Os dois estavam lapidando seu plano de fuga. Yan Qing estava grande demais para pedir esmola e ele não era convincente o suficiente, então os traficantes de escravos o mandavam vigiar as crianças menores, ou o levavam para outros trabalhos. Se ele não fosse vendido nem como servo, talvez acabasse trabalhando para os próprios traficantes. Eram essas suas opções de futuro.
Yan Qing aprendeu a usar isso ao seu favor, aprendendo rotinas, ouvindo planos de venda e compra, e com Shi Jiu, traçando seu próprio plano de fuga.
Eles lhe diziam que ele tinha sorte, e se não fosse “adotado”, talvez pudesse se tornar um servo do orfanato. Pelo menos, nesses momentos, Yan Qing sabia abaixar a cabeça, e parecer grato. Funcionava bem.
Era Yan Qing que preparava a fuga que ele e Shi Jiu teriam.
Eles fugiriam na primavera, caso fosse necessário adiar, no começo do verão, quando o clima quente deixaria todos distraídos, e haveria mais comida nas florestas.
Porém, como sempre, o destino tinha suas próprias formas de pregar peças neles.
Shi Jiu já deveria estar esperando alguma nova desgraça, ainda assim, aquela tragédia mascarada como grande fortuna foi tão inesperada que nem mesmo Shi Jiu poderia rever isso.
Aconteceu após o ano novo, algo que deixou Shi Jiu atordoado, mas sua reação foi rápida, e ele parecia estar feliz. Ele conseguiu mentir rápido o suficiente para deixar sua mestra feliz também, mesmo que quisesse vomitar.
Ele ficou noivo de Liu Fangfei.
A garota dizia estar feliz, segurava sua mão sempre que possível, e Shi Jiu de repente quis arrancá-la.
Talvez arrancar sua pele junto, quem sabe isso removesse a sensação de sujeira de Shi Jiu.
Ficou mais difícil para Qin-ge vir visitá-lo, mas ele sabia que o garoto mais velho também soube.
Quando ficou sozinho, finalmente sozinho, Shi Jiu vomitou, tremendo da cabeça aos pés como uma vara de bambu.
Ele estava noivo, planejavam casá-lo com Liu Fangfei.
Quando eles fizessem 16 anos. Nem esperariam pela maioridade deles, como se Liu Bo temesse que algo acontecesse.
Ele devia imaginar que talvez acabasse se divertindo demais e Shi Jiu poderia não resistir, porque claro que isso não seria o suficiente para deter esse desgraçado de fazer o que quisesse. E se Liu Fangfei fosse casada em casa, caso seu “marido” morresse, ela continuaria ali. Chamando-o de Bo-ge, sendo gentil e fofa, abraçando seu irmão mais velho e estando ao seu lado.
Absolutamente repulsivo.
Shi Jiu sabia que era uma peça daquele plano doentio, ele sabia desde que Liu Bo disse a Liu Fangfei que o adotou. Que ele era agora parte da família, mas não era irmão dela.
Agora Shi Jiu seria genro da família Liu, o Mestre Liu comentou, com um sorriso que espelhava a perversidade de seu filho. Ele ajudaria Liu Bo nos negócios e cuidaria da preciosa Fangfei deles.
A mesma família que matou seu irmão, eles queriam torná-lo seu genro.
Seu maldito fodido genro!!
Liu Fangfei sorria brilhantemente, agarrada ao braço de Shi Jiu como se pudesse fazer o dia do casamento chegar mais rápido pela pura força de vontade, tagarelando sobre como o encontro deles foi destinado, como ele era a escolha perfeita, como seus fios do destino deveriam estar alinhados. Ele seria o genro perfeito para a família.
Ele estaria preso naquela família para sempre, preso naquela casa, tendo que obedecer Liu Bo, tendo que ser um marido para Liu Fangfei, aquelas surras nunca acabariam. Shi Yu ficaria enojado com ele, vendo-o fazer parte daqueles que lhe tiraram tudo. Yan Qing ficaria desapontado, talvez desistisse finalmente de Shi Jiu, vendo-o ter uma vida melhor, iria embora e deixaria Shi Jiu naquele inferno.
Yan Qing o encontrou assim naquela noite, seus braços apertando-se enquanto tentava conter os tremores, seu estômago não tinha mais nada para pôr para fora. Ele não podia cuspir sua alma e seu desprezo pela criatura repulsiva que habitava embaixo de sua pele.
