William Toldd
Durante a minha vida toda fui tratado como uma boneca de porcelana e honestamente, nunca gostei muito da atenção que recebia. Meus pais me davam tudo o que eu queria e não me deixavam nem respirar direito sem ter alguém por perto para me vigiar. Talvez toda a bajulação e cuidado excessivo acontecesse por eu ser o caçula da família, ou por ser simplesmente o jeito protetor deles, já que não podiam estar constantemente comigo.
Meus pais são agentes do FBI, sempre trabalharam dia e noite sem se permitirem ter um pouco de descanso e por conta disso, meu irmão mais velho e eu sempre tivemos que ser cuidados e até mesmo criados por uma governanta. Eles não tinham muito tempo para nós, o trabalho e o dinheiro sempre foram prioridade.
James, meu irmão, fora adotado alguns anos antes de eu nascer, pois minha mãe pensava que não podia ter filhos, devido a ter sofrido dois abortos espontâneos em menos de dois anos e isso a abalou muito. Mas felizmente, quatro anos depois, meus pais descobriram que eu estava a caminho. A notícia pegou todos de surpresa e os deixou extremamente eufóricos, mesmo que no fundo sentissem um enorme medo de me perderem também, a esperança e positividade prevalecia e no fim, tudo ocorreu muito bem e eu nasci perfeitamente saudável.
Quando pequeno, eu sempre arranjava muita confusão com os garotos das escolas em que estudávamos, eles tinham inveja das coisas que eu possuía e tentavam me bater por isso, já outros, tentavam ser meus amigos por puro e descarado interesse. Nunca consegui ser muito sociável, portanto, fugia de todos que se aproximavam.
Ao contrário de mim, James sempre foi muito descolado e amigável, estava constantemente rodeado de pessoas querendo ser suas amigas, - é claro que maioria também era com segundas intenções devido ao poder aquisitivo que nossos pais tem e o sobrenome que herdamos - mas ele sabia filtrar isso muito bem.
Nunca criamos raízes em lugar nenhum, pois nos mudamos diversas vezes. No começo era difícil me desapegar das casas e das pessoas, mas com o tempo fui me acostumando com as mudanças e parei de me importar tanto.
Atualmente a nossa nova casa, no centro de Londres, tem três andares com cinco quartos/suítes em cada um, mesmo que supostamente só morem cinco pessoas. O primeiro andar é dos meus pais, pois eles sempre saíam cedo para trabalhar e achavam melhor já estarem perto da saída caso precisassem sair às pressas. Apesar de que são raras as vezes em que eles veem nos ver, ficando meses sem voltar para casa, ligando somente para saber se estamos bem. Eles vivem para trabalhar e admito que fico frustrado com isso, mas não tenho direito de reclamar, sendo que nunca nos faltou nada. O segundo andar é do meu irmão, James. Não por algo específico, mas sim porque ele simplesmente quis e o terceiro ficou para mim. Ela é consideravelmente menor do que a que tínhamos em Liverpool.
Como mencionei anteriormente, temos uma governanta, Jessy, uma senhora de cinquenta anos, baixinha e super simpática. Ela está morando conosco desde que nós mudamos e também dorme no primeiro andar para não ter que nos deixar sozinhos. A mesma cuida de mim e de James desde que me entendo por gente e é como uma segunda mãe para nós dois, já que nossos pais nunca pararam em casa e raramente nos davam atenção, e para "compensar" a ausência sempre nos trazem presentes como pedido de desculpas. Eu sinto falta deles, sinto falta dos raros momentos em família que tínhamos, sinto falta dos conselhos de minha mãe.
O dia estava parcialmente agradável, a temperatura havia melhorado consideravelmente desde que eu saíra de casa. Me encontrava frustrado e cansado ao andar pelo centro atrás de materiais escolares. Minhas aulas estavam para começar em exatamente uma semana e como sempre, fiquei me enrolando até não poder mais para comprar tudo o que precisaria.
