...Alguns minutos se passaram, e o ministro respira fundo.
Martin ainda estava aguardando uma resposta.
— Todo problema necessita de uma solução. — ele começa. — Quando as pessoas se aproximam de uma crise, é importante procurar por segurança, mas a prioridade deve ser manter a calma e tomar as decisões adequadas. A verdade é que, se Goa for mesmo explodir, e isto for um fenômeno natural, então não podemos fazer nada a respeito. É óbvio que não podemos competir com a natureza, mas, antes de nos prepararmos para a chegada do desastre, o curso de ação ideal é tentar impedi-lo. Por isso, os países demandam certeza. Eles precisam ter certeza de que o nosso inimigo é, realmente, a natureza: só assim, com essa confirmação, o mundo aceitaria se render às circunstâncias.
— Eu não estou entendendo. — questionou Martin. — Confirmar? Mas confirmar o que? Só pode ser natural. Quem teria a capacidade de fazer algo desse tipo?
Helffrey lançou um olhar severo. — Pode provar? — perguntou.
— Que?
— Provar, eu disse. Provar que não há ninguém capaz de fazer isso. Provar que, em uma terra onde os guerreiros dominam a magia, partem montanhas e quebram aço com os dentes, é impossível haver gente atrás disso. Provar que as desconfianças, de todo o mundo, na verdade estão erradas, mas que você está certo. Consegue?
O rapaz tomou a pergunta em silêncio, porque ele não tinha uma resposta.
— Foi o que eu pensei. Mas, entendendo isso, o restante do nosso acordo é simples. O que Vastemagie quer é uma triagem. Dentre os quatorze países que mencionei, três estão no nosso continente: Antunes, Coutinho e Nambuco. A fim de confirmar a situação da ilha e o que está acontecendo, foi organizada uma expedição multicontinental. Os países estão enviando os seus melhores homens: militares e voluntários, em uma perigosa viagem para dentro do arquipélago: com o único objetivo de encontrar, identificar e, se possível, neutralizar a causa do fenômeno que destruirá Goa dentro de alguns meses.
Helffrey esperou por uma reação de Martin, mas não houve nada de imediato.
— É claro que isso não seria um problema para mim... — o ministro continuava — Mas, como você deve imaginar, tivemos uma surpresa. Na carta de convocação que recebi, durante a minha última reunião diplomática no além-mar, demandaram algo irritante. Eles esperam, ou melhor, exigem, que Saborin seja representada por um de vocês: os Mellowicks. Quando o seu avô estava vivo, ele fez um belo trabalho divulgando o nome da sua família. Sua marca como governante ficou cravada na história diplomática do continente, e eles acreditam que os seus descendentes estejam no mesmo calibre. Claro, se ele ainda estivesse aqui, com certeza seria o suficiente para cuidar do problema, mas...
— Mas ele está morto. — interrompeu Martin.
— ...Certamente... — depois de uma pausa, disse o ministro. — Portanto... eu preciso de outra pessoa. Eu tentei argumentar contra, tentei mesmo, mas não teve jeito. A verdade é que o além-mar não nos enxerga como iguais, e você sabe porquê. Gente poderosa, igual ao seu avô, não nasce em um reino pacífico e pleno como o nosso: uma terra onde não existe magia e em que a guerra é escassa. Eles nascem, ou melhor, são criados em Vastemagie: onde a guerra é selvagem, a natureza perigosíssima e a mágica é abundante. De acordo com eles, os riscos dessa expedição superam as expectativas, e eles não aceitarão um fracote qualquer como o representante de Antunes.
— Mas o seu comandante acabou de me derrotar, não foi? — dizia Martin, ao cruzar os braços, e se inclinou para trás sobre a cadeira — Por que não envia ele?
— Não ouviu nada do que eu disse? — criticou Helffrey. — Ele não é um Mellowick.
— Aposto que eles não notariam a diferença.
— Eu notaria.
