Em um canto das barracas na praça, ouvia-se um agudo barulho de vidros quebrando quando uma rouca e irritada voz berrou “LADRÃO, LADRÃO!” para os guardas à distância.
Um rapaz de casaco pôde ser visto correndo — com cuidado para não pisar nos cacos.
Localizando-o, a guarda saltou com força na direção do fujão, perseguindo-o mais uma vez ao que, com ágeis passos, Martin seguia numa reta corrida pela praça. Foi bem nessa hora que, um pouco longe da corrida, apareceu um engravatado homem de pele e óculos escuros, observando a euforia dos grandes sapos. Ele mesmo descansava ao lado do seu próprio sapo: que era notoriamente maior que os outros e tinha uma coloração azulada. Foi com essa calma que o homem sacava um estranho instrumento de lata do bolso: um com um cabo ateado à base e, por algum motivo, começou a falar para dentro do objeto.
— Aquele sujeito é definitivamente... — disse ele. E pausou.
Uma voz afeminada suspirou de raiva, no outro lado da linha.
— Definitivamente quem?! Que raios você quer a essa hora, Toni?
— Ele. — Toni replica.
— Ele? — estranhou a voz. — Tem certeza, Toni?
— Sem dúvidas. — dizia o homem — De todos os pilantras problemáticos que eu conheço, só esse moleque consegue fazer tanto escândalo tentando...
Houve outra pausa.
A voz tornou-se impaciente.
— Tentando o que?! — disse ela — Faça o favor de terminar essas frases! Não temos tempo a perder aqui! Já faz dias que estamos na procura dele! — através da linha, também era possível ouvir um barulhento homem murmurando “Ques” e “Heins” a todo o momento.
— Se despistar. — então completou Toni. — Tentando se despistar. Ele é um sujeito inconfundível, e esse é o meu palpite. Estamos na área da Praça Antimony, e ele está indo para uma rua sem saída. — o homem alimentou o seu fiel sapo com uma mosca Golias.
Este era o único delegado de Lackworth: Toni Jackpot. Um homem de meia palavra.
Do outro lado da linha, resolveram responde-lo em algum momento.
— Entendido. — falou a voz. — Por sorte estamos aqui perto. Obrigada por sua.
— Minha o que?
O outro lado desligou a linha.
“Ajuda” — era disso que Martin precisava.
De volta à perseguição da feira, o rapaz já estava na desvantagem.
Sua corrida em linha reta não tinha sido a melhor opção, mas ele obviamente não teve escolha. Depois de um tempo em maratona, saltando por cima dos estandes, latas de lixo e caixas de repolho, não demorou para que o rapaz enfrentasse uma cruel realidade: a rua sem saída que espreitava o finalzinho da praça. Ao aproximar-se dela, Martin tentou de tudo — tentou escalar um muro, sendo surpreendido por mais guardas; então tentou contra saltar em um poste, sendo quase atingido por um dardo; e foi só quando finalmente desistiu e se virou para lutar, que Martin notou como estava completamente cercado.
— Fala sério! Assim tão cedo? — disse ele, pouco antes de se virar para os inimigos — Vocês e aqueles bebuns são assim, tão amigos? Por que não toma um café primeiro, Toni...
Martin olhou.
Mas ao invés de encarar a guarda com a qual já estava acostumado, ele viu outra coisa. Alguns patrulheiros montavam em sapos, em um canto ou outro da multidão, mas o que realmente havia-o cercado não eram guardas, mas sim uma távola de Cavaleiros Reais.
Cavaleiros. Sim. Esses não eram do costume, definitivamente. Alguns estavam montados em alazões, carregando bandeiras, já outros andavam a pé — com brilhantes armaduras — mas todos andavam igualmente bem armados; com lanças, espadas e escudos com engrenagens estampadas. Diferentes da patrulha local de sua vizinhança, Martin se viu diante de autênticos cavaleiros da capital, com brasões em seus peitos e balançantes capas nas costas — e isso o preocupou um bocado.
