(Shi Jiu chorou naquela noite, seu pequeno corpo agarrado ao do irmão como se pudesse fundi-lo em sua própria carne e sangue.)
O primeiro aniversário de Shi Jiu sem Shi Yu foi difícil. Shi Jiu estava irritado o dia inteiro, chutando e batendo em qualquer um que se aproximasse, mas quando ninguém podia ver, era Yan Qing quem o manteve inteiro. Segurando-o tão forte até que as lágrimas que Shi Jiu fingiu não derramar secassem.
A cada ameaça, a cada tapa, a cada noite fria em que outros meninos e até mesmo os traficantes de escravos riam e cochichavam sobre ele, achando que ele estava dormindo, Shi Jiu se enrijecia mais um pouco, até que Yan Qing conseguisse persuadi-lo a adormecer, abafando as vozes cacofônicas deles com suas palavras tenras.
Os dois garotos ficaram ainda mais próximos depois da perda compartilhada, e Shi Jiu cada dia a mais que passavam pedindo esmola nas ruas alimentava seu plano secreto:
Fugir.
Ele não sabia como ainda, muito menos para onde. Ele só sabia que precisava deixar aquele lugar antes que fosse vendido para algum bordel ou ele e Yan Qing fossem separados.
Talvez fugir de volta para a aldeia de onde Yan Qing veio. Aquele lugar poderia ser seguro, havia pessoas gentis e mesmo sem ninguém, poderiam construir suas vidas ali.
Quando Yan Qing falava sobre aquele lugar, Shi Jiu sempre tinha certa desconfiança, afinal, era dificil para ele acreditar que pudesse haver um lugar tão bom no mundo. Ao mesmo tempo, considerando o quão bobo era seu Qin-ge, fazia sentido que ele tenha crescido em um lugar tão pacífico e amoroso.
Bem diferente da natureza venenosa de Shi Jiu.
(Quando Shi Jiu falava coisas ácidas sobre esse lugar especial, Yan Qing sempre dizia que gostava mais de Xiao Jiu, com espinhos e tudo. Shi Jiu só era aplacado após ser abraçado pelo garoto mais velho.)
Enquanto vasculhava suas memórias, procurando soluções alternativas caso esse plano não desse certo, lembrou-se de que ouviu falar de uma seita de imortais, uma seita que aceitava qualquer pessoa talentosa que fosse até eles.
Talvez pudessem ir para lá, onde os Lius não poderiam alcançá-los. Onde ninguém poderia machucá-los.
Era um bom plano, algo mais concreto.
Eles tinham duas opções, e quando chegasse a hora, seguiriam o melhor caminho.
Infelizmente, a vida tinha outros planos.
Como sempre.
Na verdade, a morte de Shi Yu não foi a única interferência que a família Liu teve sobre a vida de Shi Jiu.
Como se já não fosse o suficiente para esses desgraçados.
Cerca de seis meses depois do ocorrido, uma garota com vestes cor de rosa e uma fala suave, parecendo ter a sua idade, ficou em frente ao lugar onde Shi Jiu estava pedindo esmolas naquele dia, olhando-o com compaixão e lhe dando algumas moedas de cobre. Ela tentou conversar com Shi Jiu, persuadindo-o a falar.
Sinceramente, Shi Jiu queria arrancar as mãos das dela e mandá-la embora, mas ela lhe deu uma prata, o que era mais do que ele receberia em qualquer dia normal. Só por isso, Shi Jiu tentou fingir apenas ser tímido, suas garras escondidas. Ela até limpou um pouco o rosto dele com seu precioso lenço, e Shi Jiu disse que ela era muito gentil.
Tudo parecia normal, mulheres sempre eram mais gentis com eles do que os homens, mas algo estava diferente naquele dia.
Ela estava acompanhada de um garoto que Shi Jiu reconheceu daquele dia na carruagem, ele estava em um cavalo e tinha um chicote e um olhar arrogante, e olhou para Shi Jiu como se ele fosse a sujeira sobre sua bota.
Não era nada diferente do que Shi Jiu estava acostumado. Não, isso era normal, o incomum veio no dia seguinte.
Um dos “cuidadores” do orfanato abriu a porta do quarto que Shi Jiu dividia com Yan Qing e outras crianças com um estrondo e um sorriso de causar arrepios.
— Shi Jiu, venha aqui. — Para ter certeza a quem se referia, ele fez questão de apontar para o garoto. — Você mesmo, venha aqui, pirralho. Vamos! Não vou lhe dar uma surra.
Ele exibia um sorriso que iluminava seus olhos com um ar perverso, e Shi Jiu sentiu vontade de correr e pular pela janela. Fugir para o mais longe que podia. Mas aquele não era um bom lugar para isso.
