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Laços de Um Destino Descontrolado

CAPÍTULO 2 - Separação | Parte 1

CAPÍTULO 2 - Separação | Parte 1

Jun 18, 2026

Ao abrir os olhos, a luz do sol entrava pela janela, cegando-o parcialmente. 

Os sonhos se perdiam em sua mente, rostos jovens, montanhas altas, luzes vermelhas, sonhos e esperanças e as várias ideias que ele tinha certeza que eram incríveis desapareciam como fumaça no ar. Ao mesmo tempo, uma dor de cabeça intensa começava a se formar.

Uma luz vermelha parecia iluminar o fundo de seus olhos por alguns segundos antes de desaparecer. 

Ele olhou no reflexo do celular, vendo estranhos borrões brancos, não reconhecendo sua aparência durante alguns segundos. Quando ele piscou, tudo desapareceu.

Gemendo de insatisfação, o homem se levantou da mesa em que estava sentado, percebendo que havia dormido de mal jeito de novo, a dor nas costas o fazendo estremecer.

Droga. 

Ao olhar para a tela do computador, alívio o inundou, percebendo que já tinha deixado-o ligado na tomada. O computador não havia desligado e perdido os arquivos.

Era hora de continuar a escrever, ele sabia o que seus leitores gostariam de ler. Seus desejos, ideais… Tsk.

Não era hora para isso.

A morte de Shi Yu foi um marco difícil de engolir em suas curtas vidas, mas provou-se que não seria a única coisa ruim que Yan Qing e Shi Jiu teriam que viver.

Os cuidadores do orfanato em que viviam, homens que escondiam seu lado grotesco na frente de pessoas que pareciam realmente interessadas em adotar crianças, e sorriam em igual crueldade com aqueles que gostavam de comprar escravos, não tiveram uma reação particularmente emotiva à morte de Shi Yu, tratando aquilo como mais uma fatalidade. 

Shi Jiu teve que se segurar para não começar a xingar um deles, sabendo que isso resultaria em uma surra e provavelmente alguns dias de fome. 

Para ser preciso, quem o segurou foi Yan Qing. Tapando sua boca e o arrastando para longe, para mantê-lo seguro. Shi Jiu ficou furioso, mas no fundo, sabia que seu amigo fazia isso para protegê-lo.

O pão seco e a água que eles lhes davam para alimentá-los não eram nem de longe o suficiente, mas na maioria dos dias era tudo o que conseguiam comer. 

Eles não conseguiram voltar para a cabana naquele dia, assim que juntaram seus ganhos da porta de um restaurante, foram levados de volta para o orfanato. Para sua sorte, os homens que os “escoltaram de volta em segurança” estavam cansados demais para lhes dar uma surra pela demora. Juntando o dinheiro que haviam arrecadado e Yan Qing mantendo Shi Jiu por perto para que não se metesse em problemas, eles chegaram ao quarto que dividiram com outras crianças sem nenhum problema.

Shi Jiu já estava irritado. Ficar na porta daquela droga de restaurante o deixou com os nervos a flor da pele. Ele queria entrar lá e queimar todas aquelas pessoas estúpidas.

Havia uma moça naquele restaurante contando histórias, falando sobre alguma bobagem, como o destino de todos está predeterminado, como isso é sempre inevitável, e os fios vermelhos do destino que os imortais podem ver são a prova.

Uma história visivelmente estúpida.

Ela era uma idiota! Totalmente idiota! Eles não eram reféns da droga do destino! Foda-se essa coisa de pré-determinado!

Essa maldita vida não podia... Não podia ser...

Batida!

Um chute forte derrubou um garoto de uma das camas, Shi Jiu olhando com fúria para ele, com os braços franzinos cruzados sobre o peito.

O garoto chutado, que ele não se importava de lembrar quem era, olhou-o ofendido, gemendo de dor. Seus amigos estavam por perto, fazendo-o estufar o peito, apesar da dor surda do chute.

— Shi Jiu! Pare de nos intimidar! — Ele ainda tentou puxar a coberta para si, mas Shi Jiu foi mais rápido, tirando-a de seu alcance e enrolando o tecido em seus braços.

— Tsk, quem está te intimidando? Não é você que é um inútil? — Shi Jiu retrucou, irritado. Apesar dos leves tremores em seus braços pelo frio, ainda era melhor do que ficar sujo igual a um porco como aqueles outros idiotas. — Pare de pegar minhas coisas, seu pedaço de lixo!

O quarto era mofado, as paredes escuras e as camas duras, com duas ou três crianças aglomeradas em uma única cama, lençóis puídos que mal os protegiam do frio, mas mesmo assim cada criança ali lutaria por uma coberta com tudo de si. Era melhor do que não ter nada.

