A Flor Negra da Cerejeira - Prata e Ouro, Diamante e Jaspe
Entre Cicatrizes e Perdão
Entre Cicatrizes e Perdão
Apr 26, 2026
Elke estava completamente diferente de quando Ryotaro via ela na faculdade. Não havia jaquetas de couro ou roupas estilosas, mas sim um vestido preto e grande, de mangas longas e de renda. Havia uma bicicleta ao lado dela. Seus cabelos castanhos, tão bonitos, agora estavam despenteados e não tinham nenhum traço de antigamente. Além disso, na bochecha esquerda, estava um corte vertical, que não sangrava mais, mas estava manchado de sangue seco. Ela sussurrava coisas em alemão, que Ryotaro não entendia completamente. O que ele entendia era “desculpa”, “pai”, “mãe”, “voltar” e “idiota”.
Ryotaro, por um momento, só quis virar as costas e deixar ela ali mesmo. Porém, aquela situação era… muito familiar. Elke também precisava de ajuda. Assim, suspirou e se aproximou dela. A mulher ouviu seus passos e levantou o olhar. Assim que viu Ryotaro, arregalou os olhos e se afastou, se arrastando.
— Ryotaro-kun! — Elke exclamou. — O que… o que você tá fazendo aqui?!
— Eu vim visitar um amigo — Ryotaro respondeu, pondo as mãos no bolso. — E você? Quem veio visitar?
Elke olhou novamente para o túmulo, e se pôs de joelhos novamente. Os olhos dela vacilaram por um momento, incapazes de encará-lo por muito tempo.
— Meus pais — ela sussurrou. — Meu pai morreu de um ataque cardíaco, e minha mãe… tirou a própria vida poucos dias depois.
Ryotaro olhou para os túmulos, que eram simples como o de Yahiko, e possuíam duas fotos de dois velhinhos, de olhos gentis e feições amigáveis. O garoto quieto notou que Elke possuía os mesmos olhos da mãe, o cabelo da mesma cor do pai, e seu rosto era uma mistura dos dois.
— Eu sinto muito — Ryotaro disse, abaixando a cabeça e também se ajoelhando. — Eu… sei como é perder alguém tão próximo.
— Sabe? — Elke perguntou, a voz amarga pela tristeza. — Quem você perdeu?
— Meu melhor amigo. Yahiko Watanabe. Ele tinha dez anos quando partiu. Câncer no cérebro.
Elke olhou novamente para Ryotaro, e com um olhar compreensivo e a voz gentil, perguntou:
— E como você lidou com isso?
— Não lidei — Ryotaro sussurrou em resposta, e parou.
As palavras pesaram mais do que deveriam.
— As outras crianças inventaram que eu fui a causa da morte dele. Que eu tinha uma maldição. E eu, uma criança que só precisava de alguém, fui ainda mais isolado. Ainda mais odiado.
Ryotaro tirou as mãos do bolso do moletom, e olhou para o próprio pulso, cujas cicatrizes estavam cobertas pela blusa. Fechou a mão em punho, e continuou:
— Fiquei sozinho por sete anos. Nesse tempo, minha única companhia foi a dor. Tanto a dor emocional quanto a física. Eu só achava alívio quando sentia o fio gelado de uma lâmina.
E então, em um gesto que surpreendeu até ele mesmo, Ryotaro puxou a manga da blusa até o cotovelo.
Puxou devagar, como se estivesse com medo de fazer isso.
As cicatrizes não eram poucas.
No pulso direito, uma delas se destacava, profunda, pálida e antiga.
Então, com uma coragem renovada, mostrou as cicatrizes para Elke. A mulher pôs as mãos na boca ao vê-las. Algumas eram antigas, já brancas. Outras ainda tinham um aspecto rosado, por mais que a última vez tivesse sido há dois anos.
— Meu Deus… — Elke sussurrou.
— Eu quase morri fazendo isso — Ryotaro afirmou, puxando a manga de volta para o lugar. — Mas… uma pessoa me fez voltar a ver as cores no mundo. Me fez ver que a vida não é só sofrimento.
— Sua namorada — Elke sussurrou, com um sorriso triste.
— Minha namorada — Ryotaro reforçou.
Elke olhou novamente para os túmulos dos pais, e seus olhos ameaçaram se encher de lágrimas outra vez. Com a voz embargada, a mulher sussurrou:
— Eu ainda sinto falta deles. Do meu pai, lendo o jornal e fazendo piadas ruins. Da minha mãe, sempre sorridente, insistindo em contar histórias mesmo depois de eu já ser adulta.
Olhou para as próprias mãos, fechando os olhos e os apertando.
— Eu achei que, se eu pudesse ficar com os calouros, eu recuperaria a inocência que eu perdi. Que com as corridas, eu recuperaria a alegria que se foi. Mas eu… continuava igual. E nem percebi que isso atrairia tantos inimigos.
Elke cobriu o rosto com as mãos, e chorou, dizendo:
— Me perdoe, Ryotaro-kun! Eu sou terrível! Uma pessoa horrível! Eu…
Elke não terminou. Ryotaro não disse nada.
Apenas a puxou para um abraço.
Com a voz doce, ele sussurrou:
— Está tudo bem. Eu te perdôo, Elke Meyer.
— Q-que? — Elke sussurrou, tentando recuar. — E-eu… não mereço isso…
— Eu também já fiz muita merda. E mesmo assim, alguém me perdoou. E me ensinou a perdoar. Talvez você não ache que mereça…
— mas eu sei como é precisar disso.
Elke, ao ouvir aquilo, abraçou Ryotaro de novo, e chorou alto. Segurou o rapaz como se estivesse com medo dele desaparecer dos seus braços.
E pela primeira vez em muito tempo,
Elke não se sentiu tão sozinha diante dos túmulos.
O tempo passou em Tóquio, e com ele, vieram desafios para Aiko e Ryotaro. O garoto quieto, já não mais o Fantasma Negro, teve de ir para Osaka, para estudar em uma universidade privilegiada, fazendo com que o grupo que ele e sua namorada criaram perdesse seu membro mais importante.
Em Osaka, Ryotaro conhecerá muitas pessoas, como o animado Hidetaka e a imprevisível Elke, e passará por muitas confusões antes de completar o seu curso de Letras. Serão longos 4 anos para o garoto quieto.
Já em Tóquio, Aiko fica desolada, parando até de se cuidar. O restante do grupo terá de fazer de tudo para a menina não desabar completamente e tentando a lembrar de quem ela era antes de Ryotaro. Enquanto isso, um novo membro, um menino autista chamado Hiro, promete trazer muito carinho para o grupo, além de bagunçar completamente os sentimentos de Mika.
As cerejeiras estão desabrochando. E uma flor negra continha lá.
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