— Qin-ge… Eu vou casar com ela…. — Shi Jiu sussurrou, sua voz rouca pelo choro, agarrado ao garoto mais velho como se este fosse sua tábua de salvação.
— Shhh… — Yan Qing acalentou, seus dedos gentis nos cabelos encharcados de suor de Shi Jiu, beijando sua testa com uma gentileza que Shi Jiu não merecia, mas ansiava desesperadamente. — Xiao Jiu não vai, tá bem? Vamos fugir essa primavera.
Shi Jiu balançou a cabeça, querendo acreditar naquelas palavras. Querendo que fosse verdade.
E se não desse certo? Porque afinal, o mundo nunca lhe foi gentil, nunca permitiu que Shi Jiu tivesse coisas boas por muito tempo.
E se lhe tirasse Qin-ge também?!
Se ele perdesse Yan Qing também….
Não!!
Eles não podiam tirar Yan Qing dele. Qing-ge… Qing-ge não podia deixá-lo, ele não podia!
Yan Qing não tinha permissão! Ele pertencia apenas a Shi Jiu! Se ele o deixasse, então… Então… Então era melhor estar morto! Yan Qing nunca poderia deixá-lo!
— Qin-ge, você não pode me deixar! — Shi Jiu exigiu, ainda tremendo, o segurando como se sua vida dependesse disso. O rosto do outro garoto estava turvo pela escuridão e pelas lágrimas, mas Shi Jiu ainda assim tentou olhá-lo, gravar aquele rosto em suas memórias.
— Mn. — Yan Qing segurou as mãos de Shi Jiu, entrelaçando seus dedos.
Ele se inclinou, beijando as pálpebras úmidas de Shi Jiu, cheio de ternura.
— Eu não vou, nunca. Vou estar sempre com Xiao Jiu.
Como se para provar seu ponto, Shi Jiu sentiu um arrepio leve percorrer sua palma, aquela energia brilhante surgindo sutilmente enquanto se enrolava em suas veias.
As “artes imortais” que os dois possuíam desde novos eram um segredo bem guardado por eles e Shi Yu, algo que estava dentro deles, que lhes dava força e poder.
Eles eram como os heróis das histórias contadas nos restaurantes. Eles tinham poderes que mortais normais não tinham. Eles poderiam voar em espadas e matar monstros.
Algum dia, eles viveriam juntos para sempre.
Yan Qing sabia que seria perigoso se descobrissem que eles possuíam esse poder. Ele viu o que aconteceu com San-Jie, levada por alguns cultivadores desonestos como “concubina”.
Mesmo não entendendo totalmente o que significava usar alguém como caldeirão, como ele havia ouvido dizer que fariam com San-Jie, ainda não era um risco que ele poderia se colocar, ou permitir que os gêmeos corressem.
Felizmente, ninguém descobriu esse dom deles, e talvez pudessem usar isso para fugir.
Talvez poderiam até mesmo se juntar a alguma seita de cultivo das muitas existentes. Poderiam ter poder e influência, até mais que a família Liu. Então voltar e destruí-la.
— Xiao Jiu. — Yan Qing chamou, hesitante.
— Mn? — A resposta de Shi Jiu foi fraca, mas presente, não querendo conversar.
— Vamos nos casar? — A voz de Yan Qing era baixa, quase inaudível, mas ainda assim fez Shi Jiu erguer a cabeça num sobressalto, os olhos arregalados de choque.
— O quê?! Repita isso, Qin-ge!
Yan Qing não estava olhando diretamente para ele, e apesar do quarto estar escuro, a luz da lua era suficiente para Shi Jiu perceber o rubor se espalhando pelo rosto do garoto mais velho.
— N-não precisa se você não quiser! — Ele se apressou, a voz quebrada pelo nervosismo. — Mas… mas se Xiao Jiu já for casado, então… então o vínculo com Liu Fangfei não vai contar, certo? Não enquanto… não enquanto eu estiver vivo. Eu só… eu só pensei que… que podemos nos preparar e… isso poderia deixar Xiao Jiu mais tranquilo.