Aquela pequena gangue improvisada de crianças eram novatos, recém comprados para o orfanato e ainda não entendiam como as coisas eram ali.

Eles realmente ousaram desafiá-lo!

— Você é um valentão! Qing-gege! Ele está nos intimidando, ajude! — Oh, agora Shi Jiu lembrava dele. Mesmo no quarto escuro e difícil de discernir, ele conseguiu reconhecer aqueles olhos grandes e cobiçosos, brilhantes de um jeito que Shi Jiu gostaria de arrancá-los das órbitas.


Era um garotinho cujos pais morreram de doença, veio para o orfanato após vagar nas ruas por algum tempo, assim como Yan Qing. Foi um dos motivos que, quando soube da história do garoto mais velho, ele tentou se aproximar de Yan Qing. 

Yan Qing tinha um sorriso gentil que atraia pessoas sedentas por afeto como mariposas para a luz. Ele tinha esse calor como um sol de verão que atraía todo tipo de idiota vil e cobiçoso. 

Principalmente por ser um dos mais velhos entre as crianças e um dos mais gentis. 

Shi Jiu não era diferente dessas crianças cobiçosas, a diferença, é que ele já havia reivindicado Yan Qing.

Para Shi Jiu, ele era o mais gentil, e por isso, era apenas dele. Todas aquelas crianças do orfanato estavam ansiosas para estar nas boas graças dele, para receberem seu calor. 

Um acalento tão cobiçado desde que foram jogados naquela vida miserável.

Ansiosos por terem alguém a quem se agarrar, quando eles eram menos do que a sujeira sobre as botas das pessoas de verdade.

Shi Jiu também estava sedento por aquele calor, ele e Shi Yu chegaram ao orfanato um pouco depois de Yan Qing. O garoto mais velho tentou alertá-los, dizer que aquele lugar não era o que parecia, mas não importava.

Eles não tiveram escolha naquela época, assim como não tinham quando Shi Yu morreu e continuavam sem ter agora.

Eles só podiam se agarrar a tudo o que lhes era precioso, ou seria arrancado de suas mãos. Shi Jiu não deixaria que tomassem o que era seu sem lutar. Teriam que tirar de suas mãos cadavéricas.

— Gougou, Xiao Jiu só estava brincando. — Yan Qing respondeu com calma. — Não diga essas coisas.

— Quem diabos é seu Qing-gege? Ouse chamá-lo assim novamente e você vai ver! Vou jogar você para aqueles cachorros! — Shi Jiu olhou ao redor, pegando uma tábua de madeira solta, pronto para golpear aquele rostinho com toda sua raiva. 

Seu peito ardia inquieto, cheio de sentimentos que ele não sabia nomear, mas conseguia temer perfeitamente. E se Yan Qing preferisse olhar para aquela cara fofa invés da dele? E se Yan Qing decidisse que preferia aquele garotinho gentil e doce no lugar do irritável e difícil Shi Jiu?

Ele era tão desagradável, tão incômodo, quebrava tudo. Era normal as pessoas não gostarem de Shi Jiu. Yan Qing era o único que ainda tentava.

— Xiao Jiu! Calma! — Temendo pelo pior, Yan Qing puxou o garoto mais novo gentilmente para si. — Está tudo bem agora, nossa cama está livre, não está? 

O “nosso” foi realmente eficaz, fazendo Shi Jiu bufar enquanto abaixava a tábua. 

Yan Qing estava ficando mais velho, e ele tinha outro dormitório com os garotos maiores, mas ninguém realmente se importava com o que as crianças faziam ali desde que não causassem grandes problemas, levando o garoto mais velho a dormir com os gêmeos com muito mais frequência do que não. 

— O que também é seu? Você está com sorte que eu vou te deixar dormir ai! — Shi Jiu resmungou, o tom um pouco menos agressivo, cutucando o braço do garoto mais velho. Yan Qing apenas abriu um sorriso pequeno, puxando sua mão. — Eu não brinco com esses lixos.

— Shi Jiu, pare de ser malvado com Qing… Yan Qing! — Da Ming tentou dessa vez, querendo ajudar seu cúmplice. 

Ele ainda se corrigiu quando o olhar feroz de Shi Jiu foi-lhe direcionado. Era como encarar um espírito vingativo, mas não havia fogo ali para se protegerem dele.

— Pois é! Você acha que é o dono do orfanato só porque morde todo mundo?

— Sim! Não seja um valentão! — Outra voz ecoou, fazendo Yan Qing franzir a testa, um pouco preocupado. Ele não queria que aquilo virasse uma briga.

