Por pura coincidência, havia uma antiga prática, no protocolo jurídico de Antunes, que coincidia com as intenções de Helffrey naquela noite. Ela era aplicável somente à nobreza, e se tratava basicamente de um julgamento particular. Alguém de sangue azul, em uma posição de poder, poderia julgar pessoalmente um familiar ou sujeito de elite pelos crimes que cometera, se assim fosse permitido pela autoridade suprema do país. Por sua vez, Helffrey apressou em dar permissão para si mesmo, e assim tudo ficou encaminhado.
Usualmente enxergada como uma ferramenta corrupta, foi a primeira vez que essa prática foi usada sem intenções maliciosas. Ou quase isso. Martin continuou quieto; ele e Helffrey entraram no castelo; subiram às escadas e, de repente, pararam. O ministro despediu-se dos guardas, insistindo em privacidade. Assim que os cavaleiros foram embora, ambos voltaram a andar. Ninguém trocou uma palavra.
Lá fora, a chuva caía: cada vez pior e mais pesada.
Foi quando subiram a última escadaria. Frente aos seus aposentos, o educado Helffrey abriu a porta primeiro; tirou suas luvas, pendurou sua capa; e acomodou-se tranquilo. O cômodo, agora iluminado, não nos era estranho — era o mesmo em que ele estava quando tudo começou. Martin não tirou os sapatos, jogou seu pano molhado no chão e chacoalhou a cabeça, respingando água no elegante tapete do cômodo. Ele não parecia nada contente.
Alguma calha quebrada, talvez acima do telhado da sacada, pingava incessantemente em uma superfície metálica. Eram pingos altos, crônicos e pesados; com intervalos variados. Dentro do solitário cômodo de Helffrey, isto era tudo o que podia ser ouvido além do chiado da chuva.
Eventualmente, Helffrey se acomodou em sua escrivaninha.
— Já percebeu que não está algemado, não é? — ele finalmente disse.
— Eu só não entendi a mensagem. — disse Martin, em tom desconfiado.
— Venha logo e se sente.
Com cautela, Martin se sentou.
— E então? — perguntou.
— Eu serei direto. — dizia Helffrey — Preciso de um favor.
Martin começou a se levantar.
— Escute o que eu tenho a dizer, primeiro.
O rapaz fechou sua expressão. — Te escutar? — questionou. — Por que eu deveria?
— Porque os meus assuntos contigo são mais importantes do que você imagina. — falou o Ministro. — Eu não te trouxe até aqui para te jogar atrás das grades. Detesto isto tanto quanto você, mas precisamos ter essa conversa. Não fuja da responsabilidade de novo.
— Fugir! — Martin reclamava — Quem aqui está fugindo? Por acaso eu fugi do Cainfield, ou do julgamento, ou menti na sua corte? Eu não tenho medo do meu sangue, como o ministro tem! O motivo de ter ido embora é diferente, e você sabe muito bem disso.
Helffrey suspirou. — Não vamos repetir a mesma discussão de novo, vamos?
— Ou me joga na rua ou me coloca em uma cela de novo. Eu não vou negociar.
— Primeiro, escute o que eu tenho a dizer, e depois tratamos da negociação. Olhe bem para mim, garoto. Eu te trouxe até aqui só para dizer isso. Acha mesmo que você tem uma escolha? Se não aceitar ouvir por bem, terei que acionar os guardas e fazê-lo ouvir na marra.
O rapaz mediu bem a situação. Relutantemente, ele sentou-se de volta á cadeira.
— Seja rápido.
Lá fora, a pancada de vento começou a jogar água para dentro do quarto. Helffrey levantou-se devagar, deu uns passos e fechou a porta dupla da sacada. Agora, o aguaceiro chiava inteiramente por externo. Ele sentou-se de novo; seu olhar frio como o gelo.
— A sudoeste do novo pacífico, existe um arquipélago com três pacíficas ilhas.
Martin fez uma interrogação com os olhos, mas Helffrey prosseguiu:
— Você provavelmente nunca ouviu falar de nenhum arquipélago naquela região. Sei disso porque explorá-lo sempre foi estritamente proibido. Ele é um tabu dos mares; muito antes de nós e antes mesmo do seu avô. Seu nome é Soeve, e sua maior ilha se chama Goa. Uma ilha habitada por um povo antigo, arcaico e seguidor de um dos Sete Arbitrários: o finado Zelos, também conhecido como “Deus da Fartura”, em mitos Vastemagianos
O rapaz pareceu ficar mais interessado.
— Um arbitrário, é? — perguntou ele. — Aqueles deuses que adoravam antigamente?