Como em qualquer brigada, um líder estava presente e, em destaque entre os homens, ficava um único sujeito de cabelos vermelhos, sem escudo e sem cavalo. A figura trajava uma pesada e cintilante armadura prateada com adornos vermelhos; toda sustentada por um parrudo e musculoso físico. Sua estatura era alta, medindo quase dois metros, e ele carregava um enorme livro vermelho debaixo do braço, trazendo com o outro uma gigantesca espada carmesim de duas mãos. A haste da arma tinha uma coloração branca e era estranhamente grossa e cilíndrica; a ponta do cabo se assemelhando até à boca de um canhão, a depender do ângulo. Logo ao seu lado, estava uma baixa e jovem mulher de cabelos verde-claros, trajando uma túnica verde tricotada, um capuz com S’s nas laterais e um par de fundos óculos arredondados. Toda a atenção do rapaz se concentrava neles.
Isto porque ambos não eram nada mais, nada menos, que dois oficiais da Capital:
O Comandante Cainfield Korridor e a Conselheira-Junior Mocha Valsani.
O rapaz ficou pensando no que ele poderia ter feito para merecer essa visita.
— Eu perdi algo importante? — então questionava, espantado, e deu um passo para trás. Já fazia muito, muito tempo que Martin não via tantos cavaleiros, assim, reunidos.
— Ahem. — exclamou a senhorita Mocha, sacando um pergaminho da sua túnica. — Às ordens do digníssimo primeiro-ministro Helffrey, estão previstas a localização e captura de um jovem sujeito, de nome “Martin”, residente dos distritos de Lackworth. Sua punição prevista pelos crimes de furto, participação criminosa e deserção... — proferia a jovem moça quando, rindo de estupefata maneira, o grande homem a interrompeu ao pôr a mão em seu baixo chapéu estufado. Numa sorridente maneira, ele disse:
— Não precisamos dessas formelidades, Mocha! Imagino que o idiota aqui já ouviu demais por essa manhã. Vamos direto ao ponto! Você aí é o tal do Martin, não é?
Mocha pisou no pé dele. — Para começo de conversa, é formalidades, seu idiota! E é claro que são necessárias, de que outra forma quer que eu anuncie a prisão dele?!
Martin preferiu não dizer nada. O que foi bom, porque esse era o seu único direito.
— Está bem, está bem, que seja! — replicou Cainfield, apontando para o rapaz em sua frente. — Você já entendeu pra que viemos aqui, não é, garoto?! Mas tem uma coisa que eu quero te perguntar antes, já que tu não tem cara de quem vai se render, mesmo!
— Na verdade eu não entendi coisa nenhuma. — apontou o rapaz.
Mas Cainfield ignorou isso. — Qual é o seu nome?! — ele exigia.
— Ora, nós já sabemos que é ele. Seu cabeça dura! Não ouviu a ligação com o Toni mais cedo?! — impacientemente, Mocha o advertia pelo lado, tentando empurra-lo pra luta.
— Me chamo Martin. — disse Martin.
— E o que mais?! — quis saber Cainfield. — Não acha que está faltando algo, pivete? Não sabe que é de má educação se apresentar sem o último nome?! E a um cavaleiro?
Mocha tomava de uma xícara de chá com mel. — Quanta propriedade para dizer isso.
— Você não se mete! — xingou Cainfield.
Houve um breve minuto de silêncio e ponderação.
— Só Martin! — então reclamou o rapaz. — Escuta, ou você começa a lutar, ou me interroga primeiro. Não posso fazer os dois ao mesmo tempo. — e agarrou sua bainha.
— Que sujeito teimoso... Dessa forma, não me restam mais dúvidas, moleque!
O homem abriu um sorriso maldoso e começou a estalar as juntas dos dedos.
— Você é o tal do Mello...
— Ah, cala essa boca, Cainfield! — Martin, de repente, o interrompia, e empunhou à sua direção uma longa e brilhante rapieira de cabo branco e guarda dourada. Sua lâmina, por algum motivo, parecia muito enferrujada. — Tem muito tempo que eu não te vejo. Veio fazer o que aqui? Levando em conta esse livro no seu braço, acho que aprendeu a ler.
