— Sua culpa? Claro que é culpa sua! Qin-ge idiota! — Shi Jiu esbravejou, se perguntando o que aquele tolo que ele tomava por marido tinha na cabeça. — Liu Bo que é um desgraçado! Aquele pedaço de merda, você quer amenizar as coisas para ele?!
— Me desculpe. Qin-ge está errado. — O garoto repetiu, Shi Jiu bufou, ainda reclamando.
Yan Qing continuou, sua voz gentil, apesar de seu coração dolorosamente apertado, ele ainda tentava apaziguar Shi Jiu repetidamente, tentando atrair alguma grama de normalidade, dizendo-lhe palavras suaves até que as emoções de Shi Jiu se acalmassem.
— Eu deveria te levar embora hoje. — Yan Qing disse de repente, e Shi Jiu ficou surpreso. Eles tentaram fugir três dias atrás, mas Shi Jiu foi pego e punido. Ele não sabia como Yan Qing ficou esperando por ele todo esse tempo.
Mas parecia haver mais naquela frase do que o esperado, Shi Jiu notou.
— Deveríamos ter ido embora há três dias, idiota.
— En, mas aconteceu algo bom. Hoje.
— Tsk, como algo poderia ser bom? É bom não me ter por perto? Você gosta da paz? — Shi Jiu reclamou, olhando um pouco assustado para a direção da porta.
Ele se arrependeu assim que fez a pergunta, temendo pela resposta. Inferno, e se…
— Claro que não! Xiao Jiu é o melhor! Não sei como eu viveria sem Xiao Jiu.
Shi Jiu nem tinha forças para conter o suspiro de alívio.
— Humpf, é bom você saber. Nunca esqueça que agora você é meu marido! — Shi Jiu ficou com o rosto vermelho só de dizer isso em voz alta, seu coração parecendo ser feito de neve fresca, derretendo com um só toque, cheio de alívio pelas palavras sem hesitação de Yan Qing.
Yan Qing também ficou vermelho ao ouvir isso, deixando escapar um sorriso pequeno cheio de carinho.
— En, e eu vou cuidar bem do meu marido.
A coisa seguinte que Yan Qing disse, no entanto, assustou Shi Jiu, fazendo-o pular no lugar, soltando um ruído de dor pelo movimento brusco, seu corpo inteiro latejando.
— Xiao Jiu, encontrei um cultivador. Ele falou que poderia nos levar para a seita Tian Dao.
— Tem certeza?
— Sim! Ele me mostrou até sua insígnia e sua espada espiritual!
Após explicar tudo a Shi Jiu sobre a conversa que eles tiveram com aquele homem, Yan Qing finalmente hesitou um pouco. Shi Jiu percebeu sua reticência em continuar, ficando impaciente.
— Conte logo! O que você está escondendo? Isso tudo não é uma história boba, é?
— Não! Claro que não! Eu não mentiria para você! É só que… — Yan Qing estremeceu lembrando do aviso do cultivador.
Mesmo que Shi Jiu não pudesse vê-lo, sua hesitação era palpável, assim como a frustração sufocante do garoto.
— Ele vai embora hoje a noite. Se não formos agora… Não poderemos acompanhá-lo.
Shi Jiu entendeu. Não tinham como atrasar mais o homem, aquele que poderia ser sua única chance de escapar daquele inferno. Se não fossem, talvez não haveria certeza de que entrariam novamente na seita, ou que teriam a mesma sorte. Mas Shi Jiu estava preso, machucado.
— Xiao Jiu…. Talvez… Talvez eu deva ir. — Yan Qing se odiou por dizer isso.
Doía fisicamente, pior do que qualquer surra que já tivesse sofrido. Odiava que a única opção para salvar Shi Jiu fosse… Deixá-lo.
— Os Liu são muito influentes na cidade e muito ricos. Se eu for lá, vou poder te salvar.
Shi Jiu ficou em silêncio. Ele sabia que Yan Qing deveria ir. Sabia que era preciso.
Ele também sabia que Yan Qing provavelmente ficaria se ele pedisse.
No entanto, por mais doloroso que fosse, ele sabia que Yan Qing precisava ir, e tais oportunidades não deveriam ser desperdiçadas, poderiam nunca surgir novamente, não haveria tempo para remorso, o tempo não voltaria para trás.