— Helffrey. Sei o que está fazendo.
O ministro recuou. — Como?
— Eu não estou aqui porque eles pediram um Mellowick. — continuou Martin. — Estou aqui porque você está poupando recursos. O além-mar tá certo, mas você mente. Gente poderosa também existe em Saborin; a diferença é a quantidade. Cainfield é muito forte, sim, eu notei isso quando lutei com ele. Do jeito que estou, eu nunca poderia vencê-lo no mano a mano. O problema é: no seu exército, quantos Cainfields ainda restam por aí?
Ao que Martin encerrava a fala num sorriso, o rosto de Helffrey se via mais escuro.
— Moleque desgraçado. — murmurou.
Mas Martin ainda não tinha terminado.
— Fazer Cainfield se passar como um primo meu não seria difícil. — ele disse. — Difícil mesmo seria substituí-lo, caso algo desse errado. O além-mar tem guerreiros de sobra, mas você não tem. Se essa ilha pode mesmo explodir, como você tá dizendo, então seria loucura mandar um dos seus melhores homens em uma expedição dessas. Não pense que você pode me fazer de trouxa. Você não está frustrado por precisar de um Mellowick, está frustrado por precisar de mim. E eu não vou ser a sua oferenda. Pode esquecer o acordo.
Ao ouvir a dedução do menino, Helffrey se calou.
O ministro sentou-se, lentamente, no corrimão de uma das suas janelas, coçando o seu queixo pontudo e de barba rala. Lá fora, o tremor de outro raio fez cair um vaso de alguma sacada próxima. Martin, embora tivesse mais observações a fazer, estava mais interessado em esperar por uma resposta. Ela demorou um pouco, mas logo veio à tona:
— Surpreendente. — disse Helffrey, e soltou uma risada rouca. — Vindo de você, eu já estava mesmo esperando um não logo de cara. Mas não pela resposta. A resposta foi diferente. Eu nunca estaria preparado para as observações que você fez. Você leu tudo isso como uma fábula: em colocações diretas e sem dificuldade. É surpreendente. Acho que você será muito útil nessa expedição, afinal.
Mas Martin não ficou contente com o comentário.
— O que tem de errado com fábulas? — começou ele. — E outra coisa, por acaso você tá surdo? Eu disse que não vou ser a sua oferenda. Não vou à expedição e ponto final.
— Tenha paciência, — dizia Helffrey — ainda nem tocamos na recompensa.
— E também não é porque se chama fábula que é uma história para criancinhas.
— Quer esquecer a droga da fábula?
Martin, ao ouvir isso, pausou e se sentiu acuado por um momento.
Isto até ele se lembrar de quem dependia de quem ali.
— Se quer acabar logo com essa maracutaia, — replicou — então diz logo a porcaria que você quer me oferecer! Do contrário eu não posso dizer que não quero!
Helffrey ajeitou o paletó, engrossou a voz e endireitou sua coluna.
— A proposta é bem simples! — o ministro exclamava em voz alta — Se me fizer esse último favor, então eu te deixarei ir. Te darei sua liberdade. Não a liberdade deste castelo, mas a liberdade que você realmente procura. Se ir à essa expedição, Martin, eu, Helffrey Jousquideau, darei para trás em minha palavra uma ÚNICA vez, e farei uma exceção.
“Você entende?”
Pela primeira vez, em todo este tempo de conversa, o pulso de Martin acelerou.
O ministro continuava:
— Toda semana, uma frota de navios cargueiros parte do norte de Antunes em direção ao além-mar, em direção à WC. Este é o único meio de transporte, no continente inteiro, capaz e seguro o bastante para levar alguém de Saborin à Vastemagie, nosso cont. vizinho. Mas desde que nossas bordas foram fechadas, estas são as ÚNICAS viagens intercontinentais feitas nesta parte do mundo. Ninguém pode entrar e ninguém pode sair: não sem a minha permissão. E eu sei o que você quer. Então por que não fazemos um acordo?
