Diante disso, Cainfield retrocedeu à sua natureza espadachim. Ele trouxe a sua arma, rapidamente, para baixo, e brandiu a lâmina em um corte aberto que teria, facilmente, decapitado alguém com uma bandana vermelha protegendo o pescoço. Martin esquivou-se depressa e, para aproveitar a vantagem, disferiu um profundo corte contra o calcanhar do homem. A Lâmina do Zelador, antes oxidada, estava quase brilhando a essas horas.
Percebendo essa estranha mudança de força, Cainfield põe-se em guarda e revida com um soco direto no rapaz, que resiste numa esquiva agarrando-se em seu braço em seguida. Presos um ao outro, Martin torce o braço do homem à medida do possível, e ateia ele numa estranha liga de borracha, tirada de seu bolso em algum momento. Pequeno como era, o rapaz cambalhota por debaixo das pernas do comandante, traçando o braço de Cainfield para trás das costas pelo laçado. Furioso, Cainfield acerta-o com uma cotovelada no flanco, com seu outro braço, bem em cheio, mas isto fez com que o homem perdesse o equilíbrio devido ao fraquejar do seu calcanhar perfurado. Nesse momento, Martin, usando toda a sua força, puxa o cordão para a direita, o que gira o corpo do comandante de lado, e então o força para baixo, acertando-o em cheio com a cabeça no concreto.
Debatendo-se na passarela, Cainfield consegue lançar o rapaz para longe com um brusco empurrão, se levantando em seguida, ainda preso com cordões em ambos os braços. Em um movimento inédito, o comandante partia para uma estocada perigosíssima; disparando o seu canhão ao contrário e usando o impulso para atacar com a lâmina. Martin apara o golpe por pouco, pouquíssimo, e a espada de Cainfield se crava no chão.
Martin, agora, se agachava bem debaixo da lâmina cravada, à apenas alguns centímetros de ter a sua cabeça aberta como uma melancia. Só que Cainfield não o atacou.
E não fez isso por vontade própria, é claro.
Paralisado, o comandante via-se com os braços rígidos, tremendo ao tentar puxar a lâmina para si — seus braços presos em um emaranhado infernal de linhas elásticas e terrivelmente resistentes. O nó era poderoso — ambos os braços laçados e imóveis — e cada um deles sob o controle de Martin, que neste momento encarava à Cainfield como um diabo.
Ligas de Borracha de Checkwen. Martin lembrou-se do nome completo e sorriu.
Este material, usado para caçar bestas de todos os tamanhos, não ia lhe falhar agora.
Sabendo disso, Cainfield abria um sorriso tenso.
— Quer mesmo tentar à sorte? — ele sugeriu.
Mas Martin não engoliu o blefe.
Apoiado às cordas, ele forçou a borracha ao máximo que pôde para trás, se ajeitando no meio como uma pedra em um estilingue. Quando a borracha chegou ao limite, disparou.
— MERDA! — logo resolveu expressar Cainfield, e daí veio o som do ricochete. Usando a rigidez assustadora das ligas, o rapaz impulsionou-se o melhor que pôde, acertando um poderosíssimo pontapé de aço no maxilar de Cainfield. Atordoado, o comandante perdia o equilíbrio para trás ao passo que as ligas se desfaziam num poderoso estralo, ferindo-o nos braços e no rosto. O astuto Martin não aguarda por nem um segundo e, assim que atingiu o chão, completava o seu ataque com cinco poderosas estocadas — quase instantâneas — que desta vez perfuraram a armadura de Cainfield, acertando-o no peito.
Chutado, espetado e chicoteado, o comandante cai de costas contra o pavimento.
Um enorme estrondo foi seguido de uma rachadura na passarela, e assim ele ficou.
Foi neste momento que chegou, pela esquina da rua, a Cavalaria liderada por Mocha, que vinha montada em um pônei até o palco da luta. Eles cessam seus passos e trotes num súbito freio, sem acreditar na cena que assistiam. De alguma maneira, era Cainfield quem estava caído, enquanto Martin se mantinha de pé.
— Mas que diabos aconteceu aqui?! — Mocha dizia assustada — Távola engrenagem! Prendam aquele jovem agora! — exclamou ela, e nisso dezenas e dezenas de soldados cercavam o moribundo Martin, já exausto e beirando a inconsciência. Frente ao corpo caído de Cainfield, ele foi rodeado por lâminas de lanças e espadas apontadas para o pescoço, sem dizer uma palavra, até que de repente o caído comandante estendeu sua palma aberta para cima.
— Esperem aí. — disse ele.
Nesse momento, Martin assustou-se severamente, mas, mais do que isso, sentiu uma fraqueza forte no estômago, nas costas e em todos os pontos onde Cainfield o havia ferido diretamente. Ele dobra os joelhos por conta da dor e, diante disso, Cainfield levantava-se sozinho e sem qualquer fadiga, apesar dos ferimentos. Em seu punho, o soco inglês brilhava em um estranho tom verde que ia, pouco a pouco, se tornando amarelo à medida que o jovem se sentia cada vez mais exausto e cansado.
— Depois sou eu quem depende de truques, né? — comentou Martin.
Cainfield gargalhou roucamente.
