... bem, três anos de álcool, cigarro e noites sem dormir fazem um belo estrago. Meu condicionamento físico era uma piada.
E sabe o que é engraçado?
Quando você vive todos os dias querendo morrer, achando que está pronto pra isso... quando a morte finalmente chega, bem na sua frente, a única coisa que você pensa é:
Eu não quero morrer.
E é exatamente isso que está passando na minha cabeça agora.
Mikami Haru já foi detetive. Hoje, é apenas um homem arruinado pela culpa de não ter salvado a filha desaparecida. Quando sua ex-parceira Yuki o força a voltar às investigações, ele se vê diante de um caso perturbador: a prefeita da cidade sumiu sem deixar vestígios. Relutante, Haru descobre que esse desaparecimento pode estar ligado ao de Emi — e que seguir essas pistas significa abrir feridas que nunca cicatrizaram. À medida que mergulha na escuridão, Haru percebe que a verdade pode ser mais cruel do que o luto. E que alguns segredos não querem ser descobertos.
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