Peguei um caderno qualquer e algumas coisas a mais que fora solicitado na lista que o colégio entregou para minha mãe no dia da matrícula e caminhei apressadamente para o caixa, implorando para que a moça passasse tudo o mais rápido possível e eu pudesse ir embora. Nunca fui uma pessoa paciente, isso é certamente notável.
No curto trajeto de volta para o meu carro, fui parado por um homem o qual se apresentou como um vidente e me disse que havia sentido algo em mim enquanto passava por ele. Bufei baixinho e tentei o dispensar educadamente, nunca fui de acreditar em previsões do futuro ou coisas do tipo, para ser sincero sempre os considerei tremendos charlatões, mas como o moço insistiu para que eu escutasse o que tinha a dizer pois era importante, resolvi lhe dar um pouco de atenção.
O mesmo olhou-me brevemente e sua expressão tornara-se triste quando pegou em minha mão. Fiquei sem entender nada por um momento, então somente o encarei de volta. Ele se aproximou de mim e disse a seguinte frase: "Alguém irá entrar inesperadamente na sua vida, um homem... E ele a deixará do avesso. Tome cuidado garoto, tente lutar contra a tentação de permanecer ao lado dele, ou tudo acabará em tragédia". Eu quis rir, porque isso era a coisa mais estranha que já haviam me dito. Apenas agradeci, lhe entreguei alguns trocados e fui mais do que depressa para o estacionamento em que deixara meu carro.
Assim que adentrei o veículo, parei um pouco para refletir sobre o que o tal vidente me dissera. Não fazia sentido nenhum para mim. Como assim lutar contra a tentação de permanecer ao lado de um homem? Eu sequer algum dia gostei de alguém do mesmo sexo que eu, até porque namoro com uma garota, Elise. No instante em que pensei nela meu celular tocou indicando seu nome na tela, cliquei em recusar e mandei uma mensagem rápida para ela.
"Não posso falar agora. Assim que chegar em casa te retorno. Will"
Sai distraidamente do estacionamento e no momento em que fiz a manobra para entrar na rodovia, um carro branco passou a toda velocidade por mim, quase me acertando em cheio. Devido ao susto que levei pisei no freio bruscamente, escutando os pneus derraparem e queimarem sobre o asfalto. O ar entrou rarefeito em meus pulmões. Enfurecido por quase ter sofrido um acidente, coloquei a cabeça para fora da janela e gritei:
- Vai tirar a mãe da forca, babaca? Toma mais cuidado. - Tudo o que fui capaz de ver foi um dedo do meio direcionado a mim e então o carro sumiu de vista tão rapidamente quanto apareceu.
Quando finalmente cheguei em casa, cumprimentei Jessy que estava na cozinha preparando antecipadamente o jantar e perguntei por James, pois precisava falar com ele e a resposta fora a mesma de sempre "seu irmão saiu e disse que volta até o horário da janta", revirei os olhos discretamente, James saia todos os dias sem exceção e só voltava depois de escurecer. Me despedi de Jess e subi para o meu quarto, coloquei as sacolas no criado mudo e me joguei na cama.
Vire-me de barriga para cima e encarei o teto por alguns instantes. Acabei por nem me lembrar de retornar a ligação de Elise. Fiquei intrigado com o que o moço havia me dito e não consegui parar de pensar sobre isso. Por mais que tentasse, não conseguia encontrar lógica naquelas palavras, não faziam sentido para mim. Tome cuidado garoto, tente lutar contra a tentação de permanecer ao lado dele, ou tudo acabará em tragédia. Mas que merda isso poderia significar?
- Will, é hora de acordar. - Jess entrou em meu quarto, batendo duas panelas uma contra a outra e abriu todas as cortinas. - Levanta essa bunda daí e vai se arrumar, garoto. É seu primeiro dia de aula!
Sentei-me na cama coçando os olhos e pisquei algumas vezes, tentando acostumar-me com a quantidade de luz repentina que preenchera o ambiente, antes totalmente escuro.
