Com exceção da escolha crítica que mudaria a sua vida para sempre, não houve muito mais, da noite passada, que valesse à pena ser comentado por Martin.
Após sua conversa com Helffrey, tudo o que o rapaz pôde fazer foi gastar um tempo com a família, fazer um lanche na cozinha, tomar um banho de água gelada e apertar sua bagagem (vazia) para que estivesse pronto para a estrada — e quando o sol raiou, no dia seguinte, ele já estava na mesma há um tempinho.
Ferrovias rasgavam o país de Antunes. Isto era do conhecimento comum. E quando Martin fechou as pálpebras, em algum horário muito próximo à madrugada, deram-lhe duas ou três horas contadas de sono até que ele foi obrigado a levantar-se e embarcar em um trem noturno em direção ao Oeste.
Seu destino era o maior porto do continente: Toscope.
Por entre uma das cabines, à medida que seu grande transporte se aproximava da costa, notou que já era de dia, e ao acordar com o tranco do maquinário freando na estação, Martin viu-se enfim despertando outra vez. Mas desta vez não numa cela escura e suja.
Ele acordou sonolento e esparramado meio a um dos assentos, ao passo que as outras dezenas de passageiros saíam às pressas desembarcando da grande máquina. Martin havia cochilado com o chapéu no rosto e as mãos atrás da nuca, e acordara confuso e cansado, com o passageiro em seu lado cutucando-o na tentativa de desperta-lo, porque quase todo mundo já havia desembarcado.
Foi assim que o rapaz acordou — coçando os olhos e dando um longo espreguiço, ao que banhava seus olhos no primeiro feixe de luz que viu penetrar a janela. E viu-se também contemplando o horizonte através destas. Eram grandes e ensolaradas planícies costais na distância, prescindindo as fortes marés e acolhendo-o em sua nova aventura da melhor forma que podiam. Martin lembrou-se também, enquanto ainda levantava, bêbado de sono, do verdadeiro motivo de sua viagem, e de repente suas olheiras sumiram, sua preguiça morreu e assim ele despertou-se realmente. Depois disso, desembarcou com pressa, saltando trem a fora, nas mãos uma pequena bagagem e sua espada embainhada, onde por lá espreguiçou-se por uma longa e última vez, já propriamente disposto e pronto para o dia.
Meio a densa correria da estação, agora, Martin estava de pé na cidade do maior porto do continente: o Porto de Toscope! Tratava-se de um grande e elegante porto construído na ponta de uma enorme costa marítima conhecida como Poeiréu. Uma simpática e grande praia, batizada em jus a uma curiosa areia azulada que a cobria por toda a sua extensão: já dita, por velhas lendas, ser uma autêntica poeira celeste caída lá do céu.
Já o nome da cidade era Tosco. Literalmente. E não vamos falar mais sobre isso.
Deixando a estação, Martin, diante dum porto daqueles, com um nome de se prezar, viu-se diante de uma agitação muito maior do que ele jamais se lembrara, pois já havia estado lá antes, embora não em muito tempo. Descia por uma cidade estreita e muito densa, banhada pelo sol e dividida em pequenas vielas que se estendiam em escadas meio aos comércios e residências: tudo ligado por grandes varais e bandeirolas presas a fios de janelas em janelas. Por lá, o rapaz comprou uma ou duas balas, e também conversou com alguns jornaleiros e comerciantes, no meio aos estandes das lojas e cadeiras em botecos, mas nada de muito interessante lhe ocorreu. Isto até que, descendo mais um pouco a cidade, viu finalmente a primeira palafita do porto, ao que uma ágil gaivota roubava o pirulito de chocolate que ele lanchava.
O verdadeiro porto era rodeado por prédios, lojas, bares e estalagens, tal como na cidade, e entre suas colossais palafitas emadeiradas haviam tendas e brechós de todos os tipos, cores e tamanhos, repletas também de tudo o que era gente, de todos os tipos, cores e tamanhos. O povo vestia trajes escuros, vívidos, e coloridos vestidos, refrescantes camisas e mesmo casacos de inverno, trajados por todo tipo de gente que por todo tipo de navio e cruzeiro aportavam por lá. De doca em doca, embarcação para embarcação.