As inseguranças alfabéticas do comandante fizeram suas veias saltarem do rosto.
— Desgraçado...! Mas é bom saber que você também não mudou nada! Dessa forma eu não preciso ter remorso em partir você no meio!!! — ao dizer isso, o comandante rasgou o grande livro em um espasmo de violência, dividindo-o em duas metades picotadas.
Mocha cuspiu o seu chá em surpresa.
— AAH!!! A MINHA AGENDA, CAINFIELD!!! Como vou trabalhar agora??!
Outros cavaleiros tiveram que contê-la para não apunhalar o comandante.
Cainfield afastou-se lentamente da távola, caminhando em direção ao rapaz.
— Escutem homens! — disse ele. — Sou só eu que vou enfrenta-lo, ouviram? Se não quiserem se ferir, é melhor saírem de perto! Contenham a jovenzinha com mais chá e melado. Da prisão e captura, aqui, sou eu quem cuido!
— EU SOU MAIS VELHA QUE VOCÊ! — reclamou Mocha. Mas Cainfield não ouviu.
Os subordinados do comandante se afastaram do centro, deixando somente os dois combatentes na passarela da rua. Cainfield sacou detrás da capa um estranho artefato, acoplando-o em seu punho esquerdo como um rústico soco inglês, e então empunhava sua espada com as duas mãos, invertendo sua posição e preparando-se para combate. Do outro lado, Martin adotava uma esguia posição de esgrima, com a mão direita nas costas, e pressionando-se para trás com os pés virados e dispostos no chão em polos contrários. Nessa hora, o tempo virou para as nove da manhã, ecoando pela cidade através do alto badalar da Igreja, cuja terceira batida fora o disparo para a disputada batalha a ser travada.
“GONG...GONG...”
“GONG!”
Como um par de dardos, os dois chocaram-se numa investida em linha reta, colidindo com suas lâminas no centro da rua, onde passam a acertar-se incessantemente em sequência — armando um baile de luzes e aço na pista de concreto.
Com sua força bruta e punhos de aço, Cainfield girava sua espada atacando com longos e pesados cortes contra a rapieira de Martin, que só atacava entre brechas e com uma postura defensiva, já que o peso dos golpes era muito desigual para que ele arriscasse ser acertado. No meio da troca de golpes, em certa hora, Martin arriscou-se numa vil estocada, desviando-se por pouco da espada de Cainfield, quando, num sagaz movimento, Cainfield soltou um dos punhos e o golpeou com um pesadíssimo soco direto, rapidamente esquivado pelo rapaz, que ainda assim foi pego de raspão pelo vento cortado no impacto que acertava o chão. Agilmente, ele reajusta-se pós esquiva e, girando sua lâmina em sentido horário, golpeia de raspão a lateral da armadura do comandante, que em seguida desapareceu meio a nuvem de poeira gerada por seu soco contra o concreto.
De repente, tudo ficou quieto.
Dentro da pequena nuvem de poeira, o rapaz procurava pelo cavaleiro, em guarda, quando foi acertado por uma súbita, inesperada joelhada no seu flanco, acertando-o no estômago e o arremessando contra a vidraça de um próximo prédio, onde desapareceu. Imponente, Cainfield gira sua espada feito uma hélice logo acima da cabeça, dispersando a nuvem de poeira. Seu sorriso era aquele de alguém sem qualquer arranhão.
Até porque, durante toda essa patifaria, ele não tinha sequer se arranhado, mesmo.
— Isso é mesmo tudo que tem a me oferecer? — dizia o comandante — Acertando uma lâmina cega contra uma placa de prata?! Ahaha! E depois dizem que eu sou o estúpido!
Ele virou-se à vidraça espatifada, observando voar inúmeras penas de ganso, junto de tábuas e pequenos fragmentos de metal. Curiosamente, o prédio parecia ser uma loja de colchões, costuras, almofadas e travesseiros. Lá dentro, Cainfield enxergava algo que se parecia com o corpo do rapaz, com seu casaco por cima, jogado meio aos escombros.