Já havia se passado uma semana e eu ainda não me sentia preparado para voltar a estudar e ter que encarar mais uma vez um colégio novo, onde certamente demoraria para me adaptar.
- A senhora precisava mesmo fazer isso? Agora estou com dor de cabeça e meus olhos estão ardendo. - Disse, provocando-a - pois sabia o quanto a mesma odiava ser chamada de senhora - com a voz rouca pela falta de uso. Só tive tempo de proteger minha cabeça e então senti uma das panelas batendo com força contra meu braço. Tive que rir, Jessy é louca, mas eu a amo demais. Abri a boca fingindo indignação. - Isso é agressão física! - Gritei.
- Me processe! - Gritou de volta e pegou a panela do chão, indo para a porta, mas parou antes de sair. - Ah, e senhora é minha avó. Se ousar me chamar assim mais uma vez, não vou pensar duas vezes em passar com o meu fusca por cima de você. Fica esperto garoto, você não vai nem ver de onde veio. - Piscou para mim e saiu do quarto como se nada tivesse acontecido.
Levantei-me rindo e fui para o banheiro. Deixei a banheira enchendo com água quente. Tirei minha roupa e me analisei no grande espelho, o qual ia do chão até o teto. Passei as mãos pela minha barriga saliente e a encolhi, pensando no quanto precisava urgentemente começar a malhar na academia. Elise, minha namorada, diz que estou ficando gordo e que minha bunda está bem maior que a dela e isso é uma ofensa para a mesma. Ela sempre acha e aponta algum defeito em mim, me dando "dicas" do que fazer para melhorar. Isso me tira do sério, porém fico quieto e guardo para mim para evitar brigas, as quais já me renderam muitos problemas no passado.
Desliguei o registro, colocando alguns sais de banho importados para fazer espuma e entrei lentamente, sentindo os pelos do meu corpo se arrepiarem. Meus músculos relaxaram assim que entraram em contato com a água quente, suspirei, ligando a hidromassagem. Demorei-me ali alguns minutos - enquanto a água borbulhava ao meu redor - divagando sobre como seriam as pessoas do novo colégio, se eu me adaptaria bem e se faria amigos novos.
O colégio o qual eu estudava em Liverpool era cheio de pessoas interesseiras, que só estavam comigo pelo meu dinheiro, como sempre foi por toda minha vida. Fiquei sabendo que esse colégio têm muitas pessoas da elite - assim como bolsistas - então, não me preocupei tanto em relação a isso.
Saí assim que a água esfriou e vesti a roupa que havia preparado na noite anterior. Me enrolei alguns bons minutos provando várias combinações, até escolher uma que me agradasse. Queria causar uma boa impressão.
Desci para o segundo andar, pulando os degraus com a mochila nas costas e dei de cara com James saindo do seu quarto.
- Eai, maninho. Preparado? - Sorriu, sonolento, com a cara amassada e os cabelos bagunçados.
- Sinceramente, não. Queria ficar em casa e dormir o dia inteiro, mas é a vida, né? Querer não é poder. - Disse mal humorado e ele riu.
- Fico feliz com o seu entusiasmo e disposição, Will. - Debochou, bagunçando meus cabelos. Bufei, dando-lhe um tapa estralado no braço.
- Não fala comigo. - Fechei a cara para ele o fazendo rir mais ainda.
Descemos juntos e nos sentamos na mesa, vendo Jessy lavar a louça. Ela secou a mão no pano de prato decorado e virou-se de frente para nós.
- Seus pais já saíram para trabalhar, mas te desejaram boa sorte, Will. - Sorriu de leve para mim. - Tiveram um contratempo em uma das empresas e disseram que não sabem quando voltam.
- Que novidade. - Suspirei triste. James apertou meu ombro e sorriu com compaixão. .
- Então, o que vão querer comer? - Jess disse, quebrando o clima triste entre nós.
- Quero algo simples, Jess. Nada muito gorduroso e calórico, por favor.
- Eu vou querer algo BEM reforçado, estou morrendo de fome! - James disse acariciando a barriga. Exagerado.
