Assim que deixaram o galpão, Wendel combinou de encontrá-los na manhã seguinte. Davi e Miguel foram instruídos a arrumar apenas o essencial em pequenas mochilas. Durante a escura e fria madrugada, os dois seguiram até a frente da casa de Wendel, onde ele já os aguardava com uma van, pronto para levá-los ao encontro de Raziel.
Com um sorriso e as bochechas coradas pelo frio, Wendel os recebeu. Seu rosto transmitia um ar de “viagem em família”, mas o clima era tenso.
A cidade barulhenta ficou para trás, dando lugar às estradas de terra, à paisagem natural e ao rádio tocando em volume baixo. As horas passaram lentamente, talvez pelo cansaço de terem acordado cedo demais, talvez pelo peso da investigação. Enquanto dirigia, Wendel ajustou o espelho retrovisor e observou Davi e Miguel dormindo no banco de trás, um encostado no outro. A cada quilômetro, estavam mais perto da verdade.
Lentamente, Miguel abriu os olhos. Avistou as estradas, as cercas ao redor das casas, o gado ao longe e as árvores, iluminadas por um sol fraco que já começava a se pôr.
— Esse lugar... — sussurrou. — Tem certeza de que ele está aqui? — perguntou, tentando não acordar Davi.
— Tenho. Ele confiou em mim pra proteger vocês, lembra? E sabia que só traríamos pessoas confiáveis até aqui — respondeu Wendel, sem tirar os olhos da estrada.
Ao entardecer, ele estacionou ao fim de uma estradinha de terra. Ali havia uma casa simples e envelhecida, com paredes verde-água, janelas pequenas com grades de ferro e cortinas finas por dentro. A porta, de madeira pesada e escura, tinha um trinco antigo. Um alpendre com dois degraus levava à varanda, onde havia um vaso com uma planta quase seca. O campo ao redor era tomado por mato, flores silvestres e folhas secas.
Davi, que agora havia despertado, desceu da van. Os três ficaram lado a lado, encarando a casa. Ele disse, firme:
— Vamos descobrir a verdade. — A voz era firme, mas seus olhos não escondiam a tensão.
Wendel hesitou por um segundo. Respirou fundo e bateu à porta. Uma, duas, três vezes.
Passos lentos ecoaram do lado de dentro. Uma tranca foi destrancada. A porta se abriu.
Ali estava Raziel. Seus dreads negros estavam presos no topo da cabeça. Os olhos dourados, ainda vivos, agora carregavam marcas do cansaço. A pele morena, o rosto retangular e a barba por fazer davam-lhe um ar mais envelhecido. Vestia uma camisa social lilás de mangas curtas, calça jeans com a barra dobrada, cinto preto, tênis com meias brancas, óculos de armação roxa e um relógio prateado no pulso.
Era ele. Em carne e osso.
Miguel deu um passo à frente. O coração disparava, a respiração falhava. Olhou fixamente por alguns segundos, como se o tempo tivesse parado.
— Pai...?
— Miguel...
O abraço foi imediato. Miguel o envolveu com força, deixando as lágrimas escorrerem. Raziel fechou os olhos, segurando o filho com os braços trêmulos.
— Achei que você tivesse sumido pra sempre. Tive medo de nunca mais te ver...
— Eu só queria proteger você. Mas fugir... só adiou tudo. Me perdoa.
Davi observava em silêncio. O maxilar tenso, os olhos atentos. Por fim, deu um passo à frente.
— Você desapareceu, deixou pistas, envolveu gente inocente... Por quê, professor?
Raziel o encarou com seriedade.
— Porque você e Miguel eram os únicos em quem eu confiava para descobrir a verdade.
Wendel sorriu ao olhar o reencontro familiar.
— Agora que chegaram até aqui... é hora de contar tudo.
Todos entraram. O interior da casa era simples e funcional. A sala de estar era pequena, com um sofá velho coberto por um lençol, livros e uma manta, e um tapete empoeirado sobre o piso de madeira. A cozinha tinha armários antigos, fogão a gás, uma geladeira pequena e poucos utensílios. O quarto estava arrumado, com cama de solteiro, colcha azul-marinho, criado-mudo e roupas no cabide, com um ventilador antigo desligado no canto. O escritório era iluminado por uma luz amarelada e tinha uma escrivaninha de madeira escura. O banheiro era pequeno, limpo e com o essencial.
Sentaram-se em torno de uma pequena mesa, iluminados pela luz do pôr do sol e de um lustre antigo.
— Primeiro... fale sobre as ligações. Eram ameaças mesmo? Ou vinham da Jurema Souza? — perguntou Davi.
— As ligações não eram só ameaças. Parte delas era da Jurema, me orientando juridicamente. Ela me ajudou a esconder documentos e organizar tudo.
— E o Fernando Costa?
— Ele sabia onde eu estava. Foi meu apoio emocional, meu amigo. Ficou em silêncio para garantir a segurança de vocês. Se dissesse qualquer coisa, colocaria todos em risco.
— E todas aquelas pistas? Por que deixar meu cartão com seu filho, afinal?
— Foi de propósito. Eu sabia que Miguel recorreria a você se visse seu cartão. E sabia que você entenderia. Era minha forma de garantir que a verdade chegasse onde precisava.
— Uau... até o casaco foi de propósito pra me levar até você — observou Miguel, com um sorriso impressionado.