Shi Jiu era temido entre as crianças porque, mesmo sendo tão novo, ele era, em um consenso quase unânime entre aqueles que já lidaram com ele, o mais feroz ali. Mesmo sendo apenas um, caso entrasse em uma briga com todos aqueles pirralhos, seriam eles que acabariam com lágrimas e ranho, feridos de todas as formas que a criatividade perversa de Shi Jiu poderia conceber.

Ele poderia perder, mas ninguém iria vencê-lo.

Yan Qing fazia questão de protegê-lo, não porque Shi Jiu não podia se defender, mas porque não queria vê-lo ferido.

— Xiao Jiu não está sendo malvado, parem de implicar com ele, está bem? Vamos todos dormir. — Yan Qing pediu gentil, mas firmemente, ignorando o grunhido irritado de Shi Jiu.

Ele não queria que o garoto mais novo se machucasse mais depois da briga que teve mais cedo naquele dia nas ruas.

— Não é da conta deles com quem eu sou malvado, eu posso ser malvado com você quantas vezes eu quiser, quem se atreve a me enfrentar? — Shi Jiu retrucou, agitando seu pedaço de pau novamente, como uma espada poderosa. 

Yan Qing não sabia se ria ou se chorava, ainda puxando Shi Jiu até a cama. Ele não deixava Shi Jiu dormir sozinho desde a morte de Shi Yu, sempre se esgueirando para abraçá-lo até que Shi Jiu conseguisse adormecer.

Ele sabia que seu Xiao Jiu não se sentia seguro em dormir dividindo o quarto com tantas outras crianças, e o único lugar em que ele conseguia adormecer de verdade era na cabana que eles encontraram nos arredores da cidade. A única outra forma era quando Yan Qing estava ali, protegendo-o.

Yan Qing sabia que essa confiança era mais valiosa que ouro.

Finalmente, ele puxou Shi Jiu para dormirem, o pedaço de pau sempre ao alcance das mãos perigosas de Shi Jiu, mas com o garoto menor aninhado em seus braços, com a coberta puída por cima deles. 

Por algum tempo, os olhos atentos de Shi Jiu continuaram o encarando, piscando lentamente, atentos em meio a escuridão, tentando discernir seus traços, mas estava muito escuro. 

— Qin-ge vai reclamar de mim também? — Yan Qing o ouviu sussurrar. Era tão baixo que apenas os dois podiam ouvir.

Apesar das palavras quase assustadas do jovem, seu tom de queixa e bravata faziam parecer um desafio. Ainda assim, Yan Qing apenas abriu um sorriso gentil.

— Não tenho do que reclamar de Xiao Jiu.

Sentindo um beijo leve em seus cabelos, Shi Jiu suspirou, apertando mais o outro garoto.

— É melhor que não tenha.

Yan Qing apenas riu levemente, afagando as costas de Shi Jiu com uma mão, levando a outra até o canto de seus olhos castanhos, esfregando levemente. Ele ouviu um grunhido baixo do garoto mais novo, mas não foi afastado. Sua mão deslizou até a nuca de Shi Jiu, arranhando levemente seu couro cabelo com as unhas curtas.

Por algum tempo, os olhos atentos de Shi Jiu continuaram o encarando, piscando lentamente, atentos em meio a escuridão. Shi Jiu enfiou o rosto no peito do garoto mais velho, abraçando-o possessivamente, sentindo um cheiro doce suave vindo dele, era quente e reconfortante, e sempre pareceu seguro. Essa sensação era uma das poucas coisas que o faziam relaxar. 

Yan Qing sentiu quando a respiração de Shi Jiu finalmente desacelerou, lentamente ficando mais profunda, mas nunca demais.

Não era como se eles tivessem o luxo de dormir profundamente naquele lugar.

Nenhum dos dois era de pensar demais no passado, não trazia nada de bom lembrar dele. Lembrar das perdas e do abandono.

Mas às vezes, Yan Qing desejava que eles tivessem se conhecido em uma situação mais feliz.
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Existe uma lenda que fala sobre fios vermelhos do destino que ligam as almas. Se seguir esse fio, você encontrará a pessoa que está em seu coração.

Imortais podem ver esse fio e compreendê-lo, e é esse laço eterno que permitirá que almas perdidas se encontrem e se reencontrem. Ver o fio vermelho do destino pode salvar as pessoas das formas mais improváveis.

Shi Jiu não acreditava nesse tipo de coisa, não quando o mundo inteiro havia provado que não reservava nada para ele além do desastre.

O mundo inteiro… Exceto Yan Qing.

Mas aquele mundo também queria separar os dois. Jogá-lo em um camnho que Shi Jiu preferiria morrer a trilhá-lo sem seu Yan Qing.

“Xiao Jiu, você quer se casar comigo?”

“Você está louco?!”

“Se você se casar comigo, estaremos juntos pelo resto da vida…”

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