"Bom dia, amor :) Animado para o primeiro dia de aula? Els xx."
"Bom dia... Nem um pouco e você? Will."
"Estou animada! Tenho uma surpresa para você! Els xx."
"Oh é mesmo? Estou curioso agora. Will."
"Mais tarde você vai ver e garanto que irá gostar. Vou me arrumar, depois nos falamos. Te amo <3 Els xx."
"Até mais tarde. Will xx"
Elise e eu nos conhecemos desde pequenos. Os pais dela são super amigos dos meus, então praticamente nos criamos juntos. James já era um pouco mais velho na época, portanto não ficava muito conosco. Digamos que mesmo antes de nascermos, já planejavam nosso namoro. Queriam que nós namorássemos, casássemos e tivéssemos filhos, para dar continuidade aos laços das duas famílias. Eles - meus pais e os de Elise - diziam que "fomos feitos um para o outro" e que sempre tivemos um afeto a mais do que somente amizade. Sim, até mesmo nosso futuro havia sido decidido por eles e isso sempre me deixou revoltado.
Então aos quatorze anos, dois anos atrás, eu a pedi em namoro na frente de toda a nossa família, tanto minha quanto dela, em uma festa de final de ano. Para todos foi um sonho realizado, mas eu não me senti realizado, nem sequer me senti feliz. Eu fiz aquilo mais para agradar meus pais do que a mim mesmo, para que eles parassem com a cobrança. Eu gosto dela, é claro, mas não a amo. Sinceramente espero que isso seja só uma fase e que logo eu sinta por ela o mesmo que ela sente por mim.
Terminei de comer, escovei os dentes, passei um pouco mais de perfume, peguei a chave da minha Bugatti Chiron e antes de sair de casa me despedi de Jessy e James.
- Boa sorte, meu pequeno. Vai com Deus. - Jess me abraçou forte, depositando um beijo em cada uma das minhas bochechas. - Pegou tudo que precisava?
- Peguei sim. Pode ficar tranquila. - Lhe dei um beijo na testa e me desvencilhei de seus braços.
Me virei para James e o abracei também, dando alguns tapinhas em suas costas.
- Vai com tudo, maninho. Domina aquele lugar. - Rio jogando a cabeça um pouco para trás. - Está rindo do que? Estou falando sério, todos vão ficar aos seus pés quando te virem... Ainda mais com esse estilo todo... Vai arrasar corações. Elise que se cuide, pois vai acabar perdendo.
Neguei com a cabeça, batendo em seu braço.
- Até parece. Eu não sou você.
- É uma pena mesmo. - Sorriu convencido. James sempre foi cheio de si. Sempre teve todos aos seus pés, mas nunca foi esnobe como muitos pensam que ele é, muito pelo contrário, meu irmão é a pessoa mais humilde que já conheci.
- Ok, meninos, chega de papo. Will acho melhor você ir logo ou vai se atrasar. - Jessy nos interrompeu, me empurrando para a saída.
- Tem razão. Até depois então.
Quando estava para entrar no carro, James apareceu.
- Não quer que eu te leve? - Perguntou, rodando a chave do seu carro no dedo.
- Não, não precisa se incomodar. Eu consigo chegar lá.
- Bom... Já que não quer minha companhia, estou saindo. Boa sorte lá. - Apertou meu ombro e se dirigiu ao seu carro.
- Aonde está indo?
- Encontrar uma pessoa. Não espere por mim.
Coloquei minha mochila no banco do passageiro e enfim me sentei no banco do motorista. Respirei fundo, fechando os olhos por alguns segundos e logo parti em direção ao meu novo colégio.
Por algum motivo, a "profecia" a qual o vidente havia feito sobre mim ainda não tinha sido da minha cabeça. Sentia um arrepio estranho só de pensar, mas nunca deixava isso me abater e tentava a todo custo achar uma explicação plausível do porque meu corpo reagia de tal modo. Eu não sabia explicar, mas lá no fundo tinha a sensação de que minha vida estava prestes a tornar-se um completo caos.

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