Era quase duas da manhã quando alguém bateu na porta, eu estava completamente concentrado no livro que lia.
Uma das coisas que eu mais gostava de fazer no escritório do Yohan era justamente isso. Ele era um dos poucos amigos que tinham gostos parecidos com os meus, principalmente quando o assunto eram livros.
Suspirei, colocando o marcador entre as páginas antes de me levantar.
Achei estranho alguém batendo, já que normalmente a Lina manda mensagem avisando para irmos embora ou até o Erick manda mensagem se eu preciso de algo para comer ou beber.
Então fui até a porta e destranquei.
Mas me arrependi imediatamente.
Park Min-ho estava do outro lado.
Tentei fechar a porta na mesma hora, mas ele segurou antes que eu conseguisse. Empurrou com força, fazendo a porta abrir de novo e me obrigando a dar alguns passos para trás.
Acabei tropeçando.
— Você é louco?! — Reclamei, falando alto.
— Não sabe que é feio bater a porta na cara das pessoas?
Cruzei os braços.
Tentando lembrar em que momento da vida eu tinha tratado Park Min-ho com educação.
— Diz logo o que você quer e sai.
Ele entrou de uma vez na sala e fechou a porta atrás de si.
Automaticamente eu me afastei ainda mais.
Ele franziu o cenho ao perceber.
Eu sabia que ele não teria coragem de fazer nada comigo.
Mesmo assim… isso não impediria uma briga. Afinal, a maior parte das nossas lembranças de infância envolvia exatamente isso. Eu batendo nele, e sempre começando o primeiro soco.
Mas agora…
Porra.
Ele está muito mais alto que eu.
E… mais forte também.
Eu definitivamente perderia uma briga dessa vez.
— Esse escritório não é do Yohan? — ele perguntou.
— E se for? Vai brigar comigo de novo por chegar perto de algum amigo seu?
Ele riu baixo.
Provavelmente lembrando das várias vezes em que fez exatamente isso comigo.
— Isso é passado. — disse ele. — Eu vim falar de outra coisa.
Ele cruzou os braços, imitando minha postura.
O olhar dele estava sério.
Pesado.
Quase ameaçador.
Mas eu não sentia nada ainda, ele parecia saber muito bem controlar seus feromônios. E parece que até suas emoções.
— Cancele o casamento!
Ele falou rápido, como se tivesse absoluta certeza de que eu iria obedecer.
Mas eu comecei a rir.
Me encostei na mesa atrás de mim e o encarei.
E quando eu ia abrir minha boca, o cheiro do feromônios dele surgiu. Eu queria tampar meu nariz, mas ele iria perceber. Mas ele não estava soltando pouco, era muito e também forte.
Quase como um teste.
O que não fazia sentido nenhum… já que, teoricamente, ele sabe que eu sou um beta.
Olhei em direção ao vidro, e meus olhos continuavam normais.
Isso e bom.
— Você não ouviu o que eu falei? — ele disse.
— Ouvi. — Voltei a minha atenção para ele — Mas não vou fazer isso.
— Acho que você não entendeu. Eu não estou pedindo...
— Chega! — falei o interrompendo. — Eu até fico triste por você… e por mim… já que vamos acabar fazendo parte da mesma família — falei com ironia. — Mas o casamento vai acontecer — dei um passo na direção dele. — Você querendo ou não.
Os olhos dele parece que escureceram. E seus feromônios ficaram mais forte a cada segundo.
Isso não mexe comigo, mas ele soltar tanto feromônios assim, em um lugar fechado... eu não estou acostumado.
— Você sabe que a Lina vai ser infeliz.
Aquilo atingiu um ponto sensível.
Eu sei que estou destruindo a vida da Lina e da Brenda continuando com esse casamento.
— Ela aceitou isso também. — respondi. — Então você não tem direito de opinar.
Park Min-ho deu um passo à frente.
Eu tentei me afastar.
Mas já era tarde, ele me prendeu entre o corpo dele e a mesa.
Ficamos perto demais.
Eu queria saber o que ele sentia, mas nada vinha, apenas seu cheiro forte, deixando um rastro dizendo que "eu sou um alfa dominante."
Só que além de estranho, sobre ele ser a única pessoa que eu não pude sentir as emoções.
Uma coisa que eu vou odiar admitir, mas… o cheiro...
