Visto que Cainfield não se movia mais, Martin decidiu atacar primeiro. Com certa prudência, ele tenta uma determinada balestra contra o comandante, quando de repente Cainfield balança sua espada carmesim para frente — em um golpe pesado e vertical, similar à uma martelada. O jovem se esquiva com calma, visto que sua investida tinha sido apenas um blefe, e dá um salto para trás — mas Cainfield retaliou de maneira inesperada!
Com um manejo pesado e preciso, o comandante inverteu sua espada e, contra toda e qualquer lógica, jogou a lâmina para trás dos ombros — empunhando o robusto cabo da arma na horizontal, como se fosse um tipo de rifle-canhão. A forma com que o comandante ajeita sua postura, em questão de segundos, é assustadora. Ele mirava a ponta cilíndrica como se fosse uma arma e, de um momento para o outro, cumpriu todas as expectativas ao puxar o gatilho.
Martin foi surpreendido por um disparo — alto e potente — de um projétil de ar.
— BOOM! — e conforme gritou o estrondo, o rapaz desapareceu.
Nem sequer houve tempo para raciocinar. Em um momento, Martin estava ali e, no outro, já não estava! Acertando-o em cheio, o disparo não teleportou o garoto, mas sim o repeliu para muito longe, lançando-o pelo céu azul como se fosse uma boneca de pano. Ele tinha sido arremessado contra as casas no fim da rua, e só se salvou de um impacto ao agarrar-se no meio-voo em uma robusta trepadeira que escorria de uma árvore.
Mesmo com um tornozelo gravemente torcido, o rapaz não entregou as pontas.
Ele escalou a árvore discretamente, com cuidado para não ser percebido, e pulou no terraço de um pequeno prédio. Em silêncio, ele observa a paisagem destruída, procurando por Cainfield, quando chegou outro disparo de ar, dessa vez com fragmentos e lascas de pedra. Sentindo a incrível pressão do arremesso, Martin se agacha na hora, levando alguns cortes no rosto, e considerava suas opções até ouvir uma doce voz o chamar pelo lado.
— Ei, você do chapéu torto.
Talvez ele já estivesse ficando louco.
— Que foi? — Martin virou-se, devagar e calmamente, à figura.
Era a moça quatro-olhos que estava com Cainfield.
— Ah. É só a secretária.
— Para você, é Senhorita Valsani. — retrucava Mocha — E escuta uma coisa, garoto. Você não é tão mais esperto que aquele cara lá em baixo, sabia? Está o subestimando. É melhor se render antes que seja tarde. Já estamos passando do meio-dia.
Martin mordiscava uma das unhas. — Veio até aqui para dizer isso?
Ao dizer isto, o rapaz desviou o olhar e voltou a procurar por Cainfield lá em baixo.
— Na verdade não. — dizia Mocha — Só precisava confirmar sua posição. Boa sorte.
— Que?
Mas ao virar-se de volta, a mulher havia desaparecido — seu único rastro sendo uma fumaça roxa que se dissipava no ar. O rapaz se perdeu na cena por um instante.
— Hã?
Foi quando, de repente, uma caixa de correios irrompeu da poeira, demoliu a resistência do ar e acertou Martin bem no rosto. Ele caiu rolando nos telhados íngremes.
Caído sobre as calhas, Martin pôs a mão esquerda em sua bochecha inchada, sentindo-se zonzo e fortemente ferido. Uma sombra surge diante dele e, ao olhar para cima, o rapaz viu a silhueta de Cainfield — que tapava a luz do sol com sua postura imponente.
“Ah, claro.” — imaginou o rapaz. — “Ele já está aqui em cima.”
Cainfield traçava o dedo no pescoço.
Mas Martin ignorou o aviso. — Pra alguém tão ruim com números — provocava — O seu disparo até que é bom, não é? Bom demais... — e levantou-se com a testa sangrando.
O homem abriu um sorriso sinistro.
— E para alguém tão esperto como você, me surpreende que ainda não tenha admitido a derrota. — retrucou Cainfield. — Por acaso pensa em morrer aqui?
A resposta de Martin foi agarrar a sua fiel rapieira. Seus olhos escureceram, e ele pensou:
“Preciso fazê-la brilhar!”
