— Ophelia! Ophelia!
Ao ser chamada, a empregada de fios loiros se virou, encontrando-se com suas duas colegas, uma de cabelos ruivos puxando a outra, de fios negros. A ruiva, ao se aproximar, começou a falar:
— A Olga comentou isso comigo, então quis confirmar com você.
Olga, a de cabelos negros, continuou:
— Ouvi que a Madame Leni colocou você como empregada particular da senhorita Talih. É verdade?
Ambas olhavam com expectativa para Ophelia, que, com sua reação, confirmou o boato.
Ophelia riu pomposamente e, brincando com sua franja, respondeu:
— Isso mesmo! Eu sou a empregada particular da senhorita Talih.
As outras duas criadas brilharam os olhos e logo cercaram a colega com perguntas:
— Como ela é?
— Ela é tão gentil quanto parece?
— Quais foram as ordens da Madame?
— Milord comentou algo sobre ela?
Ophelia abanou as mãos rapidamente, soltando um chiado, e logo as arrastou para um canto mais reservado:
— Olga, Odette, por favor, calma! Imagina se a Madame Leni nos escuta fofocando ao invés de trabalharmos...
Ophelia então olhou para os dois lados, com seus atentos olhos verdes checando cada canto. Voltando-se para suas colegas, deu uma risadinha e começou a responder:
— A senhorita Talih é um doce. Quando entrei no quarto dela para arrumá-lo, sabem o que ela estava fazendo? Arrumando as camas! Depois do café, eu a vi com a Madame Leni e a senhorita reagia tão positivamente a tudo que eu sinto... — Ao dar uma pausa em sua fala, Ophelia chamou suas amigas para chegarem mais perto e então sussurrou: — que a senhorita seria uma maravilhosa Lady.
Odette e Olga se espantaram, e logo as três não puderam evitar os risinhos.
— Eu vi Milord tomando suas refeições fora do escritório, sinto que é por causa da senhorita. — Olga sussurrou, não contendo o sorriso.
— Milord também tem contratado algumas mudanças para a mansão. A casa está bem mais — Odette pausou, tentando encontrar a palavra — aconchegante! Tenho certeza de que também é por conta da senhorita. — revelou Odette.
Ophelia abriu a boca em ‘‘O’’, mas logo após isso levou as mãos às bochechas, não crendo no que ouvia:
— Será que... Milord quer deixar a casa mais bonita para ela?
— Talvez ele queira deixá-la mais confortável aqui. Nós vimos o estado em que ela chegou... — Olga lamentou.
— Eu não estava por aqui para recebê-la, mas isso é muito a cara de Milord, sempre sendo muito bondoso. — Concluiu Odette.
— A senhorita estava apavorada. Ela tremia e chorava muito. Agora, ao vê-la tão vibrante, sinto um grande alívio... Todos nós nos preocupamos muito com a senhorita.
Após breves minutos contemplando o conforto que a calmaria da bela senhorita concedia ao coração das servas, Odette interrompeu o momento de paz com um comentário:
— Vocês lembram quando servimos a senhorita Terwoy, quando ela se hospedou aqui na época da antiga Vossa Senhoria, o Lord Hector?
— Aquela megera! Sentia-se a própria ‘Dama dos Caninos Vermelhos’, quando era apenas a filha de um barão.
— Prefiro me lançar ao sol do que receber aquela mulher novamente. Ainda bem que ao menos Lord Manfred não faz a menor questão de fazer negócios com os Terwoy. Aquela criatura não pisará nesta casa tão cedo... Pensando nisso, não era essa mulher que queria se tornar a ‘Senhora do Clã Abravontia’?
— A própria, o demônio criado pelo próprio diabo... Não sabiam que ela é a “Querida Protegida” da Madame Anarevi?
— Aquela mulher infernal já saiu da masmorra?
— Já! E o pior, ela está atrás da herança das terras e do título de cabeça do clã...
— Mas esse é o direito de Milord... Ele é o herdeiro!
— Mas Milord não tem interesse em voltar... Agora, mudando de assunto. Odette, por que tocou nesse tópico da senhorita Terwoy?
— Apenas fazendo uma comparação... A senhorita Talih parece ser muito gentil e, apoiando Ophelia, sinto que ela seria uma ótima Senhora.
— Parando para pensar... Milord passou a parecer bem mais vibrante depois que a senhorita chegou. Será que...
— Meninas! O que estão fazendo?!— A fantasia de Olga foi interrompida pela voz de Leni.
— Madame Leni?! Apenas estávamos comentando sobre os atuais acontecimentos da casa!
Leni cruzou os braços, e seu rosto foi marcado por um sorriso questionador.