Yan Qing tentou acompanhá-lo, mas foi enxotado para fora, e a porta do quarto foi trancada por fora para garantir que ele não os seguiria. Por mais que os cuidadores do orfanato não se importassem com eles, todos já tinham percebido como os dois garotos sempre estavam juntos.
Era apenas uma precaução normal para evitar que Yan Qing causasse problemas.
Ele podia ouvir os estrondos de Yan Qing tentando abri-la enquanto se afastava.
Shi Jiu foi levado até um quarto ao lado do escritório principal do diretor, empurrado contra uma muda de roupas que parecia minimamente mais limpa que a que ele usava e uma bacia com água.
— Limpe-se, e trate de parecer apresentável. — Ele ordenou.
Shi Jiu, com total naturalidade, respondeu a isso cuspindo em sua direção com um olhar venenoso.
— Você…!!
Ele apontou na direção de Shi Jiu, furioso, levantando a mão para o que Shi Jiu sabia que seria um tapa. Contudo, a dor surda não veio, e o velho barrigudo se controlou, optando por puxar o cabelo de Shi Jiu.
— Seja obediente, não posso danificar uma boa mercadoria, seu merdinha!
Ele disse, empurrando o rosto de Shi Jiu dentro da bacia com água, o fazendo engasgar-se.
Shi Jiu se vestiu o mais lentamente que pôde, cuspindo insultos naquele homem horroroso, sendo a única coisa que era capaz de fazer ali e sabendo que estava testando a paciência do homem.
Ele sabia o que o aguardava. Sabia que ele estava prestes a ser “adotado”. Isso nunca era algo bom. Ele não tinha Yan Qing ali, ele não sabia para onde seria levado, e se ele fosse levado para fora da cidade… Talvez ele não conseguisse mais ver Yan Qing.
Então Shi Jiu tentou fazer o homem espancá-lo, insultando-o, até apelou para ofender seus pais! Provavelmente o comprador não iria querer uma mercadoria danificada.
Infelizmente, suas provocações foram em vão, nem mesmo seus melhores xingamentos aprendidos no bordel foram suficientes, apesar de deixá-lo visivelmente irritado, ele não encostou mais nenhum dedo em Shi Jiu. Aquele desgraçado parecia mais interessado no dinheiro que Shi Jiu poderia lhe render do que em espancá-lo.
— Este é o jovem de quem o senhor estava falando, senhor Liu! — Ele disse orgulhosamente, com uma mão sobre o ombro de Shi Jiu, que parecia conter o peso da casa inteira. Shi Jiu sentia uma coceira em seu ombro, uma vontade de esfregar até a sensação daquela mão em cima dele sair. Nojento.
O adolescente que estava diante dele era bem conhecido, Shi Jiu sabia que já o tinha visto, ele estava junto daquela garota.
— Hm, ele parece bom. Irei levá-lo. — Com um gesto de indiferença, o adolescente tirou um saco de taéis e jogou na mesa, ordenando que o homem tirasse o valor e lhe devolvesse.
Ali provavelmente havia mais prata do que Shi Jiu já vira em toda sua vida, e ele olhou para o garoto com um misto de inveja e rancor, se perguntando como aquela criatura nojenta poderia ter tanto apenas por ter tido sorte ao nascer.
Depois disso, Shi Jiu não teve tempo de se despedir de Yan Qing, levado para a carruagem do garoto Liu. Os olhares que ele lhe lançava faziam Shi Jiu estremecer de desgosto.
Mas Shi Jiu sabia como era esse tipo de gente, e conhecia bem seu lugar.
Ele não podia lançar-lhe o veneno que obstruiu sua garganta, não. Isso seria perigoso. E se ele batesse em Shi Jiu até a morte?
Por mais que a tentação de se juntar a Shi Yu fosse forte, Shi Jiu não poderia deixar Yan Qing. Ele era muito bobo, e se fosse enganado por alguém? Não, Shi Jiu precisava ficar vivo.
Ter sido comprado era ruim, mas era sempre isso, sempre havia uma próxima coisa ruim em sua vida com a qual ele tinha que lidar.
Ele destruiria cada uma delas e cuspiria em todas, como sempre.
Ele sorriu, satisfeito, clicando no botão de upload.
Mais um capítulo concluído. Seria um grande plot-twist. Será que aquele idiota convencido iria finalmente calar a boca?
Ah, sua querida história… Ele olhou com certa nostalgia para a tela a sua frente, olhando todas aquelas milhares de palavras, milhares de horas de sua vida…
Será que tinha valido a pena? Mexer com esse mundo? Transformar essa história que ele tanto havia apreciado nisso?
Ele bateu as mãos contra as bochechas com um estalo alto. Não! Ele não podia pensar nisso.
Concentre-se no que é importante… Viver mais um dia…
Ele se jogou contra a cadeira, fazendo-a ranger. Seu corpo estava tão cansado… Ele só queria dormir um pouco…
Só… Só um pouquinho…
Tudo ficou escuro no instante seguinte.

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