“Ha! Mais rápido do que eu imaginei!” — pensava ele, e foi em direção sua vítima.
O nosso orgulhoso comandante teve quase um minuto inteiro para sentir-se daquela maneira, até que, mais próximo aos estragos, notou que a coisa encasacada não era nada senão um travesseiro. Um travesseiro branquinho — e apenas isso. Exceto que logo atrás haviam muitos outros exemplares, todos empilhados em uma escadinha que levava a um buraco no teto do pequeno armazém. Cainfield não teve muito tempo para pensar a respeito.
A silhueta de um rapaz, em pé nas calhas do telhado, logo surgiu sobre o comandante.
— Mas hein? — ele exclamou.
Nesta hora, Martin saltava de cima do terraço, sem o casaco, arremessando sua garrafa de vinho contra o distraído guerreiro — que tem a cabeça perfeitamente alvejada pela garrafa sanguinária. A coisa toda se despedaça sobre a cuca de Cainfield, deixando-o melado de vinho e furado com cacos de vidro. Martin, que aterrissava logo atrás do comandante, armou sua lâmina e mergulhou em linha reta para uma estocada.
O ataque alfinete erra por pouco o pescoço de Cainfield, atravessando sua ombreira.
— SEU FILHA! — grunhia o comandante, desferindo um ataque feroz com o seu punho. Martin desviava, mas por pouco! Então chutou a armadura do homem e, usando o impacto como impulso, recuou por tempo o suficiente para mirar o seu próximo ataque.
Este veio como uma rápida estocada às entranhas de Cainfield. Isto é, se o comandante não tivesse, de última hora, decidido levar as coisas extremamente a sério.
Para Martin, Cainfield sumiu. O homem, melado e ensopado de vinho, saiu de sua mira em um segundo e, com o peso de uma viga de aço, retaliou com um golpe devastador da sua espada. O ataque deixa um pequenino corte no rosto do rapaz, que desvia na hora, mas acerta o chão com força o bastante para abrir uma enorme rachadura no pavimento.
O rapaz afastou-se da erosão tão rápido quanto pôde, e ficou de olhos com o inimigo.
Cainfield, agora, tinha muitas coisas no olhar — inclusive fragmentos de vidro — mas o que mais o preenchia certamente era ódio. O comandante arrancava os pentelhos de penas e cacos de vidro do rosto, exibindo uma postura praticamente inabalável, e suas narinas bufavam. Em realidade, Cainfield mal havia se ferido, apesar da sujeira ser um grande inconveniente, e seu corte no ombro não havia causado nenhum dano significativo.
Martin, tendo colocado toda a sua força no ataque, ficou preocupado e, no meio da multidão, alguns dos homens mais confiáveis de Cainfield ainda riam discretamente da situação. Somente os recrutas e Mocha desviaram os olhares risonhos, tapando os rostos.
— SEU FILHA... — vocalizou o comandante.
— Que? — soltou Martin.
— SEU FILHA DA MÃE!!! — ao dizer isso, o enfurecido Cainfield deu um golpe tão, mas tão forte nos próprios joelhos, que acabou amassando a própria armadura. — EU VOU ACABAR CONTIGO, SEU TRAPACEIRO!!! COVARDE!!! MARICAS!!!
— COMO É?! — retrucou Martin, sentindo-se um tanto ofendido. — Marica é o escambau, foi você que não prestou atenção! Eu aproveitei a situação, só isso! Seu burro!
— HA! Tá dizendo que eu não sei lutar, É???
— Eu não tou dizendo nada! A tua cara com cheiro de uva diz tudo!
Foi quando Cainfield desfez sua feição de raiva; estampando no rosto uma expressão diferente, muito diferente, e confiante como nunca. — Está bem. — disse ele. — Você venceu. Não vou me conter mais.
Então, o homem ergueu a espada para cima da cabeça.
— Está na hora de você entender com quem está lidando, Martin Mellowick!
O rapaz quis muito retrucar algo, mas sua intuição não o deixou perder o foco de vista.

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