Capítulo 8
Roppongi, Tóquio. Uma hora depois.
O tratamento de Aiko estava na metade. A garota alternava entre momentos onde ela conversava com Harumi e onde ela simplesmente decidia tirar um cochilo. Nesse tempo, os amigos já tinham comprado o que precisavam. Logo, Kaito voltou com um taco de baseball de alumínio novinho em folha e reluzente. Yuta e Jun voltaram com seus instrumentos, e Ayase e Natália voltaram com seus milkshakes. Só faltava Mahina.
— Será que a senhorita Hoshina está bem? — Ayase perguntou. — Ela não voltou até agora.
— Daqui a pouco ela volta — Kaito disse, dando de ombros. — Se ela tiver qualquer problema, ela resolve. Vocês sabem como ela é exímia na arte da arma de choque.
Natália sorriu, lembrando de quando ela, Kaito e Ryotaro defenderam ela e Aiko de Yakuzas, no ano passado. Depois de uns dois minutos, Jun viu Mahina voltando. Porém, ela não parecia nada bem. Kaito correu até ela, e segurou seus ombros, perguntando:
— Mahina? O que houve? Que cara é essa?
— Eu… — Mahina sussurrou. — Eu… fui comprar aquela pulseira que eu queria muito. Sabe? Aquela de ouro com uma safira no meio.
— Sei.
— Eu… cheguei na joalheria, e… — a voz de Mahina se tornou mais frustrada, irritada. — eu procurei por todo canto! Mas eu não achava a bendita pulseira! E quando eu perguntei pro atendente… — Mahina fungou duas vezes, antes de exclamar:
— Ele disse que já tinha sido vendido!
E então, Mahina Hoshina, que era conhecida por quase nunca demonstrar emoções fortes, começou a chorar. Kaito foi pego completamente de surpresa. Assim, meio de forma instintiva, abraçou a garota enigmática.
— Calma, Mahina — ele disse, afagando os cabelos brancos da namorada. — Tá tudo bem. É só uma pulseira.
— Não é só uma pulseira! — ela exclamou, socando de leve o peito dele. — É A pulseira! Eu queria ela faz dois anos! É igualzinha ao que minha mãe tinha! E agora, algum idiota levou!
Os outros amigos formaram um círculo ao redor do casal, onde Kaito apertou mais o abraço. Mika e Hiro ficaram mais afastados.
— Senhorita Mika — Hiro chamou. — Por que essa pulseira é tão importante pra senhorita Hoshina?
— É que… — Mika sussurrou, desviando o olhar. — É uma pulseira muito importante. É o mesmo modelo de uma pulseira que a mãe dela usava, antes de… partir.
— A mãe dela morreu? — Hiro perguntou, seus olhos se enchendo de lágrimas.
— Sim. A mãe e a madrasta. Ela ainda teve que fugir do pai, começando a morar com o tio.
Hiro olhou novamente para Mahina, que continuava chorando no ombro de Kaito, e sentiu uma coragem repentina. Respirou fundo, e se aproximou da rodinha. Kaito arqueou uma sobrancelha, mas não perguntou nada. O garoto autista cutucou o ombro dela, e disse:
— Senhorita Hoshina. Eu… posso não entender de jóias nem dessas coisas… mas eu entendo de perda.
Mahina levantou o rosto, com a maquiagem impecável toda borrada e os olhos inchados. Sua expressão era de surpresa.
— O que…? — ela sussurrou.
— Eu… tinha um bonequinho. Um boneco do… do Sanosuke, quando eu… quando eu tinha hiperfoco em Rurouni Kenshin. Foi um… presente do meu avô. Eu andava com ele por todo canto, dormia junto e brincava com ele todo dia por horas. Era meu… hmm… era o que… me acalmava.
Mahina ficou em silêncio. Assim, Hiro continuou, olhando para os próprios tênis:
— Um dia… eu fui viajar, e levei meu boneco. Só que… quando eu… quando eu saí do trem, eu… deixei o boneco lá. Eu… nunca mais vi aquele boneco. Eu chorei por três semanas. Minha mãe… tentou me consolar, mas… não era só um boneco. Era O boneco. Foi… o último presente do meu avô.