Antes de responder, o rapaz precisou se acalmar por um momento.
— O que você está escondendo?
— Nada. — disse Helffrey. — Se concluir a expedição, eu te darei duas opções, e este é o acordo. Você poderá voltar à Antunes e embarcar em um navio até WC, ou ficar no arquipélago e encontrar o seu próprio caminho até Vastemagie. Claro que a segunda opção é o que você faria naturalmente, mas também agreguei uma alternativa segura, caso prefira.
— Helffrey. Isso não é coisa que se brinque. — disse Martin: seus olhos cianos cerrados como fissuras e brilhando com o reflexo da lareira.
— Eu pareço estar brincando? Eu deixei claro como o assunto era sério desde o princípio. — ao dizer isso, Helffrey retornou à sua cadeira de escrivaninha. — O que você disse era completamente verdadeiro. Homens fortes existem, mas não se criam fácil, em um continente como Saborin. Para que a minha visão de Antunes se torne concreta, preciso poupar forças e construir um exército sólido, poderoso e confiável. Só assim poderemos defender nossa terra, nosso povo e nosso progresso tecnológico contra as ameaças do além-mar no futuro. Não posso arriscar perder um soldado poderoso, e estou disposto a fazer qualquer coisa por isso. Até mesmo atender ao desejo egoísta de um pivete mimado como você. Estou te dando a chance de escapar de mim. A primeira e última. O que me diz?
Ainda calado, Martin travou os olhos na escrivaninha.
Lá fora, um relâmpago iluminou o quarto — mas, desta vez, não houve trovão.
Helffrey achava isto um incômodo. Justo? Sim. Mas um incômodo não obstante. O ministro era um homem brusco e objetivo, mas até mesmo ele tinha tato para negociações. Após um relâmpago desses, um silêncio dizia muito, e Helffrey estava disposto a esperar pelo trovejar da resposta de Martin. Como o quarto estava abafado, Helffrey fez questão de ir abrindo suas janelas — desdobrando os vitrôs um de cada vez, em uma fileira linear.
Em sua escrivaninha, os olhos de Martin observavam tudo.
Ao contrário de seu velho avô, o novo ministro era um fã incorrigível de chá — coisa que o rapaz ainda não havia notado. Fixamente, Martin pensava sobre toda a conversa, usando seus miolos, mas seus olhos se viam soltos pela tábua polida de carvalho e analisavam cada pequeno milímetro de detalhe que podiam observar.
Havia formigas na mesa.
Muito açúcar atrai formigas. Isto é óbvio, e Helffrey deveria pensar nisso antes de trazer chá e vinho ao seu quarto; aparentemente todos os dias. Sua escrivaninha, apesar de se parecer limpa, tinha várias, pequenas manchas persistentes e avermelhadas da cor do vinho; sem contar os borrões foscos e escurecidos que provavelmente foram causados por incidentes do derramamento de bebidas. Em pouco tempo, Martin foi capaz de traçar todo o caminho das formigas: elas estavam subindo através do pé esquerdo da escrivaninha de Helffrey. Seu caminho, a partir do chão, se originava de uma brecha no azulejo do quarto — por onde as formigas cruzavam, tal como um pequeno desfiladeiro — e a saída original parecia ser advinda de debaixo do armário de arquivos, que repousava muito próximo à escrivaninha. Cada uma das criaturinhas estava devidamente enfileirada em uma ordem rígida, prática e funcional. Logo ao lado da caneca usada de Helffrey, estava o prêmio delas: uma colher pequena, minúscula, metálica, com uma crosta suculenta de açúcar e um pingado velho de chá que tinha cara de já estar cristalizado.
Uma a uma, as formigas chegam e vão. Carregando os seus cristais açucarados.
Martin admirava os animais: e com formigas não eram diferentes. Ele respeitava o que eram capazes de fazer, mas, de alguma forma, ele sentia algo de errado em tudo aquilo.