— Não há tempo para isso, meninas. Voltem ao trabalho!— E com o som das palmas de Leni, as três empregadas se curvaram e se retiraram cada uma para seu posto.
Leni suspirou, revirando os olhos, mas depois de um momento ponderou sobre o que diziam as empregadas. A governanta sabia que espiar não era de forma alguma apropriado, mas existem certos tipos de informações e visões que são muito interessantes para serem ignoradas, principalmente quando essas opiniões partem das empregadas.
Leni pensou em seu senhor e nos acontecimentos da casa uma semana depois da chegada da senhorita Talih.
“O que aconteceu com Manfred? Jardineiros? Decoradores? A última vez que soube de restaurações nesta casa foi na chegada de Manfred aqui... Será que a senhorita... Não, não, eles ainda não se conheceram, não teria como isso acontecer... Onde está a senhorita Talih?”
Parada no meio da casa, a mão de Leni encontrou seu rosto, e ela passou o que pareceram longos minutos ponderando e pontuando possíveis motivos de tantas coisas terem acontecido no sombrio casarão, e todos eles apontavam para uma só pessoa: a recém-chegada de voz doce como mel e delicada como uma pomba. A governanta expirou e, em passos largos, buscou saber onde estava a senhorita que parecia ter virado a casa de ponta-cabeça.
Obviamente nada daquilo era sua culpa, a senhorita tem sido nada além de um prazer de ter por perto, comparado aos primeiros dias de sua chegada, ela estava bem mais confortável e leve… Como agora, sentada em uma das poltronas próxima à janela, estava a provável protagonista e causadora de todas essas mudanças, delicadamente saboreando um livro aproveitando os raros raios de sol.
— Senhorita Talih, que bom vê-la assim tão leve. — Cumprimentou Leni, alegremente.
Ao ouvir seu nome sendo chamado, Talih fechou seu livro, o deixando sobre a poltrona e caminhou alegremente até a governanta.
— Senhora Leni, que prazer vê-la!
A jovem senhorita estava, sim, diferente comparado ao dia em que chegou, mais vibrante, mais confortável, e mais curiosa. A última sendo uma das mudanças preferidas da governanta.
Talih segurou se no braço de Leni, enquanto a governanta andava com a moça.
— Eu às vezes me pergunto o que aconteceu.
— Por que, senhorita?
— Foram tantas mudanças na casa em uma só semana, que tenho curiosidade de saber o motivo disso.
Leni olhou para a moça de rabo de olho e logo riu.
— Ah, senhorita, tenho minhas especulações, mas realmente não sei o porquê de tantas mudanças — suspirou —, meu senhor apenas as requereu e eu obedeci.
Com um suspiro, Talih aceitou a vaga resposta.
— Porém, quero saber se fiz um bom trabalho, o que achou das mudanças?
— Maravilhosas! Os papéis de parede, as arandelas, velas, cortinas e tapetes! Tudo ficou tão lindo. — Os olhos castanhos brilhavam ao listar cada mudança percebida, Talih sorria e gargalhava encantada.
— Que tal visitarmos seu lugar favorito, então?
Talih conhecia bem aquele caminho, e quando as mãos pálidas de Leni abriram as recém-pintadas portas vazadas, o rosto de Talih se iluminou com a beleza revigorada do jardim.
— Senhora Leni — espantou-se suspirando, caminhando vagarosamente até os canteiros podados — , o que aconteceu aqui?
A pequena mão tocou as flores de hibisco com uma expressão saudosa, as flores tropicais pareciam derreter em suas palmas, e seu suave cheiro invadiu suas narinas.
Leni riu suavemente antes se achegar a moça e dizer:
— O ‘Lírio’ aconteceu. — A governanta apontou para um rapaz que estava no meio do verde.
O rapaz, cantarolando, podava algumas folhas e logo foi distraído por uma das empregadas, Olga, carregando uma sombrinha sobre si e o servindo uma xícara de chá.
— Oh, eu nunca havia o visto por aqui. — Talih apoiou a mão em sua bochecha, tentando puxar alguma memória em relação ao rapaz.
— Ele chegou há alguns dias e já provou ser muito produtivo, ele renovou esse jardim inteiro sozinho! — Leni sorriu, enquanto andava em direção ao jardineiro.
— Realmente, ele fez um ótimo trabalho — Talih riu.
— Ah, bom dia! Madame Leni, — o moço a cumprimentou com o gesto de seu chapéu, e então, seu olhar se desviou para a moça junto à governanta — Ah, você deve ser a tal moça, né? A que todo mundo está falando. — Ele perguntou sorridente.
— Eu? De mim? Por que estão falando de mim? O que estão falando sobre mim? O que eu fiz de errado? — A expressão serena e tranquila se desfez como espuma do mar, enquanto Talih olhava para Leni como uma criança perdida.
