È importante começar de onde eu me lembro. Minha memória é péssima. Tenho certeza que o decorrer dos acontecimentos está certo, só que a ordem deles não. Aliás, não sou Machado de Assis pra te avisar o que esqueci. Mas vamos lá:
Lembro-me do sonho de um dia que começou simples. Um sábado de manhã. Naquele sonho, que mais parecia uma lembrança, estava lá: eu, Mathias e um terceiro prato numa mesa de café da manhã. Não me lembrava de quem era o terceiro prato até mais tarde naquele dia. Estávamos felizes, sendo meigos e grudentos como sempre, mas ele desapareceu no meio da alegria. Nem um puf eu escutei. Mas o terceiro prato estava ali, sujo, usado.
Quando eu acordei me assustei com o vazio existencial que surgiu desse meu sonho. Quem estava ali no terceiro prato? Por que eu sonhei com ele de novo? Por quanto tempo terei que suportar essa falta que ele faz em mim?... Comecei a ficar nervoso, já tinha acordado suado e minha respiração estava ficando mais forte a cada inspirada. Eu ia suar mais se não tivesse me levantado e me cambaleado até o banheiro, onde vomitei seja lá o que ainda estava no meu estômago. Dei a descarga, dei um passo para o lado esquerdo e me olhei no espelho.
_Que cara de merda, hein... Seu bosta. - Falei. Eu adoro me xingar. Não é um hábito pra lá de saudável, mas me faz sentir bem saber que sou como qualquer outro ser humano existente, um pedaço de excremento de universo vagando por aí.
Dali, tirei minha roupa e tomei um banho gelado. Banhos gelados são bons para ressaca, por que o choque te acorda de uma vez pra vida. Não bebam como se fosse seu último dia na terra crianças, pois não vai ser hoje que umas doses de vodkca barata vão te matar. Peguei aquela toalha velha, quase mofando naquele banheiro, e fedida pra me secar e voltei para o quarto para poder vestir qualquer coisa folgada que encontrasse.
Já vestido com uma roupa velha, mas confortável, eu decido ir para a cozinha pra comer alguma coisa. Esse estômago recém-esvaziado precisa de algo se não eu iria desmaiar. Estando lá, fazeço um café. Pegar a panela, a meia e o pó. Queria fazer igual minha mãe, mas ao chegar à cozinha me deparo com minha máquina de café. E sem culpa e nem remorso nenhum, pego uma cápsula de um café preto, do mais amargo possível, e ponho na máquina. Enquanto a cafeteira funciona, me viro pra pegar qualquer outro industrializado pra satisfazer esse vazio físico. Acho que pela preguiça acabei me satisfazendo com um pacote quase vazio de um biscoito murcho que não sei por quanto tempo estava ali no armário (parecendo eu quando contei para os outros que gostava de garotos também), e para não perder o costume, lamentei a falta de uísque pra colocar no café, que estava tão amargo que parecia água tônica quente.
Ao sentar-me à mesa, percebo algo do diferente. Um vinho que não está ou vazio ou na geladeira por ser ruim. De longe parecia-me familiar. E embaixo dele um bilhete. Aproximando-me daquela estranha aparição, reconheço a marca, já me lembrava do cheiro, e quase salivei para toma-lo. Mas a decência falou mais alto, mesmo sozinho na casa. Pego a garrafa pelo gargalo e leio bilhete:
"Vá ver ele seu estúpido!"
Dali eu arrepiei. Eu me lembrei do por que do porre. Do por que daquela garrafa cheia. Eu tinha que ver o Mathias, ou o que restou dele. Eu não tinha ido vê-lo desde sua morte. Desde que tudo aquilo aconteceu. Eu tinha que ir lá de qualquer jeito. Mas eu não precisava desse nervosismo e raiva toda. Eu não tinha nada pra fazer e talvez eu só quisesse voltar pra cama ou ver o que eu tenho pendente e remoer isso pelo resto do dia. Mas naquele momento eu ganhei um propósito. Não era por sofrer sobre ócio cotidiano, mas sim sofrer por algo que... Talvez eu tenha culpa? Talvez eu tenha engatilhado os eventos? Ou será talvez eu não pudesse ter feito nada mesmo se eu nunca o tivesse conhecido?
Independente da crise que eu iria ter se eu aprofundasse aqueles pensamentos, coloquei a garrafa de vinho de volta naquele canto e fui em direção a meu quarto pra me trocar. Já ali eu escolhi um terno preto com uma gravata azul escuro, na esperança de estar respeitoso o suficiente pra ir ao cemitério, e porque estava frio também. Em algum momento percebi que estava chovendo fino lá fora, achei romântico até. Uma pena estar sozinho. Não tinha ninguém que eu queria ver hoje, mas esse vazio me fazia querer companhia. Alguém que entendesse pelo menos parcialmente o que estou passando.
Eu já estava pronto, e quando eu ia saindo me lembrei de pegar uma vela aromática, um isqueiro, um guarda-chuva, meu relógio de pulso, o vinho e um cálice de acrílico velho que guardei de piada quando fiz uma festa estilo medieval. Era só eu, nossas memórias e meu luto condensados em mim, para beber aquilo só. Não que achasse ruim não ter companhia para beber, mas para viagens emocionais é sempre bom ter alguém que te guie, mesmo erroneamente, para algum lugar. Afinal, pra quem está perdido, qualquer caminho basta.
Coloco todos os itens da viagem numa sacola, procuro por minhas chaves e me direciono à fora do condomínio/kitnets (nunca sabia definir onde morava, dependia da minha autoestima quando ia descrever a alguém) pego meu carro e me direciono a montanha russa de emoções de hoje.

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