Hiro engoliu em seco, sentindo suas próprias lágrimas caírem, mas continuou:
— Eu sei que… não é… igual. Mas… olha, eu… só quero dizer… hmm… que você não está sozinha. Pode… contar comigo. Eu… sou seu amigo, não é…? E… amigos… ajudam uns aos outros.
Por um momento, ninguém disse nada. Mahina olhou para os olhos castanhos de Hiro, com um sorriso gentil, e separou de Kaito, abraçando o menino autista que ficou sem reação.
— Você é um menino de ouro, senhor Takahashi — ela disse, chorando um pouco mais, mas agora de emoção. — Obrigada.
— Hã… de nada… senhorita Hoshina — Hiro sussurrou, abraçando a garota enigmática meio sem jeito.
Mika viu aquilo, e sentiu o coração dar um salto. Instintivamente, ela pôs a mão sobre o peito e piscou duas vezes. “Deus!”, ela pensou. “O que tá acontecendo? Por que eu fico… tão feliz com esse menino por perto? Por que ele mexe tanto comigo? Será que eu… tô apaixonada?”
Aiko, que estava quase acabando, olhou para Mika, e mesmo sem entender o que se passava na cabeça da amiga, deu um sorriso suave. Viu nos olhos da amiga um brilho diferente, que ela reconheceu na mesma hora.
— Mika, Mika… — Aiko sussurrou, tocando de leve uma mecha que caiu sobre seu olho. — Sabia que essa hora chegaria.
Depois de alguns segundos, Mahina soltou Hiro e voltou para Kaito. Ela já estava mais calma, mas seus olhos ainda estavam vermelhos e inchados. O ex valentão olhou para a maquiagem borrada dela, e comentou:
— Sua maquiagem já era.
— Eu sei — Mahina retrucou, desviando o olhar.
— Você… quer que eu retoque ela pra você?
— Quero… — ela sussurrou, a voz embargada novamente e fungando.
Kaito puxou Mahina para um banco alí próximo, fez ela sentar e pegou a bolsa dela. Tirou as maquiagens e começou o trabalho. O ex valentão já havia feito a maquiagem da mãe algumas vezes, então ele já tinha certa experiência. Enquanto maquiava, a garota enigmática perguntou:
— Isso te lembra algo?
— Lembra da minha mãe — Kaito sussurrou. — Mas eu não quero lembrar disso.
— Então não vamos.
Enquanto isso, Harumi finalizava o trabalho com o cabelo de Aiko, o deixando novamente brilhante, bonito e cheiroso. A menina dourada já até cochilava, quase dormindo profundamente. Quando enfim acabou, deu dois leves toques no ombro da menina.
— Senhorita Takane — ela disse. — Terminei.
Aiko abriu os olhos lentamente, meio desorientada. Esfregou os olhos, e se olhou no espelho. A visão que teve fez seus olhos se encherem de lágrimas: seu cabelo havia voltado ao seu puro auge. Antes opacos e sem brilho, agora brilhavam como se uma estrela resolvesse morar naqueles fios. As olheiras ainda estavam lá, mas agora pareciam muito mais rasas.
— Meu Deus… — Aiko sussurrou, a voz trêmula e encantada. — Isso… isso sou eu? Eu nem me reconheço…
— Essa é você, senhorita Takane. Você só esqueceu de quem era — Harumi respondeu, colocando as mãos sobre os ombros de Aiko.
Aiko sentiu os olhos serem inundados por lágrimas. Um sorriso gigantesco surgiu em seu rosto, e ela abraçou a cabeleireira com toda a força.
— Obrigada — Aiko disse, a voz embargada. — Muito, muito obrigada!
— Não precisa agradecer, senhorita Takane — Harumi respondeu, modesta, abraçando a menina meio sem jeito. — Só fiz meu trabalho.
Na mesma hora, os amigos de Aiko entraram e viram como a menina estava diferente. Por um momento, ficaram sem reação. Então, Mika exclamou:
— Aikozinha! Você tá nova em folha!
