Setagaya, Tóquio. Casa de Mika, 17:00.
Depois das aulas, Mika e Hiro estavam no mesmo metrô, voltando para casa. Durante o trajeto, os dois não se falaram muito. Hiro tinha conversado com um professor sobre a mãe do menino, que por conta de uma alta promoção, teria de se mudar do Japão. O garoto autista era apegado aos pais, mas detestava mudanças e não estava disposto a sair do seu país de origem. Mika não sabia, mas ele já tinha um plano em mente.
De frente para a casa de Mika, um sobrado simples e bonitinho, a menina olhou para Hiro, e deu um sorriso triste. O menino retribuiu da mesma forma.
— Então, vai embora, Hiro? — Mika perguntou.
— Eu não pretendo ir, senhorita Mika — Hiro respondeu. — Pretendo continuar morando em Tóquio.
— Como vai fazer isso?
— Olha… tô pensando em ir morar com alguns amigos. Eles moram aqui em Setagaya, assim como nós dois.
— Então… não é um adeus?
— Não, senhorita Mika. Não precisa ficar triste. Ainda vamos nos ver bastante…
Mika notou que Hiro parecia estar escondendo alguma coisa. Tinha algo errado. Mas decidiu não questionar. Assim, afagou novamente a cabeça de Hiro, e se despediu dele, que seguiu seu caminho até sua casa. A menina entrou em casa, cumprimentando os pais e o irmão, e subiu até seu quarto. Lá, deitou na sua cama, olhando para o teto. Pôs as mãos na barriga, entrelaçando os dedos, e deu um leve sorriso. Durante o dia, ela e o grupo se divertiram bastante durante a aula. Queriam fazer algo depois dela, mas todos estavam meio cansados. Ninguém além de Mika, Ayase e Aiko sabiam da situação de Hiro.
— Por que será que ele alongou o “bastante” na frase dele? — Mika disse, se virando para olhar para um pôster de sua idol favorita. — Não… ele não iria dar uma de Blue Box e vir morar na minha casa, né?
Mika riu sozinha no quarto, voltando a olhar para o teto. “Isso só acontece em mangás, sua boba!” Mika pensou. “Isso nunca aconteceria!”
Enquanto isso, Hiro chegou em casa e entrou. Era uma casa de um só andar, modesta e bonitinha. Tinha um cheiro característico de suco de laranja e atum assado, o prato favorito do menino. Ao entrar, encontrou a mãe sentada no sofá, com uma xícara de chá nas mãos ainda fumegante.
— Voltei, mamãe — Hiro disse, tirando os sapatos e pendurando as chaves de casa. — Já conversei com a professora.
— Oi filho — a mãe, que se chamava Chie, disse, com um sorriso cansado. — Que bom. Vai lá preparar suas malas. Já tenho tudo reservado.
— Mamãe… acho que eu não vou com você.
Isso fez a mãe arregalar os olhos. Ela olhou para o filho, muito surpresa.
— O que? — ela sussurrou. — Como assim não vai?
— Eu… não quero deixar o Japão — Hiro sussurrou, respirando o leve cheiro de atum da casa. — Eu finalmente fiz novos amigos, entrei em um grupinho. Se eu for fazer isso de novo nos Estados Unidos, vai demorar muito tempo. É outra cultura, outra língua… nunca vou me adaptar. Não quero recomeçar.
Hiro olhou para os pés, respirou fundo, e disse:
— Mamãe… você deixa eu morar com os Yoshida?
Chie arregalou os olhos, muito surpresa. A xícara de chá quase escorregou da sua mão, mas ela a segurou a tempo. Ela se levantou do sofá, deixando a xícara na mesinha de centro, e caminhou até o filho.
— Os Yoshida? — Chie perguntou, se agachando para ficar na altura do filho. — A família daquela menina, a Mika?
— Ela mesma! — Hiro exclamou, dando uns pulinhos no lugar e olhando para a mãe. — Você e a mãe dela são amigas, não são?
Chie olhou para o teto por um momento, pensativa. De fato, ela e a mãe de Mika, Haruka Yoshida, eram muito amigas desde que a mãe do menino autista se mudou para aquela região de Setagaya. E, de fato, a mãe de Mika já havia dito que, se ela precisasse de qualquer favor, poderia contar com ela.
— É, somos sim — Chie finalmente disse.
— Então! — Hiro disse, dando mais pulinhos. — Você pode falar com ela, não pode?