Em sua grande parte, Toscope era composto por um grande e gigantesco palanque de robustas palafitas acima do nível do mar, frente à pequena cidade portuária, e meio a essas, centenas e dezenas de milhares de passos faziam-se presentes. Iam de um lado para o outro em duros e rápidos galopes pisoteados pela estrutura de madeira, o que somados ao chiar dos navios, a sinfonia das marés e aos cochichos, conversas e anúncios por toda parte, tornavam-no, sem sombra de dúvidas, um dos mais vívidos e populares lugares de toda a grande Saborin.
Por muito tempo, o Porto de Toscope fora conhecido por toda a grande extensão marítima do continente para além do mar de neve (também chamado de além-mar), em Vastemagie, por ser a principal referência em serviços marítimos do território. Além disso, Toscope, por mais que não o parecesse, era uma única e privada propriedade independente de qualquer nação, fundada por grandes e ricos nomes das antigas navegações, que há muito tempo aportaram nos mares de Saborin (enquanto isso ainda era permitido). Ele sempre foi o porto mais seguro, com as rotas mais lineares e seguras para navios de todos os tipos, tal como para cruzeiros e viagens de qualquer duração, pois eram baseados nos antigos mapeamentos de Wermiel Toscope, o maior navegador Saboriano que já vivera, e uma antiga lenda desse mundo distante.
Naturalmente, o navio que levaria Martin e os outros, à uma expedição de tamanho calibre, não poderia estar aportado em outro lugar senão Toscope.
Por isso mesmo, Piston Pucker: o alvo de Martin, descansava em uma das docas.
Feito especialmente para essa viagem, e desenhado por um engenheiro Antuniano, o Piston Pucker foi um cargueiro projetado para suportar a pressão dos redemoinhos, fortes correntes e enormes ondas sem afundar. Esta incrível invenção, feita com uma tecnologia revolucionária, contava com o auxílio de estranhos e gigantescos pistões de borracha em suas bases, tal como um enorme sistema de boias e massivas rodas, que pairavam feito engrenagens em seus lados, juntas a grandes turbinas e hélices acopladas ao seu bolbo. Como isso funcionava? Martin não tinha a menor ideia. Na verdade, não estou seguro de que o autor tenha, mas tenho certeza de que a resposta faria muito mais sentido nesse mundo do que o faria no nosso: e é melhor a gente se conformar com isso.
Mesmo que fortemente reforçado com metal, a principal composição do cargueiro ainda era de uma maciça madeira esverdeada. Tinha gigantescos adornos beges e dourados nas estribeiras, e além disso contava com duas finas, mas gigantescas moedas de cobre em ambos os lados, somente por decoração. Para muitos, o P.P era apenas mais uma embarcação misteriosa, de semblante intimidante e poderoso, que boiava ancorada no porto. Para Martin, no entanto, ele era um instrumento. A enorme passagem para o seu futuro: uma que, com sorte, não lhe exigiria nenhum custo extra, porque ele já estava duro.
Martin deu uma corridinha, atravessou a multidão, e aproximou-se do cargueiro.
Ele dava uma olhada na embarcação, apreciando a tecnologia de ponta, quando alguém veio receber-lhe de maneira espontânea e amigável. Algo como agarrar o seu ombro pelas costas, coçar a garganta e emitir o som de um hipopótamo raivoso.
Martin virou-se, imediatamente, já com as mãos na bainha.
Atrás dele, estava um homem muito alto, com um corpo atlético e um enorme macacão azul que, com força, ele segurava pelos suspensórios. O marinheiro, como Martin quis supor, se inclinava para frente e para trás em uma carismática postura. Ao conseguir a atenção do rapaz, que relaxou ao ver que não se tratava do diabo, o marinheiro limpou a garganta e então colocou-se a falar:
— Posso ajudá-lo, jovem? — então disse com um fechado sorriso. — Parece estar um tanto perdido pelas docas. Haveria algo em que eu possa ajudar?
— Ah, obrigado. Mas não. — Martin replicou solenemente. — Eu já avistei a embarcação que estava procurando. Só estou matando o tempo.
— Certamente. De qualquer forma, eu não chegaria muito perto desse aqui se fosse você. — disse o marinheiro, referindo-se, é claro, ao Piston Pucker. — Esse cargueiro está numa zona reservada hoje. Veja, se for para matar o tempo, recomendo que o jovem vá para as docas das caravelas, ou mesmo a dos cargueiros próximos a feira principal. — dizia ele apontando para leste do porto, donde Martin já havia vindo, e onde também se formava uma gigantesca multidão. — Essa parte das docas está recebendo uma porção de passageiros perigosos e problemáticos, por isso decidi ser melhor que eu o avisasse.