Dali, diante do céu ensolarado, os dois começaram a se enfrentar nos telhados.
O comandante podia até ter a força, a arma, a experiência e a ferocidade, é verdade. Mas de uma coisa ele não sabia. Cainfield desconhecia o segredo da espada enferrujada de Martin, e isto podia ser apenas o suficiente para que o rapaz tivesse uma chance.
“Mantenha a esponja sempre limpa” — eles dizem.
“...e ela nunca te falhará contra uma mancha”
De golpe em golpe, a armadura do comandante enchia-se de arranhões enferrujados.
Chamada Lâmina do Zelador, sua origem era desconhecida.
Martin esquivou-se de um corte horizontal, brandiu a espada e acertou a armadura.
Tudo o que se sabia, é que Lâmina do Zelador sempre significou o seu nome.
Protegido dos ataques de Martin, Cainfield prosseguia com os ataques violentamente.
Sua lâmina era muito sensível à ferrugem e à sujeira.
Ademais, quando imunda, ela era uma espada inútil — cega e sem elegância.
O comandante ataca com um rápido corte em X, força um recuo e dispara seu canhão.
Telhados explodiram — calhas e telhas voando para os lados, mas Martin não foi pego.
Mesmo assim, havia algo especial sobre ela.
Mas não como um artefato, nem como decoração.
Havia algo sobre o seu brilho; sobre quando estava limpa e brilhante.
Estava tudo sob controle, até que, em um momento de fraqueza, o telhado cedeu por debaixo dos pés de Martin e ele caiu para dentro do sótão de uma das casas.
Para manter-se afiada, uma espada necessita cuidado.
Para manter-se afiada, uma espada necessita zelo.
“Mantenha a esponja sempre limpa” — eles dizem.
“...e ela nunca te falhará contra uma mancha”
Falando neste assunto, a visão de Martin estava começando a manchar.
Jogado entre os empoeirados pertences de uma casa desconhecida, o rapaz tentava levantar-se com rapidez, quando sentia uma estranha fraqueza no estômago, onde tinha sido acertado mais cedo. Seguido disso, o comandante pulou para dentro do pequeno cômodo, disferindo um forte corte horizontal que pegava-o de raspão no pequeno espaço. Em clara desvantagem, e sentindo o pesar dos acertos que levara no rosto e pelo corpo, Martin traça uma rápida rota de fuga por um estreito alçapão no cômodo, desviando dos incessantes balanços da lâmina do comandante pelo caminho. Ao tentar segui-lo, Cainfield notava de cara que era grande demais para caber na passagem, e salta escalando de volta para os telhados, onde corre para a borda das calhas, de frente para uma rua com uma grande capela.
Lá dentro dos corredores da casa, Martin avançava direto para a porta principal e, no caminho, cruzou com uma família tomando um pacífico café da manhã na mesa, encarando-o assustados ao que derramavam o café que bebiam e tremiam entre as cadeiras. Sentindo-se um tanto sujo pelo que estava prestes a fazer, o rapaz sacou de seu casaco a bolsa de moedas que havia pego com Pirlo. Ele a jogou como caridade na direção da mesa, livrando-se do peso extra, então sacou sua rapieira e partiu a porta em duas grandes tábuas. Ao dar de cara com a rua, Martin é surpreendido por Cainfield, que salta do telhado acima e o alveja com um poderoso soco. O rapaz desvia, mas a calçada não.
Cainfield abre uma cratera tamanho-de-punho, rachando o calçadão de concreto.
Ao levantar-se rapidamente do chão, o jovem viu-se no centro de uma pequena rua frente à uma capela, onde ouviam a distância o canto de um alto coral e banda, bem no meio de uma missa da manhã. Pressionando seus tendões, o comandante agarra um pequeno e fino poste de luz, gira-o com violência e o arremessa com extrema força, feito um rolo de macarrão, em direção a Martin, na passarela. O rapaz checa a condição de sua espada. A lâmina, antes mais encardida, tinha agora um aspecto mais limpo e espelhado.
“Isto deve servir.”
Martin ainda preparava-se para acertar o poste quando percebeu uma estranha verdade. O objeto, em alta velocidade, não vinha vindo em sua direção, mas sim à da capela.