— Posso. Mas… — e aqui, Chie segurou os ombros de Hiro. — Hiro, meu filho, você tem certeza que quer ficar? Que vai conseguir ficar bem sozinho?
— Eu faço dezessete anos esse ano — Hiro respondeu, colocando suas mãos sobre a dela. — Já tá na hora de eu começar a me virar. Eu prometo que eu vou tomar meus remédios, dormir na hora certa e ajudar os Yoshida no que eu puder!
Chie olhou para Hiro com os olhos marejados, mas com um sorriso orgulhoso no rosto. Seu filho, que ela sempre achou que precisaria da sua proteção, estava começando a voar com as próprias asas. Ela abraçou Hiro, um abraço apertado e forte e sussurrou, a voz embargada:
— Meu filhinho… tão crescidinho. Tô tão orgulhosa de você, Hiro.
— Ai — Hiro fez, sendo esmagado.
— Tá bem, vou falar com a Haruka! — Chie disse, pegando o celular. — Torça pra ela aceitar, viu?
— Ela vai. Ah! — Hiro disse, antes de ir para seu quarto. — Fala pra ela não falar nada pra senhorita Mika. Quero que seja surpresa.
E assim, Hiro correu para o seu quarto, fechando a porta. Encostou as costas na porta, respirou fundo com um sorriso no rosto, e correu para arrumar sua mochila. Nela, colocou roupas extras, seu notebook, seus três sketchbooks e, por fim, dois bonequinhos, um do Rintaro e outro da Kaoruko.
— Pra me lembrar de casa — Hiro disse, com um sorriso, ao olhar para os dois bonequinhos antes de os colocar na mochila.
Pôs os dedos sobre o zíper, e por um momento, não conseguiu fechar. Olhou novamente para o próprio quarto, para as coisas familiares e que ele estava tão acostumado. Com um sorriso, fechou o zíper. Aquela decisão mudaria tudo.
E ele queria aproveitar cada segundo.
Enquanto isso, a muitos quilômetros dali…
Osaka, Parque Memorial de Chihayaakasaka. Mesmo horário.
Sentados em um banco, Elke e Ryotaro estavam em silêncio, processando tudo que tinha acabado de acontecer. O choro da alemã já tinha cessado, mas seus olhos ainda estavam vermelhos e inchados. Sua maquiagem não havia borrado pois ela usava a prova d’água.
— Eu não entendo… — Elke sussurrou, quebrando o silêncio. — Por que você me perdoou? Mesmo depois de tudo o que fiz…
— Eu não sou de guardar rancor, senhorita Meyer — Ryotaro respondeu. — Ou pelo menos… tento não guardar. Fora que… eu aprendi a amar os meus inimigos.
— Como assim? — Elke perguntou.
— Se eu só amasse os meus amigos, o que de mais teria nisso? Qualquer um ama os amigos e odeia os inimigos. Mas, como minha mãe sempre fala, eu não sou qualquer um.
Elke olhou para o chão por um momento, ainda envergonhada, e insistiu:
— Mas… eu tentei te fazer duvidar do amor de você com sua namorada! Tentei te pôr em risco! Como você pode amar alguém como eu? Como pode me perdoar?
— Elke — Ryotaro chamou, fazendo ela olhar para ele. — Eu já sofri muito nessa vida. A única coisa que eu quero é não fazer os outros sofrerem. Principalmente por minha causa.
Ele então pôs a mão sobre o ombro dela, e com um sorriso suave, concluiu:
— Então… aceite o meu perdão. Siga em frente. Se você realmente se arrepende, vai tentar começar de novo. E… quem sabe? Talvez a gente acabe se tornando bons amigos.
Elke sentiu os olhos se encheram de lágrimas outra vez. Como aquele garoto podia ter tanta compaixão por alguém como ela? Para ela, isso não fazia sentido. A mulher esperava ódio, raiva, não consolo e amor. Porém, ela se sentia infinitamente melhor por ele ter oferecido isso.
— Sua namorada é alguém de muita sorte — Elke sussurrou, com um sorriso cansado e emocionado.
— Eu que tenho sorte de tê-la — Ryotaro retrucou, se levantando e estendendo a mão. — Vamos indo? Já tá escurecendo.
Elke olhou para a mão estendida, e hesitou por um segundo antes de a segurar. A mão de Ryotaro era um pouco áspera e até calejada, mas também morna. O garoto quieto a ajudou a ficar de pé, e os dois caminharam até a saída. Lá, a mulher alemã deu a ele um pequeno papel com seu número.