— Antigamente é uma palavra forte. — disse Helffrey. — Mesmo assim, você está certo. No passado, nos referíamos a esse povo como os Goanianos. Pode-se dizer que são tímidos. Reclusos, inclusive. Esse povo cumpre as regras de um antigo tratado escrito, um testamento do deus deles: este documento proíbe a saída de nativos e a entrada de estrangeiros no país. Não se encontram Goanianos em terras estrangeiras, e aqueles que se aventuram pelo arquipélago de Soeve terminam nunca retornando. Pode parecer um conto de marinheiro velho, eu sei, mas tudo isso está muito bem documentado.
Martin até pensou em um questionamento, mas resolveu ouvir com paciência.
— De qualquer forma, o que eu quero dizer é que, até hoje, pouco ou quase nada se sabe sobre a gente que habita aquela parte do mundo. Sua cultura foi esquecida pelo tempo, seus laços com o mundo se romperam, e seu território tem estado quieto e pacífico por centenas de anos. Existem muitas teorias a respeito do que acontece nessa ilha misteriosa. Alguns já chegaram a inferir, até mesmo, que exista Magia Verdadeira em solo Goaniano, mas nada disso nunca foi comprovado. Goa está protegida geograficamente, com seu mar violento e redemoinhos mortais. Nunca foi atacada e nunca atacou. No entanto...
— No entanto? — acelerou Martin, ficando ansioso.
Helffrey virou-se em direção à janela.
— No entanto... algo aconteceu. — o ministro explicava. — Houve uma mudança, Mellowick. Diversas nações, incluindo a nossa, relataram uma súbita mudança meteorológica no último mês. Parece que a temperatura do vento que sopra das léguas marítimas aumentou, e uma assustadora onda de tempestades está chegando do sudoeste. Na última semana, o vento chegou a soprar com o dobro de velocidade, e sua temperatura continua aumentando. Pássaros exóticos estão migrando, e peixes tropicais tem sido reportados por pescadores. Em Vastemagie, essas migrações imprevisíveis chegaram a um extremo: grandes bestas anfíbias, ferozes e de cor rosada, estão invadindo as costas do continente. Nos livros antigos, esses animais tem um nome: as chamam de Salamandras Goa-Goa, se não estou enganado. Elas voam, cospem fogo, e se reproduzem rápido. São a coisa mais próxima que ainda temos de dragões, eles dizem...
Helffrey fez uma pausa, e um raio caiu à distância do castelo.
O barulho ecoou pelo quarto.
Martin absorvia tudo com o máximo de calma que conseguia.
— Mas... o que você quer dizer com tudo isso? — ele perguntou, e Helffrey sorriu.
— Você não vê, garoto? Dê uma olhada ali fora. Ouça o som da chuva caindo. Não está sentindo a tempestade? Ou só se esqueceu de que estamos em uma estação seca? Algo catastrófico está para acontecer, entende agora? Algo que será tão histórico quanto histérico. Goa está despertando. Não ouvimos nada sobre ela há séculos e, de repente, está despertando. Todos esses fenômenos estranhos são preocupantes, e é evidente que uma crise se aproxima. Para que você entenda a gravidade do problema, Mellowick, eu vou te dizer, agora, algo que é inacreditável e, mesmo assim, você vai precisar acreditar. Precisará porque até mesmo os talentosos pesquisadores de Vastemagie, uma terra que vive da magia, foram obrigados a investigar e acreditar neste absurdo, contra as suas vontades.
— Então diz logo de uma vez! — exclamou Martin, agora tomado pela ansiedade.
Helffrey juntou as mãos e fechou os olhos.
— A Ilha de Goa. — ele começou, com honestidade. — A Ilha de Goa vai explodir.
Dito isso, Martin deixou de funcionar por um segundo.
Houve outro relâmpago, e mais um raio caiu à distância.
— Repete. — ele disse.
— Disse que a Ilha de Goa vai explodir. — repetiu Helffrey.
— Explodir tipo o que?
— Tipo um balão. — esclareceu.
— Mas!
— Sim, eu sei.
— Mas como?!
— Esses são os detalhes que ainda não temos. — explicava o ministro. — Tudo o que foi concluído, na verdade, é que a tendência é que os fenômenos piorem até que, eventualmente, desapareçam. Desapareçam, é claro, junto de tudo que estiver em um raio que alcança a costa de quatorze países diferentes. Eles! quer dizer, nós, seremos alvos de ondas colossais; megatsunamis, se preferir. Se nada for feito, o mundo acordará com um maremoto inigualável, dentro de alguns meses, e a ilha de Goa irá mesmo, feito uma bomba, explodir em centenas de milhares de pedacinhos. Essa é a nossa situação atual.
Ao ouvir tudo isso, a espinha de Martin gelou por um momento. O rapaz sentiu pesar na garganta um mal estar desagradável e que ele raramente sentia: seu nome era ``medo´´.
Diante do rosto sério e resoluto de Helffrey, agora, só restava uma pergunta a fazer.
— E o que eu tenho a ver com tudo isso?

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