— Ah, esse fui eu — disse Wendel, com um leve encolher de ombros. — Tive medo de que alguém ruim os encontrasse antes de mim.
Raziel respirou fundo.
— Ainda assim, o que vou contar agora pode colocar vocês em risco. Vocês ainda querem saber?
Davi e Miguel se entreolharam, os olhos brilhando com coragem. E disseram, juntos:
— Queremos.
Raziel se levantou, foi até o quarto e voltou com um pen drive vermelho nas mãos.
— Aqui estão as provas. Gravações. Documentos. Isso pode destruir eles... ou destruir a gente.
Ao estender o pen drive a Davi, hesitou.
— Não sei se devo envolver vocês ainda mais...
O lustre balançou levemente. O silêncio era intenso. Davi segurou o pen drive com firmeza, enquanto Raziel o observava.
— Antes de verem o que tem aqui — disse ele, com a voz baixa, — preciso explicar como tudo começou.
Ele se recostou na cadeira, com os olhos fixos em algum ponto do passado.
Davi apertou o pen drive na mão.
— Já estamos envolvidos. Agora é uma questão de honra.
[Três meses antes do desaparecimento]
A sala de arquivos da Clínica Aurora era fria e deserta. Raziel revisava documentos sem parar, vasculhando prontuários, relatórios e registros financeiros. Arquivos incoerentes surgiam um após o outro: diagnósticos falsificados, assinaturas clonadas, exames que jamais haviam sido feitos.
O telefone vibrou. Ele atendeu.
— Você está cavando sua própria cova, Raziel — disse uma voz fria. Era Breno.
— Eu não tenho medo de você. Quantas pessoas você já destruiu com isso?
— Deveria se preocupar com quem ama. Seus filhos, por exemplo...
A ligação caiu. As mãos de Raziel tremiam. Ele gravou a tela com o celular e copiou tudo para um pen drive.
O sistema estava podre. E ele, marcado.
[De volta ao presente]
— Foi nesse dia que decidi desaparecer — disse Raziel. — Se eu continuasse visível, não duraria muito. Tive que sumir... com umas ajudinhas.
— E a história da sua morte? — perguntou Miguel.
— Wendel criou uma pista falsa para despistar a polícia corrupta, e foi Jurema quem cuidou dos trâmites legais e dos documentos que me mantiveram oculto. Sem eles, eu não teria conseguido.
Davi pensava em silêncio. Depois, perguntou:
— E o dia do desaparecimento? Por que toda aquela movimentação?
Raziel assentiu.
— Acordei às oito horas, fui à missa, como sempre. Passei na padaria, depois corrigi provas em casa. Recebi uma ligação ameaçadora, mais uma. Almocei com Fernando para me despedir. À tarde, passei no escritório da Jurema para resolver as últimas pendências. Encontrei Wendel na taverna da Rua Baker para combinar hora e local. Às dezoito horas, estive na universidade, onde rasurei uma pesquisa como distração. Peguei um ônibus, entrei numa loja às dez horas e desapareci das câmeras saindo pelos fundos. Um carro me esperava. Vim direto pra cá.
— Planejado em cada detalhe... — murmurou Davi.
— Sim. Porque não era só sobre mim. Era sobre proteger todos ao meu redor. Eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, tentariam me incriminar.
— Mas por que confiar em nós?
— Porque vocês eram os únicos em quem eu confiava. Você, Davi, pela inteligência... e por nunca ter se envolvido comigo antes. Miguel, pela coragem. Tudo isso foi um rastro até mim.
— E o Breno? Ele realmente admitiu tudo?
— Sim. Eu inclusive gravei uma conversa. Nela, ele confessou os crimes de corrupção, manipulação de laudos e falsificação de álibis. Disse que eu estava perto demais de expô-lo e que isso teria consequências.
O silêncio se instalou.
— É por isso que tenho medo de entregar tudo. Esse pen drive pode acabar com Breno... ou com a gente.
Miguel tocou o ombro do pai.
— Chega de fugir. Vamos enfrentar isso. Juntos.
Raziel sorriu, cansado.
— Então vamos cair dentro! Não é assim que vocês jovens falam?
— Haha, é sim — respondeu Miguel.
Lá fora, já era noite. A conversa fez as horas voarem. Como não poderiam permanecer muito tempo, decidiram passar somente aquela noite ali e partir de manhã.
— Amanhã vamos sair cedo, antes que nos rastreiem. Precisamos descansar o máximo possível. — Wendel se levantou e foi preparar os colchões no porta-malas, ele realmente estava agindo como se estivesse montando uma festa do pijama improvisada.
Davi se levantou, tirando os óculos. Estava mais comprometido do que nunca. Raziel o observou, entre o orgulho e o temor. Era impossível não ver, no lugar do antigo aluno, um novo líder. Miguel, por sua vez, mantinha-se perto do pai, como se não quisesse mais perdê-lo.
Davi encarou a paisagem sombria pela janela.
— Agora somos nós que vamos caçar esses canalhas.
Do lado de fora, em meio à escuridão, um carro estacionado discretamente permanecia oculto sob a copa das árvores. Dentro dele, uma silhueta observava em silêncio. Os olhos estavam fixos em Davi. A voz, quase um sussurro, transbordava veneno:
— Você foi longe demais...
O motor ligou. O carro desapareceu na estrada, engolido pela noite.

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