— Eu agradeço pelo aviso, mas acho que só posso esperar aqui. — então disse Martin.
Distraído com seu olhar, mirado no topo do cargueiro, o rapaz notou lá de baixo uma breve confusão que se formou no convés, quando um esguio e armado homem fora casualmente arremessado de lá, caindo no mar de cabeça para baixo e gritando.
— É, não tem dúvida. — Martin voltou a dizer. — Essa é a minha parada, mesmo.
— Perdão, mas tem certeza que está para embarcar NESTE navio? — questionou o homem. — Ouça, esse cargueiro não está embarcando nem civis nem comerciantes. O Piston Pucker é uma embarcação privada, e está de reserva para partir numa perigosa viagem no dia de hoje. Mas você não estaria incluído nela, estaria?
— Eu estou sim. — Martin replicou, meio impaciente. — Olha, eu não queria ser grosso, mas não tem passageiros mais necessitados para você interrogar, não?
— Opa, opa... Não se brinca com esse tipo de coisa, jovem. — respondeu o marinheiro, lançando-o um olhar muito cético e frio, como se corrigindo uma criança levada por contar uma mentira. — Não se brinca mesmo, está ouvindo?
— Escuta aqui... — o rapaz então resmungou, sorrindo de incomodada forma. — Não precisa suspeitar tanto assim, está bem? Isso é insultante. Já disse que vou embarcar!
— Se o que você diz é mesmo verdade, pode me dizer qual é o seu nome?
— Martin.
— Martin?! — replicou o marinheiro, parecendo surpreso. — Sobrenome?
— Mellowick! — Martin de repente exclamou. — Eu sou Martin Mellowick! Fui enviado pelo primeiro ministro de Antunes, Helffrey Jousquideau. Você quer uma carta ou o que?!
— MENTIRA! — então gritou o homem, subitamente, e agachou-se para perto de Martin com uma esbugalhada expressão, o que o assustara de maneira a chacoalhar os ouvidos. — Martin é você? Você, este na frente de mim? NÃO PODE SER!
— AH, NÃO FIQUE TÃO SURPRESO, SEU IDIOTA! — Martin gritava de volta, abrindo os olhos tanto quanto. — Quem MAIS você pensa que eu sou?!
Foi então que, recompondo-se num breve instante, o marinheiro ergueu uma postura ereta, e frente ao irritado rapaz encararam-se em profundo silêncio. De repente, abrindo a palma da mão, o grande homem então checara uma enorme lista rabiscada em tinta meio à sua enorme palma. Lendo risca por risca, pareceu muito perplexo, até encontrar o que procurava, quando olhou para Martin de novo, sorrindo de bizarra forma, fechando seu punho e dizendo:
— Ah, pois bem! Então você é mesmo Martin Mellowick. Sendo assim está tudo certo. Já estávamos esperando por você por um bom tempo. Tudo o que precisa fazer é me entregar o seu bilhete e estaremos entendidos. Está de acordo?
— Mas é claro que eu não estou mentindo! — o rapaz questionou. — E também não menti quando mencionei o bilhete! Eu não tenho nada disso comigo não.
— Hahaha! Não seja tolo! — então replicou ele. — Não há a necessidade de entregar nada, jovem. Deixa que eu tomo ele de você, simplesmente.
— Que?
Martin não teve muito tempo para reagir quando, neste exato momento, o silêncio desconfortável foi interrompido por um vulto — seguido de um rasgar de vento. Rapidamente, o marinheiro sacou, detrás das costas, a sua enorme palma: alvejando Martin com um poderoso tapão cujo trajeto sônico fez voar poeira do chão. Mesmo assim, a mão parou de repente. Sem impacto, sem estralo. O que sobrou, na realidade, foi apenas a imagem de dois homens cruzados em uma estância de combate: a mão destruidora há poucos centímetros do rosto de Martin, sim, enquanto a rapieira do rapaz cessou bem diante da artéria carótida do marinheiro — pronta para fazer cosquinha na sua garganta.
Um empate: muitos diriam. Mas para a comissão de bordo, já era o bastante.
— Muito bem. — disse o alto marinheiro, e guardou seu punho batendo a poeira do peito. — Você es Save tá capacitado. E direto no pescoço, hã? Que menino cruel.
Martin, que detestava levar sustos, resmungou algo bem feio e saiu andando em direção à prancha. — Espero que você não tenha rasurado o meu bilhete. — disse.
Ao acenar, o marinheiro ia ficando para trás.
— Boas vindas à bordo!

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