2 - Pure Imagination
Arthur acabava com a tinta das canetinhas que usava quando Simon sentou ao seu lado.
— O que você tá desenhando? – Simon perguntou, enquanto pegava uma folha branca.
— É o Tempestade! Ele é um personagem dos Guardiões da–
— Inexistência. — Simon completou, um sorriso indo de um lado a outro do rosto.
— Você gosta dos Guardiões da Inexistência?!
Bem, a partir dali, o conteúdo da aula virou uma chuva de comentários sobre a série de quadrinhos. Eles conversavam enquanto treinavam a letra cursiva ou sussurravam uma referência ou outra durante a fala da professora. E a alegria da prof. Mari pelo entusiasmo das crianças pela leitura, mesmo que ela se assustasse um pouco com a violência do conteúdo.
Eles se encolheram num canto da biblioteca, lendo aos poucos o quadrinho, passando os dedos pelas páginas desbotadas.
— A roupa dele é muito daora — Simon sussurrou. Um ótimo comportamento, considerando que os colegas sempre gritavam e a professora sempre reclamava.
— A máscara de pássaro é incrível. — Arthur concordou.
Na hora de pegar o livro, Gabriel, o bibliotecário magnífico, com quem Arthur adorava conversar, olhou para ele com uma cara preocupada.
— Escolha interessante. Mas você pode ler esse tipo de coisa?
Arthur deu de ombros.
— Mas é sobre o combate ao fascismo em uma sociedade alienada. — Arthur falou simplesmente.
Simon inclinou a cabeça:
— O que é isso?
— Não sei, minha irmã que disse.
Os olhos do bibliotecário estavam arregalados, de fato.
Os meninos agora se balançavam, a risada formando uma harmonia e uma música que só os dois poderiam ouvir.
Então, Arthur pulou do balanço, coletando um graveto do chão.
— Nem pense em fugir, Tempestade!
Simon riu e caiu atrás do menino.
— Nunca, meu anjo!
As nuvens apareceram em suas mãos, e começou a chover. Arthur, voando por aí, e Simon jogando raios e raios.
Efeitos sonoros, risadas. Sorrisos e dramáticas encenações. Rápidos movimentos e leves toques.
Até o cansaço bater e a bolha criativa estourar. As crianças, deitadas na grama, olharam as nuvens até o sinal bater.
— E se a gente fizer nosso próprio quadrinho? — Simon sugere, enquanto Arthur amassava a massinha de modelar.
Ele fazia uma Adalia bipunctata, sua joaninha favorita, e, por mais que não admitisse, gostava tanto dela por ter uma pintinha de cada lado, assim como ele e Simon.
E Simon só amassava uma bolinha roxa, a outra mão no queixo, os olhos perguntando para Arthur o que ele achava.
E ele sorriu, já simpatizando com a ideia.
— Algo tipo Guardiões da Inexistência?
— Isso, só que mais a gente.
É, ele realmente já simpatizou com a ideia. Tanto que a aula inteira foi sobre isso. As perguntas motivando a criação, e a criação motivando empolgação.
— E se eles fossem sobre a vida e a morte?
— E se eles fossem metade insetos?
— E se eles fossem metade insetos que fossem a vida e a morte?
— Um louva-deus e uma mosca?
— Um louva-deus e uma mosca!
— Senhor Morte, a mosca!
— E Senhor Vida, o louva-deus!
Simon desenhava os personagens e tagarelava. Arthur pintava o fundo e tagarelava.
E, em um leve silêncio, algo preocupou Arthur.
— Promete que a gente vai levar isso até o final e esse vai ser um livro de sucesso?
— Prometo. De mindinho.
E bem, Simon cumpriu.

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