Yan Qing dobrou seus esforços em planejar a fuga, acumulando tanto dinheiro quanto era possível para que pudessem pelo menos não estar em uma situação tão ruim quando escapassem. Ironicamente, a prata que Liu Fangfei deu para Shi Jiu naquele dia fatídico era seu maior bem monetário.
Voltar para sua antiga aldeia era um plano bom, mas arriscado, e eles sabiam que caso fossem seguidos de alguma forma, não teriam como se proteger lá. O anonimato era sua maior vantagem naquele lugar.
Contudo, seria uma boa rota, mais distante caso fossem para a seita imortal. Eles poderiam descansar e recuperar suas forças. Levaria mais tempo, mas com seus recursos, era a melhor opção.
Ele preparou armadilhas, discretas, imperceptíveis. Após ver Xiao Jiu fazê-las, Yan Qing pegou o jeito da coisa. De qualquer forma, quando fugissem, seria uma distração para os cuidadores zelosos do orfanato e para os Lius.
Ele não poderia perder Xiao Jiu, muito menos para aquelas pessoas.
Não poderia perder seu marido para uma família cruel que queria roubá-lo.
No dia combinado, Yan Qing esperou no local combinado. Eles decidiram que seria mais seguro para Shi Jiu sair da mansão sozinho. Yan Qing preparou todo o caminho para Shi Jiu vir até ele.
Era perigoso, e Yan Qing ainda estava preocupado, mas confiava em seu Xiao Jiu.
A hora chegou, e então passou. Yan Qing continuou esperando, ele sabia que poderia haver imprevisibilidades no caminho. Xiao Jiu viria, ele só precisava esperar.
Quando o dia se tornou noite e então amanheceu de novo, Yan Qing já estava certo de que havia algo errado. Ele estava prestes a ir novamente à mansão Liu em busca de Xiao Jiu, quando um homem estranho o abordou.
Ele ficou em guarda, é claro, contudo….
Acontece que houve uma surpresa boa em meio a tanta desolação, algo que Yan Qing não achou que poderia lhes acontecer.
Mesmo que tivesse conhecimento de que ele e Xiao Jiu eram talentosos, ele não esperava ser diretamente recrutado para uma seita.
Aquele homem desconhecido era cultivador de uma seita famosa, que não se importava com a origem de seus discípulos, desde que fossem talentosos e dedicados, e lhe ofereceu para mudar sua vida, torná-lo um cultivador. Yan Qing sabia que só poderia ir com Xiao Jiu. Parecia ser a mesma seita para onde eles estavam indo.
Parecia bom demais e Yan Qing ficou desconfiado, ele já havia sido enganado com um discurso parecido no passado.
— Como posso saber que o senhor fala a verdade? — Ele quis saber.
O cultivador, paciente, ergueu a espada, fazendo-a flutuar antes que ele subisse sobre a lâmina. Os olhos de Yan Qing se arregalaram, com total deslumbre.
Aquele homem… Ele estava…
— O senhor está voando.
O cultivador deu um sorrisinho convencido, pulando novamente no chão.
— É bom que exija provas. Estive lidando com um farsante há pouco tempo. — O cultivador o elogiou.
E como se para completar a frase do cultivador, Yan Qing, é claro, pediu uma prova de que ele era, de fato, parte da seita que dizia ser.
Não era típico de sua natureza ser tão cauteloso, contudo, não era apenas sua vida que dependia disso. E Yan Qing não poderia correr o risco de tirar Xiao Jiu de um inferno e colocá-lo em outro.
— Você é um garoto prudente. — Elogiou o cultivador, sabendo que era um risco real aquela pergunta.
O homem lhe mostra uma insígnia, um selo de jade mais puro que Yan Qing já viu em todo sua vida, com entalhes em ouro. Aquele simbolo, inicialmente, parece desconhecido. Levou alguns momentos para que Yan Qing a reconhecesse, lembrando-se das histórias sobre aquela seita. Eram contadas como parte dos contos etéreos de imortais poderosos e incalcançaveis.
A Seita da Montanha Tian Dao.
A maior seita do mundo do cultivo.
Onde nascem as lendas.
Era, de fato, a mesma para a qual eles planejaram ir.
O destino tem jeitos de ser engraçado, de fato.
Yan Qing tremeu ao perceber a situação que eles poderiam realmente mudar de vida. Não iriam só fugir e tentar a sorte. Eles poderiam… Talvez poderiam ter um novo futuro.
Um futuro muito mais seguro. Não era uma tentativa, não era um ‘e se’, pela primeira vez, era uma… Uma certeza.
— Não estou sozinho. — Ele contou, tentando conter a hesitação que apertava seu peito. — Eu… eu tenho um parceiro. Ele é meu… Meu marido. Não posso deixá-lo.
Seu rosto estava em vermelho brilhante enquanto dizia essas palavras. Ele ainda não estava acostumado totalmente com isso, mas afinal, era um bom momento para usar o vínculo que os unia.
O cultivador parecia bastante divertido com o comentário.
— Meu… Meu marido, se ele… Também tiver potencial para cultivo, ele poderia vir também?