É bom.
Diferente de qualquer outro que eu já tinha sentido.
— Sai de perto, Park Min-ho!
Ele não se mexeu.
Continuei encarando ele, tentando manter a postura.
Mesmo com o cheiro ficando cada vez mais forte no ar.
Eu preciso saber se ele está irritado, eu precisa saber como agir.
— Você não vai se casar com a Lina. — ele repetiu.
Tentei empurrá-lo.
Ele nem se moveu, mas quando me viu com medo. E de fato eu estou. E estranho estar assim com alguém e não saber o que ele sente.
— Merda! — ele finalmente se afastou. Passei a mão pelo rosto, irritado. — Você acha que eu não tentei cancelar isso? — perguntei. — Acha que eu não tentei apresentar outra opção?
— Então não tentou direito.
— Você sabe como é meu avô.
— Sei o suficiente para saber que ele teria outra pessoa em mente. Então sim… você poderia ter escolhido outra pessoa.
— Sério? — Soltei uma risada amarga. — Você acha mesmo que eu ia escolher...
Você?
A palavra morreu na minha garganta. Não consegui continuar.
Só de pensar nisso… já era estranho demais.
Mas naquele momento a porta se abriu.
E Lina entrou.
— O que está acontecendo aqui?
Ela foi direto até mim.
Empurrou o irmão para o lado e segurou meu rosto entre as mãos.
— Você está vermelho. — ela sussurrou. — Seus olhos…
Ela olhou para a mesa.
— Coloca os óculos.
Merda.
Peguei os óculos e coloquei rapidamente.
— Eu preciso sair daqui — murmurei.
Min-ho observava nossa conversa, claramente tentando entender o que estava acontecendo.
— Por que você está aceitando isso? — ele perguntou.
Mas não para mim.
E sim para Lina.
— Eu achei que você gostava da Brenda. — Min-ho continuou.
Lina revirou os olhos.
— Eu gosto da Brenda. Eu amo a Brenda. — Ela cruzou os braços. — Mas esse casamento é algo...
— Não vem com essa.
— Irmão — Lina suspirou — por que você está tão incomodado assim? Esse é o meu casamento.
— Você não vai ser feliz com ele.
— Isso é algo que só eu e o Tae deverimos ficar preocupado.
Ela deu um passo à frente.
O ar da sala ficou pesado.
Feromônios.
Dois alfas dominantes discutindo.
Em um espaço pequeno e fechado.
Era sufocante. Mas ao mesmo tempo suportável.
— Ou você está preocupado com outra coisa? — Lina perguntou.
Min-ho não respondeu, na verdade ele apenas ignorou essa pergunta e falou:
— Ele disse que o avô tinha outra opção. Então por que não escolheu essa?
Segurei o pulso dela discretamente.
Ela entendeu.
Apenas quatro pessoas sabiam da verdade, além de mim, tinha a Lina, minha mãe, meu avô e meu primo... que acabou descobrindo sem querer.
Eu deveria ter me casado com o Park Min-ho.
Mas fui egoísta.
Eu sou egoísta... e deu a opção da Lina para meu avô.
— Essa outra pessoa… — Lina pensou por um segundo — já está comprometida. E não aceitou.
Obrigado.
Min-ho me encarou.
Eu virei o rosto.
Mesmo sendo um ômega raro, alguém que teoricamente, não deveria ser afetado por feromônios de alfas... a combinação dos dois estava me deixando quente. Afinal, essa situação toda nunca aconteceu comigo.
Eu preciso sair daqui.
— Acho melhor você ir. — Lina disse para mim. Mas logo olhou para o Min-ho — E irmão… — Esse casamento vai acontecer. Você querendo ou não!
— Park Lina!
Ela respirou fundo e ignorou o jeito que ele falou.
— Quero você no noivado. Mas se for demais… eu vou entender.
— Eu não vou.
Ele respondeu, mas parecia irritado. Não tenho certeza.
— Na verdade vou agradecer se esse babaca não aparecer. — Falei alto o suficiente para ele ouvir. E mostrei o dedo do meio quando o vi me encarando. Mas logo voltei a me esconder atrás dela.
Park Min-ho ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois virou as costas.
E saiu da sala sem dizer mais nada.
E finalmente eu pude respirar.

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