— Você vai voltar? — Shi Jiu perguntou baixinho. Muito mais baixo do que ele gostaria, e se odiou pelo quão fraco ele soava.
— Claro! Vou voltar para te salvar, e vamos juntos para a montanha imortal! — Yan Qing garantiu. Agora, cheio de determinação. — Eu sempre vou voltar para você, Xiao Jiu. Até mesmo da morte.
— É bom mesmo! Se você não voltar eu… eu vou queimar o mundo todo! Matar tudo e todos até te encontrar! — Shi Jiu ameaçou, arrancando uma risada carinhosa do garoto mais velho.
— Eu tenho que cuidar do meu marido.
— Você…! Qin-ge sem vergonha! — Shi Jiu engasgou, seu coração errando as batidas, mas os cantos de seus lábios se ergueram sem seu consentimento.
— Você tem que se livrar dessa sua impulsividade agora, viu? Você não pode fazer besteira! Se estragar tudo, o que vai acontecer comigo? Seja mais calmo!
— Mn, tudo bem. Vou me esforçar.
Houve um momento de silêncio, dezenas de palavras não ditas, mas não havia tempo para que pensassem em como dizê-las.
— Não esqueça de voltar e me salvar. — Shi Jiu se animou um pouco, sufocando aquela pequena semente de dúvida em sua mente. Ele apoiou levemente a mão esquerda na porta, querendo poder atravessá-la.
— Eu vou. Não vou esquecer. Eu prometo, Xiao Jiu, marido. — Garantiu Yan Qing, querendo poder abraçar o garoto mais novo antes de ir. Querendo confortá-lo, garantir-lhe que tudo ficaria bem. Levá-lo para bem longe. Tudo o que ele podia fazer era apoiar suas mãos contra a porta que os separava. — Eu vou voltar por você. Sempre.
Quando aquela promessa foi reafirmada com ainda mais determinação, acalmando um pouco os demônios no coração de Shi Jiu, apesar dos próprios demônios no coração de Yan Qing, algo inesperado aconteceu.
Naquele momento, diante dos dois garotos, uma luz na forma de um fio vermelho tremulou, assustando-os. Tão brilhante que iluminou a escuridão nos olhos de Shi Jiu.
Segundos ou horas poderiam ter passado enquanto viam um pequeno fio vermelho que conectava suas mãos no dedo anelar esquerdo.
Um fio que ligava suas almas, que simbolizava sua promessa. Algo que só tinham ouvido nas histórias dos comerciantes nos mercados, nos poemas dos restaurantes e nos boatos sobre cultivadores imortais:
Um fio do destino.
Desapareceu tão rápido quanto um piscar de olhos, mal permitindo que os dois acreditassem no que viram. Talvez tivesse durado uma eternidade, eles não poderiam ter notado.
Mas esteve lá, eles sabiam disso. Ambos podiam sentir isso em suas veias, acalmando seus jovens corações assustados. Como uma droga em suas veias, parecia que tudo, pela primeira vez, ficaria bem.
Eles estavam conectados, eles poderiam se encontrar novamente.
Era tão brilhante, tão grosso, aquele fio incorpóreo era a prova de seus destinos juntos.
Se era o destino que ficassem juntos, então nada poderia detê-los, certo?
Mesmo através das tábuas do depósito de madeira, Yan Qing e Shi Jiu prometeram que iriam se encontrar de novo. Yan Qing faria de tudo para voltar para Shi Jiu.
O coração de Shi Jiu estava muito mais acalentado do que ele esperava que estaria, e mesmo em meio a dor e ao sangue, ele sentiu que as coisas poderiam dar certo.
Um trovão ecoou ao longe, mesmo no céu sem nuvens, e parecia um sinal dos céus. Sobre o quê? Eles não sabiam, mas os dois garotos escolheram interpretar aquilo como um sinal de boa sorte. Talvez Shi Jiu estivesse um pouco intoxicado pela positividade estúpida de Qin-ge.
Com essa nova determinação, Yan Qing foi para aquela montanha de imortais, determinado a conquistar poder para salvar seu amado Xiao Jiu.
.
.
.
Porém, ele não voltou.

Comments (0)
See all