O plano deles era simples: traçar uma rota de fuga, ir para o mais longe possível, e não voltar nunca mais.
Era basicamente uma continuação do plano de fuga anterior, porém devido às circunstâncias, estava um pouco mais complexo.
Como tudo o que é ruim, poderia ficar pior, o inverno estava chegando. O décimo mês lunar trouxe os ventos frios do outono e fazia parecer que aquele inverno seria mais difícil.
O que significava que tornaria ainda mais complicado escaparem durante a neve e o frio. Shi Jiu se recusava a lutar tanto para morrer pela natureza!
Então, apesar de não ser o melhor plano, Shi Jiu passaria o inverno com os Lius.
Os meses que se seguiram foram, para dizer o mínimo, infernais. Exatamente como o esperado, de um jeito que apenas as coisas ruins poderiam ser ao suprir as expectativas.
Shi Jiu nem sempre apanhava todos os dias, só quando Liu Bo estava entediado, ou quando ele fazia algo que irritava o Jovem Mestre.
O que era com uma frequência muito grande.
Liu Bo às vezes só queria espancá-lo porque se divertida com as reações de Shi Jiu, elogiando-o como a um cachorro por apanhar bem.
Sua cabeça iria acabar virando uma cadeia de montanhas de tantos galos que ele estava adquirindo por causa desse desgraçado.
Shi Jiu fantasiava com o dia que pegaria aquela espada apoiada na parede do escritório e empalaria Liu Bo nela, de baixo para cima, cortando o máximo de órgãos que pudesse e causando o máximo de dor que ele conseguia.
Se ele não o espancasse, pelo menos Liu Bo o insultaria, lembraria a Shi Jiu que ele não era nada mais que um cachorro que vivia porque Liu Bo permitia, que comia porque ele lhe dava essa graça, que só poderia respirar porque Liu Bo diria que sim.
Ele era sempre lembrado o quanto devia a família Liu por ser tão bondosa em transformar um rato sujo como ele em um membro da família, como lhe era permitido estudar, e ter uma vida boa.
Liu Bo começou a ensinar Shi Jiu, e permitia que ele frequentasse algumas aulas com Liu Fangfei. Shi Jiu aprendeu a escrever a um ritmo acelerado, sua mente afiada tornando-o um aluno que o professor não deixava de elogiar, mesmo que relutantemente.
Se pudesse, Shi Jiu ficaria estudando até mesmo de noite, mas quanto mais se esforçava, mais sua vista começava a embaçar, as palavras parecendo se duplicar levemente, não suficiente para ele ver duas de uma vez, mas como se água tivesse sido derramada sobre a página, tornado tudo o que estava nela turvo e confuso.
Felizmente, ele conseguiu esconder esse pequeno problema das pessoas na mansão Liu.
Liu Fangfei era o único lado que poderia ser considerado pelo menos levemente positivo em toda aquela situação maldita. Ela era gentil e doce, e o protegia de Liu Bo, mesmo sem saber. Shi Jiu passou a sempre tentar estar perto dela, participar de suas atividades, mesmo que fosse observar as flores ou pintá-las. Shi Jiu só queria estar seguro.
Ele e Liu Fangfei tinham a mesma idade, mas não poderiam vir de mundos mais diferentes.
Liu Fangfei sabia que seria atendida quando chorasse, se ela desejasse algo, ela teria. A mãe deles morreu quando ela era muito jovem, mas a menina ainda foi muito mimada pelo pai e o irmão.
Ela podia falar de histórias que lia nos livros como se fossem possíveis. Levava-o para restaurantes onde Shi Jiu antes apenas esperava na porta tentando conseguir a simpatia de algum cliente para lhe dar uma esmola, enquanto ouviam moças bonitas contarem fofocas de outros condados, histórias sobre grandes amores imortais, sobre como o amor unia as pessoas através de seu destino, seus fios vermelhos conectados e os guiando rumo a felicidade.
Ela não sabia mentir bem, quando quebrou algo, ela correu chorando para Liu Bo, e foi consolada por ele.
Aquele monstro que nunca hesitava em dar um tapa em Shi Jiu por qualquer erro a abraçava forte e cuidava dela. Ela nunca viu um dia difícil em sua vida.
(Depois, Liu Bo espancou Shi Jiu por isso, dizendo que ele não cuidou bem de Fangfei, que ela chorou enquanto Shi Jiu estava próximo. Que por culpa dele, o vaso inestimável da família estava quebrado, que Shi Jiu estava sendo ingrato. Shi Jiu não podia contrariá-lo.)
Desde cedo, Shi Jiu aprendeu a mentir. Ele era um bom mentiroso.
Ele mentia para tentar fazer seus pais gostarem um pouco mais dele.