Yan Qing respirou fundo, apertando a mão forte, ele olhava nos olhos do cultivador, sua determinação ardendo por trás de seus olhos.
Quando soube que sim, não havia mais uma sombra de dúvida em seu coração: a decisão estava tomada. Era a melhor chance para eles, desde que Xiao Jiu concordasse.
Mas quando ele foi atrás de Shi Jiu, ele não o encontrou apenas no depósito de lenha como sempre.
Estava trancado. Todas as entradas, fechado como uma joia bem protegida em um cofre.
Hesitante, Yan Qing bateu na porta, um pequeno código que eles fizeram para se reconhecerem. Uma batida, pausa, duas batidas.
Estou aqui.
Logo, Yan Qing sentiu a porta estremecer.
Logo, Yan Qing sentiu a porta estremecer.
— Xiao… Xiao Jiu? Sou eu. — Ele sussurrou, encostando a bochecha na porta, tentando ver algo dentro.
— Qin-ge! — Shi Jiu sussurrou em resposta, sua respiração pesada contra a madeira fria.
Ele estava coberto de sangue, suado como um porco, mal enxergando alguma coisa com sua cabeça latejante e suas pernas doíam tanto que ele duvidava que poderia andar pelos próximos dias. E pior, seu braço direito estava praticamente inútil. Ele não sabia se estava quebrado, torcido ou só muito ferido, mas tinha certeza que doía como o inferno e latejava dolorosamente desde o pulso até o cotovelo.
Liu Bo ficou mais irritado que o normal dessa vez.
Ele pegou Shi Jiu tentando escapar.
Apesar de sua mentira dizendo que apenas queria pegar uma flor para Liu Fangfei que não havia dentro da propriedade, Liu Bo não foi leniente em seu castigo.
Ele ainda podia sentir o peso da bota de Liu Bo contra sua palma, seus ossos estalando quase ao ponto de rachar.
A punição por tentar sair da casa foi dura, ele não fazia ideia do que haviam dito a Liu Fangfei.
Ainda assim, seguindo o som, Shi Jiu arrastou seu corpo dolorido até a porta. Qin-ge veio.
— Vou procurar mais, não vi nenhuma abertura ainda. — Ele ainda era teimoso demais para desistir. Talvez só não tenha olhado com atenção. Ele sempre foi o mais desatento.
Parecia inocente de se dizer isso. Era algo que eles não podiam evitar, pela situação em que se encontravam. Aquilo que sofreram os fez envelhecer precocemente, conscientes demais da feiura do mundo, mas ao mesmo tempo, suas mentes não eram capazes de processar totalmente aquele desalento, colocando-os naquele limbo estranho.
Traumatizados e desiludidos demais para serem inocentes como crianças, mas ingênuos demais para serem totalmente maduros.
Shi Jiu suspirou, ouvindo a porta ranger como uma espécie de risada cruel. Ainda assim, mesmo sabendo que não poderia sair, o peito de Shi Jiu se aqueceu.
Ouviu-se um bufo leve vindo de dentro, antes de Shi Jiu retrucar.
— Qin-ge idiota, eles… — Shi Jiu torceu a boca em desgosto, frustrado. Cada dia ficava mais difícil para eles se encontrarem, aquele desgraçado Liu Bo parecia ter um sensor para cada vez que Shi Jiu estava minimamente menos infeliz.
Yan Qing hesitou, olhando frustrado para aquele lugar. Aquela casa amaldiçoada. Sua garganta apertando, com medo de imaginar o que podem ter feito com seu Xiao Jiu.
— Eles não fizeram alguma coisa com você, fizeram?
— Você é idiota? Estou trancado aqui há quase três dias e nem consigo andar! É pouco para você? Talvez o cachorro Liu devesse ter quebrado mais do que apenas meu braço! — Shi Jiu esbravejou, seu corpo estremecendo quando bateu na porta como se pudesse bater no garoto do outro lado.
Ele queria poder bater em Yan Qing, ser abraçado por ele e confortado. Ele queria muito ouvir algo diferente da voz de Liu Bo ou seus próprios pensamentos.
E daí que suas pernas ainda funcionassem? Elas doíam e ele não conseguiria correr direito, estavam fracas demais, era como se estivessem quebradas mesmo. Seu braço estava inútil, como Qin-ge seguraria sua mão? Como ele jogaria pedras nas pessoas que tentasse atacá-los? Ele mal conseguia ver alguma coisa naquele escuro, nem mesmo a luz da lua entrava ali dentro, era como estar mergulhado dentro de um poço muito fundo, onde só havia sofrimento.
Ele tinha que fazer Qin-ge entender o que estava acontecendo. Entender sua dor.
— É tudo culpa minha… — Yan Qing disse baixinho, abaixando o olhar. Ele queria já ter seus dons imortais fortes, capazes de mover montanhas.
Mas se não fossem montanhas, tudo bem também. Não precisava ser uma montanha, só uma porta pesada. Ele só precisava tirar seu marido dali.
Ele só queria poder libertar Shi Jiu. Ele trocaria tudo por apenas uma fração de força, se conseguisse.

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