Borbulhando de raiva, o velho Pirlo, vendo-se encurralado, constrangido e cheio de ódio, encheu o fôlego no preparo de um agressivo e cuspideiro discurso:
— ORAS! — começou — Fui eu mesmo que bebi, e quem é você para me cobrar afinal, HUH?! Jogando a vida fora por aí, nem sequer mora nessa cidade! Quem você pensa que é, seu inútil?! É gente como eu que, literalmente, mantém o chão que você pisa, seu merdinha! Eu sei muito bem que você anda com aqueles bandidos da Soaked Pasta! e o mínimo que um delinquente como você nos deve é uma boa cachaça depois do expediente! Além do mais, como eu saberia que você sequer pagava aquilo?! Sempre vandalizando por aí, você é do tipo de gente que não liga nem para a própria vida! Pensei que estava morto! Mas o que me surpreende mesmo é que não tenha roubado aquele bar logo de primeira!
Pirlo tentou dar continuidade, mas viu-se com a garganta seca e bufou de ódio para disfarçar. Por outro lado, Martin deu uma olhada de cima a baixo no construtor, que agora esperava resposta.
— ...nossa. — ele disse. — Quanto desespero. Te pagam tão mal assim?
Prontamente, Pirlo agarrou uma garrafa de vidro e a arremessou contra o rapaz, que desviava na hora, fazendo cair o seu chapéu nos vidros estilhaçados no pavimento — e se agachou para apanhá-lo. Com raiva, o velho começou a ameaçar os cidadãos com as piores palavras que pôde pensar, o que apenas o trouxe de volta uma salva de vaias.
Um segundo depois, Martin levantou com seu chapéu, bem atrás de Pirlo, no lado oposto donde estava. A velocidade tinha sido tanta que, francamente, o velho nem sequer saberia dizer onde ambos estavam a um segundo atrás. O garoto saqueia um saco de moedas próximo a um caixote, e os mete no bolso — caminhando cinicamente para longe.
— EI! — gritaram — PARA ONDE VOCÊ PENSA QUE VAI?
Mas Martin continuava andando.
Cada um dos jardineiros pôs-se a encará-lo com um olhar furioso e boquiaberto e, quase que de imediato, dispararam-se num forte impulso para apanhar o rapaz — quando, de repente, caíram um atrás do outro numa infeliz sequência que botou todo mundo no chão. Já com o rosto no pavimento, eles perceberam que, no calor da confusão, o rapaz havia chutado um de seus baldes de cola-industrial pela calçada, sem que eles notassem, o que agora os mantinha em uma grudenta e inconformada situação.
— Quanto ao trabalho de vocês, eu não sei. Mas essa cola, sim, é de qualidade.
Ao comentar isso, o rapaz pulou num muro próximo ao fim da passarela, sentando-se de frente para a multidão; um momento em que estava calmo, e com o sol batendo ao rosto. Isto foi justo quando, virando a esquina em disparada, surgiram alguns guardas nas extremidades da rua, todos montados em sapos bizarramente grandes e equipados com chapeis, selas e ombreiras. Aquela, nada mais era que a guarda oficial de Lackworth, chamada de Patrulha Anfíbia. De um momento para o outro, o que era um simples desentendimento desmoronou-se com gritos, com as pessoas correndo para longe enquanto os jardineiros gritavam mentiras e apontavam para o muro. O rapaz ficou em silêncio.
Julgando pela pressa com a que a Patrulha se aproximava, era seguro dizer que eles já sabiam muito bem quem era o seu alvo. Martin cruzou os braços e se levantou com cuidado, olho-no-olho com os guardas seríssimos que avançavam na sua direção.
— Ei, Pirlo. — ele então disse. — Não sei o que você armou, mas, se foi o Gilberto que disse que disse que eu estava morto, pode dizer que volto para acertar as contas com ele! — neste instante, a guarda cercava o muro conforme os soldados miravam bestas ao rapaz.
Pirlo, que ainda estava preso no chão, começou a debater-se junto aos construtores.
— Você não vai viver pra acertar as contas com ninguém! — gritava o velho homem — Vão, guardas, o que estão esperando? Peguem aquele marginal! — e durante a fala, Pirlo prendeu seu bigode à cola pegajosa no asfalto. Depois disso, ele não conseguiu dizer mais nada. Martin não esperou nem meia palavra e, assim que o velho homem calou a boca...
O garoto caiu feito uma tábua para trás, e dezenas de dardos erraram seu alvo.
Para trás do muro havia outra rua, e Martin pôs-se a correr.
