Braços. Mãos. Dedos frios agarrando meu pescoço, meu peito, minhas pernas. Cada parte de mim era puxada por aqueles corpos vazios, como se eu fosse um prêmio num jogo doentio.
Eles não queriam só matar.
Eles queriam me levar. Me engolir. Me fazer parte daquilo — daquela mente distorcida, daquela coisa que apagava quem você era por dentro.
E ali, não havia lógica. Só instinto. Só medo.
O mundo rodava, e o cheiro de coisa antiga e apodrecida invadia meus pulmões. Eu me debatia como um animal encurralado, mas meu corpo já começava a ceder.
Então, um som seco. Um disparo.
Um dos agressores tombou pra trás, como se os fios que o mantinham de pé tivessem sido cortados. Os outros pararam por um segundo. Foi um segundo só — mas o suficiente.
Yuki estava ali. Arma em punho. Expressão trincada. A mesma força de sempre.
Corri até ela.
Subimos as escadas correndo, como se algo maior que a morte nos perseguisse.
Os passos atrás de nós não pareciam passos — eram como uma massa que se movia, viva, faminta. Um ruído ecoava atrás, reverberando pelas paredes, vibrando no nosso peito como se estivéssemos dentro de um grito.
— Isso dói! Faz parar! FAZ PARAR!!! — gritaram. Muitas vozes. Todas juntas. Todas em pânico. Um coro infantil sufocado pelo desespero.
Não olhamos para trás. Nenhum de nós teve coragem.
Mas eu... olhei. Por um instante.
E me arrependi.
Não eram mais dezenas. Nem centenas. Era como se o prédio inteiro tivesse despertado, tomado por corpos. A colmeia havia acordado — e estávamos no centro dela.
A saída estava perto. Mas cada canto parecia infestado. Corpos vinham de todo lado.
Começamos a atirar. Não para vencer. Só pra abrir espaço. Pra respirar. E por um instante, achei que tínhamos uma chance.
Até ouvir o som.
Um baque.
E outro.
E outro.
Virei o rosto de novo — e o sangue gelou. Eles estavam se jogando. Do alto. Das janelas. Dos corredores superiores. Caíam como se voassem. Como se não tivessem mais medo de nada.
— Yuki, o carro! AGORA! — gritei.
Entramos. Ela girou a chave com mãos trêmulas. A ré foi brusca. Um deles atingiu o para-brisa — o vidro trincou, mas não cedeu.
E escapamos.
Atravessamos os portões daquele lugar amaldiçoado. Deixamos o orfanato para trás. Por enquanto.
O silêncio dentro do carro era um eco do pânico que ainda nos dominava. Só o som do motor e o peso da adrenalina presa no peito.
Minha voz saiu antes que eu pudesse segurar:
— Que inferno foi aquele?
— Você tá me perguntando, velhote? Eu achei que a gente ia morrer lá. Eu achei... — a voz dela falhou. — Eu nunca vi nada assim.
Minhas mãos ainda tremiam. O coração parecia correr atrás de um trem que já tinha passado.
— Precisamos descansar. E pensar. Você tá com as fotos?
— Tô. Estão salvas aqui. — disse ela, mostrando o celular, ainda tentando manter a mão firme.
— Vamos pro meu apartamento.
Ela assentiu. Ninguém quis discutir. Ninguém queria ficar mais perto daquele lugar.
O carro estava excessivamente rápido, como se ainda estivéssemos fugindo, o som do motor preenchendo o silêncio desconfortável. Parte de mim não queria chegar nunca.
Mas chegamos.
Subimos como dois fantasmas: exaustos, vazios.
Yuki se jogou no sofá. Os olhos dela estavam vermelhos. A boca entreaberta. Parecia querer chorar... mas já não tinha mais força pra isso.
Eu me sentei na poltrona.
E fiquei ali, sentindo um peso estranho no peito.
Yuki me olhou. A expressão dela era a de sempre: provocadora. Mas havia uma ternura ali. Uma preocupação silenciosa.
— Velhote, você tá bem?
A pergunta me atingiu em cheio.
— Quero saber tudo sobre o orfanato. E sobre a lista das crianças. Acho que encontramos a origem dos desaparecimentos... — minha voz falhou. — Talvez a Emi tenha estado ali. Talvez ela tenha sofrido...
Senti meu corpo fraquejar.
E chorei.
Estava confuso, pensando em tudo que aconteceu. E, além disso, estou com medo. Medo do que posso encontrar a seguir. E só de imaginar as possibilidades isso me assombrava, minhas mãos tremiam levemente. E Yuki nota isso — e me abraça. Forte. Silenciosa. Os dedos dela passaram pelo meu cabelo, como se quisessem costurar os pedaços de mim que ainda restavam.
E naquele abraço...
Veio a pergunta que eu nunca quis fazer:
Depois de tudo o que vi hoje... será que eu quero mesmo descobrir o que fizeram com a minha filha?
Mikami Haru já foi detetive. Hoje, é apenas um homem arruinado pela culpa de não ter salvado a filha desaparecida. Quando sua ex-parceira Yuki o força a voltar às investigações, ele se vê diante de um caso perturbador: a prefeita da cidade sumiu sem deixar vestígios. Relutante, Haru descobre que esse desaparecimento pode estar ligado ao de Emi — e que seguir essas pistas significa abrir feridas que nunca cicatrizaram. À medida que mergulha na escuridão, Haru percebe que a verdade pode ser mais cruel do que o luto. E que alguns segredos não querem ser descobertos.
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