— Caso queira conversar algum dia — Elke explicou. — Sem segundas intenções, claro.
— O que vai fazer agora, senhorita Meyer? — Ryotaro perguntou, genuinamente curioso.
— Vou ir para Quioto. Aqueles… homens estranhos… disseram que era melhor eu ir para lá continuar meus estudos. E minha amiga vai me acolher por um tempo.
— Entendi — Ryotaro sussurrou, desviando o olhar. — Bem, então… adeus, senhorita Meyer.
— Não é um adeus, Ryotaro-kun — Elke disse, montando a bicicleta. — É só um “até logo”. Eu ainda voltarei para cá.
Elke então se virou, e começou a pedalar para casa, acenando para ele. Quando ela dobrou a esquina, Ryotaro suspirou, e olhou na direção do túmulo de Yahiko.
— Aposto que você estaria orgulhoso de mim, Yahiko — ele disse, e por um instante, teve a impressão de ouvir uma resposta.
Sanno, Tóquio. Casa de Jun, 19:00.
O baterista havia chegado há pouco tempo em casa. Depois de muita sonolência durante o dia e até alguns ataques de sono, estava completamente desperto durante a noite. Antes de cruzar a porta, ele possuía um sorriso no rosto. Porém, ao entrar, seu semblante caiu na mesma hora.
— Que saco… — ele sussurrou.
— Oi filho! — se ouviu a voz da mãe de Jun, chamada Taeko. — Tudo bem?
— Mais ou menos — ele respondeu, caminhando até a sala de jantar.
Lá, estava a sua mãe, Taeko, e a irmã mais velha de Jun, chamada Kohana. Jun se sentou na ponta da mesa, e apoiou o queixo nas duas mãos.
— O que houve, Jun? — Taeko perguntou, preocupada. — Você tá com aquela carinha de quando a Mochi fica sem comida.
— Levou outro fora, né? — Kohana perguntou, com um sorriso de canto.
— Não enche, Kohana — Jun reclamou, baixinho. — É que… eu acho que passei vergonha.
— Como assim? Por que você acha isso? — Taeko perguntou, inclinando a cabeça.
— Eu… eu tava com os meus amigos na escola. Tava eu, a Mika, a Ayase, a Aiko, o Hiro, o Yuta, a Natália e eu. O Yuta acabou fazendo uma piada muito boa e… eu ri tanto que perdi o controle das pernas. Caí o maior tombo. Na frente de todo mundo. Todo mundo riu.
— Todo mundo?! — Taeko perguntou, incrédula. — Até seus amigos?!
— Não! Eles não! — Jun disse rapidamente. — Mas os outros ao redor riram.
Taeko suspirou, aliviada. Ela sabia que os amigos do filho eram pessoas bondosas, mas seu coração de mãe ainda tinha algumas desconfianças. Com um sorriso gentil, ela perguntou:
— E quanto a sua amiga, a Natália?
— Hein? — Jun fez. — O que tem ela?
— O que ela fez quando te viu cair? Ela ajudou, só ficou olhando… o que ela fez?
Jun desviou o olhar, e lembrou do momento que ele caiu. Todo mundo ao redor rindo, os amigos olhando para os outros com olhares mortais, mas Natália… ela foi diferente.
— Tudo bem? — ela perguntou, estendendo a mão para ele. — Se machucou?
Jun lembrava perfeitamente da expressão que ela fez: os olhos cheios de preocupação, a mão estendida, com um sorriso terno no rosto. Só de olhar para ela, seu coração bateu de uma forma diferente.
— Ela… — Jun sussurrou. — ela me ajudou. Ela foi a única que me estendeu a mão. E… ela me olhou… com aqueles olhos verdes como esmeraldas…
E, sem que percebesse, Jun suspirou, um suspiro apaixonado, e até ficou com as bochechas rosadas. Kohana e Taeko se olharam, e as duas disseram em uníssono:
— Tá apaixonado…
— QUE?! — Jun exclamou, pego de surpresa. — Tô nada!
— Tá sim — Kohana rebateu, dando uma piscadela. — A sua cara diz tudo!
— Oh meu filho! — Taeko disse, apoiando o queixo em uma das mãos. — Tão apaixonadinho.
Jun bateu a cabeça na mesa, ficando vermelho como um tomate maduro.
— Vocês são impossíveis — Jun resmungou, colocando as mãos na nuca.
— Relaxa, irmãozinho — Kohana disse. — Só vai piorar.
Jun enterrou o rosto nas mãos.
“Tô ferrado…”

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