Mas ele ainda não era bom o suficiente em se parecer com seu irmão. Não conseguia esconder bem suas arestas afiadas, e só conseguia irritar os pais.
Então, quando percebeu que eles só o viam como um fardo, desdenhou.
Garantiu a Shi Yu que não se importava que não fosse desejado por aqueles que deveriam amá-lo. Isso também foi uma mentira.
Mentiu quando resmungava que não se importava por Shi Yu ter vindo atrás dele e ficado ao seu lado naqueles anos difíceis, abrindo mão de uma vida com os pais.
Mentiu que não tinha nenhum problema para enxergar quando ficava escuro, sobre estar com fome quando claramente havia comido pouco.
Ele mentia todos os dias enquanto mendigava nas ruas, tentando fazer as pessoas lhes darem esmolas.
Escondia que estava sendo agredido por Liu Bo, para fazer Liu Fangfei sorrir.
A única pessoa com quem ele era um pouco mais sincero era Yan Qing. Shi Jiu fazia questão de lhe dizer cada injúria que sofria na casa Liu, reclamando de tudo e mais um pouco, enquanto o garoto mais velho o abraçava e confortava, tentava seu melhor para cuidar dos ferimentos de Shi Jiu.
Nem sempre Shi Jiu dormia no quarto dentro da mansão. E naquele inverno, Shi Jiu dormiu muito mais vezes no galpão de lenha. Deixado lá para aprender com seus erros e congelar, mas nunca o suficiente para matá-lo.
Não, Liu Bo não queria perder seu brinquedo.
Nessas noites, Shi Jiu tinha certeza que não morreu graças à dedicação de Yan Qing. Ele sempre dava um jeito de vir até Shi Jiu, cuidar dele. Trazia comida, sabendo que Shi Jiu não havia se alimentado bem, e os dois dormiam abraçados para se manterem aquecidos.
Ambos tiveram várias queimaduras de frio, e Shi Jiu ficou com febre três vezes.
Talvez felizmente, Liu Fangfei percebia facilmente quando Shi Jiu adoecia de verdade, mesmo que fosse alheia às surras que seu irmão impunha ao escravo. O que fazia com que ela sempre trouxesse um médico para cuidar de Shi Jiu.
Pelo menos, Liu Bo não o espancava quando Shi Jiu estava assim, apenas fazendo pequenos comentários que Shi Jiu entendia muito bem.
”Olhe como Fangfei te trata bem, você é abençoado.”
“Fangfei é tão boa para você, seja grato.”
Na frente de Liu Fangfei, seu tom quase parecia gentil, fazendo a garotinha corar sob os elogios do irmão mais velho. Shi Jiu via o olhar de satisfação quando Liu Fangfei elogiava o irmão de volta, quando o abraçava. Aquela ganancia nos olhos de Liu Bo não era um carinho de um irmão.
Era nojento.
Quando Shi Jiu estavam sozinhos, Liu Bo falava baixo, apenas para que Shi Jiu o ouvisse.
“A maioria dos ratos como você já estaria morto, apodrecendo em alguma sarjeta.”
“Fangfei só olha para você porque eu deixo. Porque você me diverte. Mas se ela soubesse quem você realmente é... um cão de rua, um parasita... nem te dirigiria a palavra.”
Ele podia sentir as contrações em seu peito com essas frases, o medo corroendo seus ossos, temendo que Yan Qing desistisse dele.
“Acha mesmo que alguém se importaria com você, se não fosse por mim?”
Como um veneno gotejado lentamente em suas veias, como sussurros ao vento que espalhavam a neve até que seus flocos estivessem presos em Shi Jiu.
“Você é só um reflexo do que eu quero que você seja. E o dia que parar de me entreter, vou dar um jeito de fazer você desejar nunca ter nascido.”
E quando Shi Jiu ficava em silêncio, com os punhos cerrados e o maxilar tenso, Liu Bo apenas ria. Uma risada baixa e satisfeita. Shi Jiu era seu, e o obedeceria bem. Ele treinaria Shi Jiu do jeito que desejava.
O médico da família Liu sabia muito bem que não deveria contar sobre o estado completo de Shi Jiu, e suas repetidas febres foram atribuídas a sua antiga vida difícil e estatura fraca. Mas pela primeira vez Shi Jiu recebeu tratamento médico, sendo cuidado (principalmente porque Fangfei era muito insistente quando queria), e garantiu isso.
Ele apenas forçava um sorriso quando ela falava tão orgulhosa o quanto ele deveria estar feliz por tê-la ali para cuidar dele. Como a vida ali era melhor.
Shi Jiu queria Yan Qing consigo.
Era mais difícil para Qin-ge visitá-lo nesses dias, mas quando todos dormiam, Yan Qing eventualmente aparecia, nem que fosse para apaziguá-lo e ajudar Shi Jiu a dormir.

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