Ele sentia que aquilo não era o bastante.
“Se ao menos elas soubessem.”
Seus olhos, arregalados e vigilantes, voltaram-se para o pote de açúcar, somente há alguns centímetros de distância da colher, que Helffrey havia deixado aberto.
Uma a uma, as formigas chegam e vão. Carregando os seus cristais açucarados.
Todas à colher. Pacientemente. Sem desvios ou questionamentos.
“Se elas soubessem, não se contentariam com isso.”
“Se tivessem a oportunidade, não se contentariam com isso.”
Mas apesar disso, Martin sabia da verdade: formigas não tinham escolha.
Não tinham escolha. Mas o pote de açúcar continuava intocado.
— O que vai escolher, afinal? — logo insistiu Helffrey.
Neste instante, os olhos de Martin voltaram a dialogar com seus pensamentos.
Lentamente, ele colocou-se de pé e se virou para o ministro.
— Eugh Vough. — disse o rapaz: sua boca transbordando com açúcar.
Com um último relâmpago, o ministro pediu para que ele se repetisse.
Martin se virou com um olhar sério, resoluto e que se assemelhava a qualquer coisa — menos uma formiga. Ele havia tomado sua decisão, e engoliu o açúcar antes de dizê-la:
Mas o trovão, desta vez, chegou retardado: abafando as últimas palavras do rapaz.
As coisas seguiram o seu rumo: e em devido momento os dois se despediram.
~
Mais tarde, naquela noite, Helffrey cometia o mesmo erro de sempre.
Com um lenço nas mãos, o ministro limpava sua escrivaninha: agora manchada de um vinho escuro e persistente em particular. Entre os tijolos de mármore, Helffrey pôde escutar os passos de alguém subindo as escadas. Ele não disse nada, mas aguardou, pois o passo manso e discreto indicava que aquilo não era o chanceler outra vez.
Mocha não demorou a entrar no quarto — sem bater.
— Então foi para isso que o trouxe até aqui? — ela reclamou.
Helffrey tentava esfregar mais forte. — Ah, Senhorita Mocha... Boa noite.
— Responda a minha pergunta!
— Sabe que estou cansado do assunto?
Em apenas cinco ou quatro passos, Mocha alcançava a escrivaninha.
Ela a acertou numa forte palmada com ambas as mãos.
— Por que não me contou antes?!
O ministro, ao desistir de livrar-se da mancha, passou a organizar os pertences de sua escrivaninha. — Porque sei como você reagiria. — ele respondeu.
— Mas é claro que sabe! Quer sacrificar uma criança? E o neto do antigo rei, ainda por cima? O que acha que as suas irmãs, e Darla, irão dizer? Você não tem respeito?
— Ele não é uma criança, Mocha.
— Comparado a nós dois, ele é!
— Então deixe que ele se divirta. Eu lhe dei as opções: voltar ou ir embora, ele decide. Pessoas inquietas, como ele, não são convencidas com palavras. Ele precisa ver para crer, então vamos deixá-lo ver. Quem sabe o que ele fará quando encontrar o que deseja, não é?
— Isso não é certo, Helffrey.
— Tudo depende da resposta dele.
Ao ouvir isto, Mocha fechou o rosto.
— Francamente! Goa? Nem ele é tão inocente para dar a resposta errada!
— Ele já deu. — disse Helffrey.
— Deu o que?!
— A resposta errada.
— E o que ele disse??!
Curiosamente, Helffrey, que se preparava para tampar o seu pote de açúcar, deu uma olhada no interior por força de hábito. Lá dentro, o homem viu uma única formiga: dando voltas circulares e explorando as dunas de açúcar. Apesar de um punhado do seu demerara estar, agora, faltando, o ministro tomou a memória com sadismo e lembrou-se de algo.
— O que ele disse, Helffrey??!
— “Eu vou.”

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