Cruzou o salão em três passos, e abraçou a amiga, que já se soltou de Harumi. Ayase e Natália também a abraçaram, e logo virou um amontoado de braços e cabelos. Yuta, Jun e Hiro observaram de longe, mas igualmente felizes. Quando por fim as meninas se soltaram, Aiko disse:
— Obrigada, amigas. Eu não sei o que eu seria sem vocês.
— A gente também não sabe, migucha — Ayase retrucou, enxugando uma lágrima teimosa. — Você que uniu todas nós!
— É verdade! — Mika concordou, beijando a testa da amiga. — A gente te ama, Aikozinha. Nunca se esqueça disso.
Aiko enxugou suas próprias lágrimas novamente, e elas saíram do salão, se despedindo calorosamente de Harumi e dos outros cabeleireiros. Do lado de fora, a menina dourada viu Kaito retocar a maquiagem de Mahina com um cuidado e habilidade surpreendentes.
— Caramba… — Aiko sussurrou, genuinamente impressionada. — O Kaito sabe fazer maquiagem?
— Quem diria, né? — Mika sussurrou em resposta, se pondo ao lado dela. — Que o terror dos corredores saberia algo assim.
— Nem o Ryotaro faz isso — Ayase complementou. — Né Aiko?
— Verdade — Aiko suspirou.
— Vocês três — Kaito disse, chamando a atenção delas e sem desviar o olhar. — Dá pra calarem a boca? Tô tentando me concentrar.
— Ai, grosso! — as três exclamaram em uníssono.
Kaito continuou focado, finalizando o delineado de gatinho que Mahina costumava usar. Com o lápis na mão, um olho fechado e a língua levemente para fora, ele passava o contorno, com extremo cuidado para não ficar torto. Quando terminou, usou o lápis como uma régua para ver se os dois olhos estavam alinhados e se tinham o mesmo tamanho.
— É, acho que terminei — Kaito disse, com um sorriso orgulhoso, pegando um pequeno espelho dobrável que Mahina sempre carregava. — Dá uma olhada.
Mahina abriu os olhos, e pegou o espelho. Ela se analisou no espelho por um longo momento antes de fechar o espelho e, com um sorriso também orgulhoso, dizer:
— Ficou muito bom, senhor Tanaka. Você realmente é bom nisso.
E se hesitar, puxou Kaito pelo colarinho e o beijou nos lábios. Não foi um gesto rápido, mas também não foi obsceno. Foi o suficiente para os outros entrarem em choque.
— Gente! — Aiko exclamou, corada. — Não façam isso no meio do shopping! Tá todo mundo olhando!
Mahina se separou de Kaito, e olhou para Aiko com um sorrisinho maroto.
— E o Kiko, Princesa Dourada? — foi tudo que ela disse, fazendo a menina dourada rosnar.
— Você tá muito engraçadinha pro meu gosto, Mahina! — Aiko disse, apontando o dedo para ela com uma expressão furiosa, embora ela não estivesse realmente irritada.
O grupo irrompeu em risadas, fazendo Aiko fazer uma carinha de garota de anime braba, cruzando os braços e virando o rosto. Mahina se levantou, ainda segurando a mão de Kaito, e se aproximou de Aiko, pegando uma das mechas do seu cabelo para o analisar.
— Harumi fez um ótimo trabalho — ela disse, com um sorriso gentil, longe do seu sorriso de raposa habitual.
— Obrigada mesmo, Mahina — Aiko agradeceu, com um sorriso agradecido. — Nem sei como agradecer.
— Nem precisa — Mahina disse, dando tapinhas na cabeça dela. — Muito bem, vamos para a próxima fase! Vamos às compras!
— Hein?! Compras?! — Aiko exclamou, dando um passo para trás. — Gente, não precisa disso…
— Dinheiro de banana, migucha — Ayase interrompeu, abraçando a amiga pelos ombros. — Vamos lá!