— Haha! O que, achou que tinha vencido? Este foi o seu golpe de consolação. Mas talvez eu tenha realmente o subestimado. — disse Cainfield, e pôs a mão em seus ferimentos. Havia sido perfurado, sim, mas quase não sangrava, e as cinco estocadas não pareciam o incomodar mais do que cinco agulhadas num dedo. — Agora eu entendo melhor a razão dessa tarefa. Mesmo com suas limitações, não acredito que haja alguém melhor que você para aquela missão nesse momento. Aliás! Posso ser mesmo um bruto em muitas coisas, mas não o bastante para ferir inocentes daquele jeito. Foi apenas um teste.
— Testes? — resmungou Martin. — Tá aí uma coisa que você nunca foi bom.
Cainfield sentiu a picada, mas evitou se irritar.
— E você não mudou nada mesmo. — dizia ele — Mas pelo menos cresceu um pouco. Já é capaz de me derrubar, não é? — e então ele adotou uma expressão séria, de repente.
Martin estranhava aquilo.
— Sabe. Martin. — começou Cainfield. — Você realmente ficou forte de muitos jeitos. E é admirável. Mas ainda tem algo que não lhe foi apresentado. Algo que movimenta a vida, e que movimenta a força. É por isso que não vai ganhar de mim. Não hoje.
Retirando sua armadura, o comandante jogava sua placa superior para longe, junto de sua espada, permanecendo diante dele apenas com os punhos fechados e uma escura regata preta.
— Deixem-no! — então ordenou Cainfield e, quando o fez, os cavaleiros saíram de perto do rapaz, deixando-o frente a frente com o comandante.
Martin tossiu seco e cambaleou pra frente.
— Francamente. — dizia — Eu tou acabado, mesmo.
— Venha logo. — retrucou Cainfield.
Uma última vez, os dois guerreiros colidiram-se um contra o outro.
Enquanto Cainfield deu uma poderosa investida, Martin esguiou-se para uma fina estocada. Mas... muito antes da espada sequer tocar Cainfield, a Lâmina do Zelador foi interrompida pelo punho do comandante, que aproximou-se em insana velocidade. Cainfield aparou o corte ao golpear o lado cego da lâmina, e então socou o rapaz no estômago. Apenas isso foi o suficiente para roubar o seu ar e deixa-lo de joelhos.
— Escute. — dizia Cainfield — Mesmo que você já tenha desistido de você mesmo, nem todos naquele castelo fizeram o mesmo, está ouvindo? Sua mãe e irmãs não veem a hora de te reencontrar. Por isso, durma, Mellowick. Amanhã você vai precisar de energia.
Com a visão turva, Martin tossiu, ouviu duas, talvez três palavras — então desmaiou.
Sua consciência foi-se embora como a poeira assoprada do chão, e Cainfield suspirou.
Mocha veio correndo até ele.
— Ei, Cainfield, o que foi aquilo?! — disse ela. — Caído daquele jeito no chão, não nos assuste dessa forma! Imagine só! O que acha que os novatos vão pensar, vendo o seu comandante derrotado? Quer abalar o psicológico deles??!
— Não enche. A queda foi parte da encenação, também! — resmungava Cainfield — Agora, o mais importante. Temos que voltar pra capital bem rápido, não é?
Mocha ofereceu um lenço para o homem limpar suas feridas. — Bem lembrado! — ela disse. — Já passamos do prazo. Ele deveria ter sido entregue uns dois dias atrás. Droga.
— Bem, agora não importa. Vamos indo, Távola Engrenagem! Estamos de partida, e temos um pacote dos grandes para entregar até o sol se pôr! Carreguem ele daqui, e façam com que volte com vida! — o comandante Cainfield então ordenou, limpando-se com o lenço.
Todos começaram a se organizar e, aprontando-se na rua, apanharam Martin com o auxílio de uma maca, algemando-o completamente. Alguns indivíduos do povoado protestavam, mas ninguém teria coragem de se colocar no caminho de tantos soldados.
Mocha fez um barulho vago, pensando consigo mesma.
— A propósito, Cainfield. — começou ela. — Não acha estranho uma ordem de prisão desse tipo, vinda do próprio ministro? Por que ele faria um pedido tão duro e súbito contra esse... moleque. E depois de tanto tempo.
— Bom, hã... Eu tinha mesmo algo de importante pra te dizer sobre esse rapaz. Mas esqueci. — replicou Cainfield. — Apesar do nome, ele é só mais um criminoso agora. Um protocolo comum deve caber, senão tanto faz. Apenas jogue-o na cadeia. — o homem então concluía, e apanhou sua grande espada carmesim pelo chão, apoiando-a no ombro.
— Eu não sei por que ainda me dou o trabalho de perguntar. — comentou Mocha.
Desta maneira, a misteriosa dupla, junto da Távola Engrenagem deixava a cidade de Lackworth ainda pela manhã. Eles partiam agora em direção a capital, levando consigo, numa de suas carruagens, um jovem e misterioso rapaz inconsciente, que faria, em muito tempo, o seu primeiro retorno a um certo lugar nostálgico. Os ventos sopravam mornos, e a profecia daquela minguante madrugada havia se realizado. Mas afinal, quem eram aqueles que a proferiam? De qual missão se referiam? E quem seria o seu requerido; esse tal jovem, chamado de Martin, então? Essas respostas, mais do que nunca, aproximavam-se de uma sugestiva resolução, e o convite dessa misteriosa aventura chegava a sua metade.
Onde tudo começou, para aquele castelo distante agora voltaremos.

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