Ele não tinha muito conhecimento prático ou teórico na área, não sabia como realmente funcionam as relações cármicas, ou se isso era verdade, mas talvez estivesse certo? Se isso pudesse, ao menos em partes, impedir esse casamento com Liu Fangfei…
Shi Jiu piscou lentamente, olhando diretamente para o rosto borrado Yan Qing, seus olhos que finalmente ficaram secos, voltaram a se encher de lágrimas. Então, abraçou Yan Qing com mais força.
— Eu aceito. — Shi Jiu murmurou baixinho. — Qin-ge vai casar comigo. Será meu. Para sempre. Você entende? Você será meu pelo resto da sua vida. E quando nos tornarmos imortais, pelo resto da eternidade.
E então nunca mais poderá me deixar.
Yan Qing suspirou de alívio, seu medo de ter chateado Shi Jiu desaparecendo enquanto ele o apertava mais forte.
— En. Nada vai nos separar. — Ele prometeu, beijando o cabelo de Shi Jiu.
Os dois não podiam ir a um templo, e não tinham pais, então tudo foi feito ali na hora.
Shi Jiu usou o que aprendeu em escrita para pegar um papel que havia no quarto, e escreveu os nomes dos pais de Yan Qing, junto do nome de Shi Yu. Eles não poderiam se prostrar diante do túmulo de Shi Yu, então fizeram esse pequeno gesto simbólico.
Puxando o tecido da cama para usar como um véu, Shi Yu cobriu a cabeça, com a ajuda de um Yan Qing que riu baixinho, achando-o adorável. Shi Jiu chutou sua canela, perguntando qual era a graça.
— Somos ambos homens, talvez Xiao Jiu não precise cobrir a cabeça?
— Não sabemos como os casamentos funcionam direito, e já estamos improvisando muita coisa, melhor não tirar mais elementos! — Shi Jiu reclamou, tremendo que talvez seu casamento não pudesse ser válido diante dos imortais com tantas peças faltando.
Mas não importava! Eles se casariam! Seriam maridos com laços eternos, seus destinos unidos na vida e na morte!
Shi Yu aprovaria? Ele ficaria feliz por eles? Acharia que os dois fazem um bom par?
Mas Shi Yu não estava ali para opinar.
(Por culpa de Shi Jiu.)
— Acho que temos tudo? — Yan Qing perguntou, após Shi Jiu estar ajeitado em seu véu improvisado, com os papéis representando seus ancestrais a sua frente.
— Temos. Agora… as três reverências.
Os corações dos dois garotos estavam martelando em seus peitos, cheios de ansiedade. Os sons da noite pareciam silenciados em meio a emoção daquele momento.
Eles não estavam de vermelho, não tinham caracteres da felicidade, não havia símbolos auspiciosos ou mesmo o cálculo para a data e hora auspiciosa.
Apenas dois corações ansiosos por nunca se perderem um do outro.
Eles fizeram a primeira reverência. Curvem-se aos céus e à terra. Que as forças divinas do cosmos que os colocaram juntos os abençoem. Que eles nunca se separem.
Para baixo e para cima.
A luz da lua irradia com uma intensidade quase vertiginosa, enquanto o mundo parece silenciado.
Para baixo e para cima novamente. Curvem-se aos ancestrais. Que eles os abençoem e os protejam.
Duas vezes.
Por fim, a última reverência.
Curvem-se um ao outro.
Para baixo e para cima novamente.
Três vezes.
Casados para toda a vida.
As mãos de Yan Qing tremiam enquanto ele erguia gentilmente o “véu” de Shi Jiu, os dois se entreolharam sob a luz da lua, lutando para conter as lágrimas que embaçavam a visão.
Yan Qing segurou as mãos de Shi Jiu, rindo baixinho quando percebeu que estavam tão trêmulas quanto as suas próprias.
Com os dedos entrelaçados, Yan Qing beijou a testa de Shi Jiu, cheio de carinho, e então sua bochecha, colorida com um tom adorável de rosa. Seu rosto também estava quente, provavelmente espelhando seus sentimentos.
Em uma suavidade reservada para poucos, Shi Jiu beijou a bochecha de Yan Qing também.
— Estamos ambos vermelhos. É auspicioso. — Ele murmurou, arrancando um sorriso de Yan Qing. Os dois se abraçaram com força, acalentados pelo laço firme que os unia.
Seus olhos fechados não perceberam um fio vermelho brilhante ao seu redor, parecendo mais grosso, mais forte.
Unidos para além da vida.

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