Foi então que a elite anfíbia, de frente ao chamado, começou a perseguição. Esta agora saltava pelos telhados, soprando os seus estridentes apitos e avançando na direção do garoto que, pela frente, saltava, se esguiava e corria feito um gatuno pelas ruas, ao passo que as dúzias de sapos desciam e pulavam o muro à sua procura. Com a vantagem de liderar a fuga, Martin correu na direção de uma pequena feira que acontecia ali perto, um ponto casual dos poucos comércios da cidade. Chamava-se de A Praça de Antimony e, por sorte, ela estava muito perto. Tão ágil quanto uma astuta fuinha, o rapaz alcançou as barracas e foi esgueirando-se por meio delas. Martin até pensou tê-los despistado de vez, quando, inesperadamente, os grandes sapos e seus condutores invadiram a feira numa poderosa investida, criando um grande alvoroço ao que incansavelmente prosseguiam com sua procura. Estava claro que aquilo não era uma ocasião comum.
Sonolento, Martin jamais teria pensado num dia tão animado quando saiu de sua casa, naquela manhã. Ele já havia sido pego antes, e desconfiava muito do porquê de tamanha comoção, por parte dos guardas, a um bando de construtores. Só por isso, Martin já sabia que essa não era a causa da sua prisão, seja lá o que realmente fosse.
Pensando ser inútil manter-se na multidão, ao passo que essa se dissipava em ligeiras corridas e gritos assustados devido ao súbito caos, Martin optou por um rápido salto meio às tralhas e bugigangas que das inúmeras barracas rolavam e voavam, por cima e debaixo dele. Aterrissando em um toldo, ele o usou feito um trampolim de pano, lançando-se para cima na tentativa de se agarrar a uma vinha no topo dos pequenos prédios. No voo que deu, ele pulava tão alto quanto os próprios sapos, agarrando-se a esta robusta vinha, próxima a uma alta janela, bem rapidamente — quando pelo flanco ele foi atacado por mais projeteis.
Num acerto certeiro do pequeno disparo, a vinha em que o rapaz se agarrava rompeu subitamente, desmanchando-se entre as suas mãos. Perdendo o equilíbrio, Martin caiu novamente para o meio das barracas e entre a confusão. Um tanto quanto encurralado, o rapaz esgueirava-se meio ao caos para debaixo de uma bancada de vinhos, onde um apavorado senhor também se abrigava.
Ao chegar sem ser convidado, Martin tentou puxar assunto com cortesia:
— Ei, velho, tem problema se eu me ajeitar aqui por enquanto?
— Que? — dizia o velho sujeito — Uhm, claro, por que não.
Eles ouviram o caos lá fora por um tempinho.
— As coisas estão muito animadas lá fora, né? — Martin comentava.
— Argh, e como! – resmungou o velho, todo eufórico. — E logo hoje, que já me roubaram! E duas vezes! Oh céus, oh céus, que péssimo dia para os negócios. E ainda por cima vão quebrar tudo o que sobrou das minhas bebidas. Oh céus! O que será de mim?
Martin sentiu-se um pouco mal de culpa.
— É.... Isso não presta. — ele murmurava. — Olha, por que não toma um pouco desse vinho? Eu não preciso mais dele. Pode te ajudar a relaxar. — então o rapaz estendeu sua garrafa de vinho semivazia. — Não é muito, mas... ainda é vinho.
O velho homem abriu um olhar consolado.
— A esse ponto, por que não? — disse ele. — Todo vinho pode ser o último, né?
Ele deu um gole farto, longo e decidido.
— O que achou? — Martin quis saber — Mais fraco que o normal, mas até que dá para o gasto, né? — o rapaz cruzava os braços com um sorriso rasteiro.
— Ah! Eu achei ótimo! — exclamava o velho homem, puxando a boca da garrafa com uma satisfeita e alcoolizada expressão. — Qual é essa marca, afinal? É um pouco... familiar. Diga. De onde foi que você comprou isso, meu jovem?
— Eu achei por aí. — Martin disse genuinamente.
Desde aí, o rapaz notou algo de errado ao olhar, pelo lado, para o velho homem, porque aquela tranquila expressão de consolo se transformou rapidamente. Com os olhos bem abertos, Martin via o senhor agora com um olhar escuro, um sorriso forçado e uma garrafa vazia nas mãos. O velho homem girou o recipiente devagar, e justo no lacre era possível ver uma mascote com características sinistramente parecidas com os seus traços do rosto.
— É o meu vinho. — esclarecia o velho.
Martin piscou duas vezes. — Eu posso ter comprado. — falou ele.
— Edição especial.
— Mas e se eu comprei de quem roubou?
— Então você comprou de quem?
Ocultos do caos que acontecia feira à fora, houve silêncio debaixo do estande.
— Vai dizer que eu roubei, né? — por fim falou Martin.
— Você sabe o que fez.

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