— Que?
O rapaz desviou do caminho, saltou em direção ao poste e, com uma facilidade assustadora, partiu-lhe em três pedaços iguais — o cabo de aço sendo fatiado como uma liga de queijo muçarela — e a espada ficou mais limpa.
Mas Martin pareceu furioso e, logo em seguida, avançou contra o comandante.
Eles trocaram dois, três golpes diretos, mas eventualmente Cainfield o acerta com um chute na lateral, atordoando por tempo o suficiente para encaixar outro disparo de ar. À queima roupa, Martin foi atingido bem no estômago, mas, apesar de ainda ser um baita ataque, este terceiro tinha sido mais fraco. O rapaz é lançado contra a calçada e causa um forte estrondo ao bater em outro poste de aço. A gente sai da capela, assustada, para entender o que estava acontecendo. Cainfield passou a carregar outro tiro, e era possível escutar isso na forma de um assobio constante e abafado.
— Cainfield! — exclamou Martin. — O que foi aquilo?
O comandante fez uma cara feia. — Aquilo o que?! — replicava.
— Aquele poste, seu cabeça de bagre. Ia acertar a igreja! O que tá tentando fazer?
— Eu joguei para o lado errado. Só isso!
— Só isso o escambau! E se tivesse acertado o pessoal do povoado?
Com arrogância, Cainfield coçou a sua barba rala. O povoado assistia quieto.
— Não confunda as coisas, garoto. O meu trabalho é te levar daqui de qualquer forma, e não proteger os habitantes desse lugar esquecido. Não se lembra que eu disse aos meus soldados para se afastarem, se não sairiam feridos? Aqui não é diferente. Se você se importa tanto, então se renda! Do contrário eu não vou hesitar em mandar tudo ao redor pelos ares.
Martin apertava os punhos como uma prensa hidráulica. — Isso é jogo sujo, seu bosta! — o rapaz virou-se para trás — E vocês aí, por que estão parados? Voltem pra dentro!
Foi quando um barulho abafado, parecido com um vácuo de ar, selou o assobio da espada de Cainfield, e Martin não precisou de meio-segundo para perceber que não restava tempo. Suas pernas se moveram sozinhas, seu corpo se esguiou por instinto e, sem pensar:
Martin avançou com uma rapidez impressionante.
Para a gente de Lackworth, era como se o rapaz tivesse voado, mas Cainfield viu tudo acontecer. Entre o comandante e a pequena capela, o rapaz vinha até Cainfield com sangue nos olhos, uma espada afiada e a testa bem na mira da arma. Os mais impressionados abriram os olhos, algumas senhoras soluçaram e as crianças gritaram. Com aquele rosto bem à frente do canhão carregado, era como se todos estivessem assistindo o fim de Martin.
— Cuidado! — disse algum sujeito emocionado.
Um certo alguém deveria ter prestado atenção no aviso.
— Huh? — então soluçava, e viu o rosto de Martin se esgueirar por debaixo do cano da arma-espada. De último instante, o rapaz jogou o peso do corpo para frente, ralando os joelhos no calçado enquanto posicionava-se, inteiramente, bem debaixo do nariz de Cainfield. Lá debaixo, em fração de segundos, o rapaz propulsionou sua perna em um poderoso chute, acertando em cheio à junta do braço de Cainfield.
O comandante não havia, exatamente, sentido aquilo mas o seu braço certamente não parou no mesmo lugar. O alvo do disparo, fácil assim, trocou de Martin para o céu azul — e Cainfield não teve nenhuma piedade. Seu disparo saiu para cima, um tão forte que sua rajada de ar parecia palpável, e o povoado vibrou.
“Mantenha a esponja sempre limpa...”
Mais uma vez, Martin brandiu a lâmina do zelador, agora reluzente como um espelho:
“...e ela nunca te falhará contra uma mancha”
De repente: suja de pó, vinho seco e penas grudentas, uma enorme fissura surgiu na armadura de Cainfield, rasgando grande parte da placa em um corte diagonal.
— O QUE?! COMO?! — gritou o comandante.
E deixou restar, dessa maneira, somente uma conclusão:
Talvez ele devesse ter prestado atenção no aviso.

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