E logo arrastaram Aiko novamente. A menina dourada até tentou protestar, mas ninguém a ouviu. Levaram Aiko para inúmeras lojas, onde Mahina liderava com o cartão de crédito, enquanto Mika, Ayase e Natália escolhiam os looks. Os meninos ajudavam a segurar as sacolas, até mesmo Hiro, que mesmo tendo a mesma altura de Mika, ajudava da melhor forma que podia. A menina dourada quase caiu umas três vezes quando provou saltos altos e desfilava pelas lojas como se fosse uma grande modelo. Ela até perdeu a conta de quantas vezes ela riu até a barriga doer.
Depois de umas duas horas e meia, a lista estava quase toda completa. Só faltava a última coisa da lista: a temida lingerie. Quando Aiko se viu de frente para a loja, seu rosto se tornou vermelho carmesim.
— Gente…? — ela sussurrou, dando um passo para trás. — Vocês tem certeza…?
— Claro que sim, Princesa Dourada — Mahina rebateu, pondo as mãos atrás das costas. — Você tem de estar bonita em todos os sentidos. E principalmente… para fazer uma surpresinha ao Satozinho.
— Não sei, gente — Aiko sussurrou, virando de costas para a loja. — Eu… não me sinto confortável.
— Não é nada demais, Aikozinha — Mika disse, com um sorriso amigável e tranquilizador. — Não é como se fosse comprar uma bomba.
— Mas gente…! — Aiko tentou protestar, mas Ayase pôs a mão no ombro dela.
— Confia, migucha. Só confia.
Aiko suspirou, engoliu em seco e deixou que as amigas a puxasse para dentro. Os meninos ficaram do lado de fora, óbvio. Enquanto esperavam, Kaito, Yuta e Jun conversavam sobre tudo e nada. Hiro apenas observava a vitrine da loja, com uma expressão neutra. Acabou que Jun se aproximou do garoto.
— O que tanto observa nesta vitrine, novato? — o baterista perguntou.
— Nem tô prestando atenção, senhor Taniguchi — Hiro sussurrou. — Eu… tenho uma dúvida. Posso te perguntar?
— Pode sim.
— Por que as pessoas insistem em fazer roupas bonitas que só quem usa vai ver? Não faz muito sentido.
Jun ficou pensativo por um momento. De fato, era uma lógica muito boa, e que fazia certo sentido. Depois de pensar por um momento, ele finalmente disse:
— Olha… as pessoas querem se sentir bonitas de todas as formas. Fora que… hmm… olha, é meio difícil explicar. Você vai entender quando tiver uma namorada.
— Uma… namorada? — Hiro sussurrou, olhando para dentro da loja.
Hiro olhou exatamente no momento que Mika apareceu detrás de uma parede, conversando com Natália. O menino autista não conseguiu olhar por muito tempo sem desviar o olhar. Jun notou isso.
— Tá de olho na Mika, é? — Jun perguntou, com um sorriso maroto.
— Hã?! Que?! — Hiro disse, corando furiosamente. — Não! Eu… é claro que não!
— Ei, tá tudo bem — Jun o tranquilizou. — Não precisa entrar em desespero. Só estou reparando.
Jun então olhou para dentro da loja, com um sorriso preguiçoso.
— Posso te contar um segredo? — Jun perguntou. — Um segredo meu?
— Pode — Hiro respondeu.
— Sabe a Natália? A brasileira.
— Sei.
— Eu… também tenho uma queda por ela. E eu tô quase conquistando ela. Sabe como eu tô fazendo isso?
— Como…?
— Só sendo eu mesmo. As garotas gostam de honestidade. E eu te garanto que a Mika gosta muito de honestidade. Né não, Kaito?! — Jun perguntou, chamando a atenção de Kaito.
— É! — Kaito respondeu, mesmo sem entender nada do que o garoto tinha falado.
Hiro olhou novamente para dentro da loja, e olhou para o chão lustroso do lugar. “Ser eu mesmo?”, ele pensou. “Com a senhorita Mika? Será que isso realmente funcionaria? Assim como funcionou… com a senhorita Aiko?”

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