Leni afaga as ondas do cabelo da moça, e rindo a tranquiliza.
— A senhorita causou muitas mudanças nesta casa desde que chegou, estamos todos muito felizes em acolher uma senhorita tão gentil, uma novidade é sempre bem vinda, — pausando, Leni olhou para trás, onde uma ruiva criada estava carregando um cesto de roupas, muito mais lentamente do que o comum — se bem que existem pessoas que buscam novidade a todo custo. — bradou calmamente Leni, o que fez a criada finalmente apressar o seu passo.
Talih suspirou mais uma vez, seu coração batia, ainda ansioso, mesmo após tentar reafirmar para si mesma que tudo estava bem, até, levantar os olhos castanhos e encarar a expressão confusa de Lírio.
— Por que a senhorita está toda tristonha? Ao que eu ouvi só foram coisas boas! — O rapaz riu, ajustando seus longos cabelos castanhos.
Talih percebeu que o jardineiro era mesmo um rapaz bem jovem e pela sua voz, parecia ser mais novo do que ela e apenas um pouco mais alto, de expressão serena e despreocupada, combinando com sua feição mais infantil.
— Nada a temer, senhorita… Ninguém falaria algo negativo da senhorita mais querida da casa. — Brincou Leni.
— Pois então, eu me recuso a ouvir qualquer coisa negativa sobre pessoas mais gentis da casa! — Talih riu e ao olhar para o chão, viu uma pequena flor branca. — Sabe, Lírio… Você fez arte com essas flores, muito obrigada! — E pegando a flor, a posicionou no chapéu do jardineiro.
Lírio riu inocentemente, surpreso com a ação.
— Bem que disseram que a senhorita é muito doce.
Talih sorriu encabulada, os olhos castanhos brilhavam, enquanto as orbes azuis da governanta cintilavam a olhar a moça desabrochando entre eles.
— É fácil estando com pessoas tão bondosas, — o olhar da jovem se perdeu pelo belo jardim — essa casa tem sido um refúgio para mim.
"Realmente, ela está bem diferente desde que chegou." Suspirou Leni, ainda em seus pensamentos se lembrando da fatídica noite, onde a vibrante moça a sua frente estava trêmula, assustada, ferida, exausta e traumatizada. Apesar de estar melhor do que antes, para Leni, Talih ainda era um botão… Estava apenas começando a se abrir, já que, pelo olhar treinado da governanta, ela via como Talih ainda facilmente se assustava e procurava ficar o mais quieta possível, buscando ficar apenas em um só cômodo. Como se quisesse tanto não incomodar ao ponto de querer parecer-se com uma mobília da casa. "Talvez pudesse ter algo que a senhorita pudesse fazer para passar o tempo, algo que goste…A senhorita havia dito que era habilidosa com os pincéis, e se?"
— Senhorita, acho bom deixarmos Lírio terminar o serviço, não é? — Leni se aproximou de Talih, tirando algumas pétalas caídas de suas madeixas.
— Claro, me desculpe Lírio. — ao que o rapaz respondeu apenas com um aceno, que foi prontamente retribuído.
Leni e Talih deixaram o jardim e entraram novamente na segura e sombria mansão.
— Estou tão feliz com o estado do jardim!
— Também me encantei com ele… Senhorita, tem estado conosco já há uma semana, imagino que já conheça a residência inteira. — Leni riu
— Bem, eu já conheço algumas das empregadas, a madame e o Lírio, além desses não conheço mais ninguém.
A governanta apenas assentiu, sua expressão satisfeita fazia parecer com que ela havia recebido justamente a resposta que queria.
Leni então lembrou se do que queria testar em relação a Talih
— Pois bem, lembrei-me que há um lugar na casa que ainda não lhe apresentei, e eu adoraria que conhecesse, sinto que se alegraria muito.
A governanta conteve uma risada ao ver os olhos dourados se iluminarem de curiosidade.
— Por acaso, podemos vê-lo senhora Leni?
Leni assentiu e guiou Talih até as escadas que levavam ao porão, que ficava aos fundos da sala de jantar mais simples no andar de cima. Leni abriu a escura porta de carvalho e desceu a longa penumbra do caminho de escadas com Talih pendurada em seu braço, a alertando para não pisar em falso, ou não acabar dando de cara com alguma teia.
— É aqui. — Sussurrou Leni pegando algumas lamparinas para iluminar a sala.
Haviam muitas coisas no cômodo, mas todas cobertas com lençóis, Talih sentia quase como um espasmo de tirar um deles para descobrir o que havia por debaixo. Mas sua curiosidade foi logo saciada quando a governanta tirou apenas alguns desses, revelando...
— Um ateliê! — suspirou Talih, levando as mãos aos lábios.

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